| "Algum de nós
já vivenciou, ou presenciou situações específicas,
fundamentais até, nas quais não reconheceu o espaço
do outro, ou não teve o seu reconhecido. São aquelas
quando precisamos de absoluto silêncio..." |
Meses e meses se preparando para o concurso. Chegava
a hora. Sono mal dormido, culpa pela falta de emprego fixo, assistindo
à empregada ir embora, aos filhos mudarem de colégio
e à esposa fazendo mágica para que seu salário
conseguisse suprir as despesas mais básicas. Ele contribuía
com o pouco que chegava dos bicos esparsos. |
Nervos à flor da pele. Era assim que Nestor se
sentia à véspera da prova. Em momentos como esse, a pessoa
precisa, sim, ser considerada o centro das atenções e ter
seu espaço preservado.
Da mesma forma como um colega de palco, não se contendo na vez
do outro, chama para si a atenção da platéia no exagero
de um gesto, numa mudança de marca, ou mesmo no leve meneio de
cabeça, ou na direção de um olhar; também
na vida encontramos mestres em roubar a cena. Seria o caso, por exemplo,
se a mulher do Nestor insistisse em convidar as amigas, cada uma com o
prato salgado ou doce, para festejar seu aniversário naquele sábado
que antecedia à prova do marido, justificando que aniversário
precisa ser comemorado no dia. A menos que ele pudesse usar a festa para
relaxar, mas não se fosse tirar-lhe a concentração.
O dia era dele, e a esposa poderia bem se contentar com as flores e com
o café na cama, pelo menos por hora.
Algum de nós já vivenciou, ou presenciou situações
específicas, fundamentais até, nas quais não reconheceu
o espaço do outro, ou não teve o seu reconhecido. São
aquelas quando precisamos de absoluto silêncio, e o outro despenca
falar de um assunto que em nada prejudicaria fosse abordado mais tarde;
ou resolve fazer exatamente agora a arrumação da casa, já
várias vezes adiada, e não pára de perguntar o que
deve ou não ir para o lixo.
A indelicadeza em roubar a cena aparece naquela que quer mais atenção
que a própria noiva. Exagera no vestido, no penteado, no discurso
improvisado.
Existe até quem compete com o morto. Nem era tão ligado
a ele assim, mas faz tamanha cena de comoção no velório,
que acaba carregando consigo uma meia dúzia para lhe dar consolo.
Ninguém suporta conviver com gente mimada, mas, vez ou outra, qualquer
um de nós tem, sim, necessidade de ser o centro das atenções.
Artigos relacionados - clique no título
Seu parceiro é muito
egoísta? Saiba lidar com a situação
'Não
quero nem saber!'; saiba lidar com quem sempre diz isso
Até que ponto
ceder à necessidade de outra pessoa e como impor limites?
Estou errada em não
querer mais lavar a roupa de meu marido?
|