| Da Redação
Sempre tive a mais absoluta convicção
que o término de uma paixão era sempre algo doloroso com
tons fortes de desespero. Todas as paixões que tive e que vi em
amigos e em pacientes, sempre confirmaram este aspecto destruidor da paixão
acabada.
Tal era esta certeza que ao viver ou ver alguém nesta triste situação,
vinha-me logo a mente a frase da canção "De Frente
pro Crime" (de João Bosco e Aldir Blanc): "ta lá
o corpo estendido no chão!" A paixão é algo
tão preenchedor em nossas vidas que, ao experimentá-la por
inteiro, temos a impressão que uma outra pessoa brotou de dentro
de nós tal qual um nascimento espontâneo sem uma gravidez
antecedente.
Literalmente parimos o 'ser apaixonado' que em outras circunstâncias
habita o escaninho de nossas almas. Por dias ou poucos meses o 'ser apaixonado'
toma posse do nosso corpo e sai por aí, vivendo intensamente disfarçado
de 'nós seres centrados'.
O 'ser apaixonado' nos faz sonhar sem críticas ou limites mundanos,
faz-nos 'malucos beleza' ou loucos elogiáveis. O corpo gera energia
antes nunca experimentada, os toques desencadeiam sensações,
no mínimo exóticas, a pele se veste de um frescor tão
intenso que ao caminharmos temos a certeza que perfumamos as ruas da cidade.
Desafiamos as leis, quebramos hábitos quase existenciais, esquecemos
do trabalho, da família, dos amigos, das contas, dos prazos e de
quem éramos até pouco tempo atrás, antes de estarmos
tomados pelo vírus da paixão. Se por um lado esquecemos
de tudo, sem nos darmos conta, lembramos a todo instante da grandiosidade
de Deus! É isso mesmo, pois quando estamos em estado de paixão
olhamos o mundo de forma bem peculiar: reparamos nos raios de sol do amanhecer,
deslumbramos-nos com o céu estrelado e o poder de iluminação
da lua cheia, sorrimos mais, choramos o choro do prazer e tocamos o dedo
de Deus ao aceitar incondicionalmente o 'outro' que é o objeto
de nossa paixão, exatamente assim, como ele é, e mais ainda
imploramos que nunca, nunca mesmo ele mude. Mas tudo muda: as marés,
os ventos, os dias e a paixão. Esta vai desbotando, esmaecendo
suas tonalidades, perdendo o brilho, ganhando a palidez dos seres comuns
que vão desmaiar e por fim cair.
Caiu, levanta! Nada disso, pois o 'ser apaixonado' nunca sequer andou,
ele sempre flutuou, plainou acima dos mortais e do bem e do mal.
E agora que acabou, que o dia anoiteceu, a chuva inundou a cidade, príncipes
voltam a ser sapos e princesas se perderam em florestas ou foram trancafiadas
em sótãos tristes? "E agora José"?
Por incrível que pareça você ainda tem o poder de
escolha: ou deita e chora e reza pro tempo passar e te curar ou muda seu
modo de ver e sentir o ocorrido. Afinal, tudo pode ser bom ou ruim e até
assim, assim! E não necessariamente nesta ordem. Ruim é
nunca ter se apaixonado, pior ainda é ter se apaixonado e não
ter se permitido ter a paixão até a derradeira gota. Bom
é ter a lembrança cinematográfica dos dias que éramos
heróis de nós mesmos e nossos cavalos falavam inglês
e chinês. Ruim é não ter seguido a paixão,
como os mendigos de Joãozinho Trinta e Beija-flor!
Bom é ter feito tudo e saber que faria de novo, pois a paixão
lhe fez livre, destemido e imbatível por tudo e todos ainda que
por pouco tempo. Ruim é se queixar a Deus por ter se apaixonado
e pior ainda culpá-lo por ter deixado a paixão ocorrer.
Bom é agradecer a Deus pelos momentos inebriantes que te lembraram
a juventude ousada e liberta que já se empoleirava no quarto de
"troços" do seu interior.
Mas melhor ainda é descobrir que a paixão após os
40, não é igual as edições juvenis que tivemos.
Porque no fundo a vida só vale a pena se tivermos uma grande estória
pra contar.
Fonte: psiquiatra Dra. Ana Beatriz Silva
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