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Vocês se lembram do Capitão Caverna?
Coberto por aquela infinidade de pêlos desgrenhados e maltratados, com aspecto
'eletrizado', certamente o Capitão Caverna não tinha
tricotilomania, pois se tivesse enxergaríamos algumas falhas naquela 'maçaroca'
toda. A característica essencial da tricotilomania (esse nome
tão estranho e complicado) é o desejo ou impulso incontrolável
de arrancar fios ou tufos de cabelo. Muitas
vezes, esse comportamento pode se tornar tão automatizado que a pessoa
age inadvertidamente, sem se aperceber dele. Pode se tornar tão grave a
ponto de a pessoa ficar com extensas falhas no couro cabeludo, sobrancelhas ou
cílios. Arrancar fios de cabelo de outros locais, como barba e pêlos
pubianos, são ocorrências bastante incomuns. A atitude de
arrancar fios em si já seria bastante estranha (e quem sofre de tricotilomania
tem completa consciência da estranheza do próprio comportamento),
mas, após arrancar os fios, muitas pessoas com esse transtorno ainda se
engajam em comportamentos como alisar os fios, enrolando-os entre os dedos, passando
por entre os lábios e brincando com eles de maneira geral. Mais raramente,
algumas chegam a comer as raízes dos fios ou mesmo a engoli-los, o que
pode até levar à necessidade de cirurgia para a retirada dos bolos
de fios que se formam. Causa Não se
sabe ao certo o que causa a tricotilomania, mas certamente o fator biológico
e hereditário é predominante, em razão de sua grande ocorrência
em famílias em que um dos membros já teve TOC (transtorno obsessivo-compulsivo),
ou algum transtorno do espectro TOC. Cabe aqui uma pequena explicação
do que vem a ser esses transtornos comportamentais, acima citados. O TOC é
um transtorno psiquiátrico, conhecido popularmente como manias e que causa
extremo sofrimento ao portador. Caracteriza-se por pensamentos obsessivos e intrusivos,
sempre de natureza ruim, como pensar exaustivamente que irá se contaminar
ou que um ente querido morrerá, por exemplo. Na tentativa de aliviá-los,
o portador adota comportamentos compulsivos e incontroláveis (rituais),
tais como lavar as mãos e tomar banho várias vezes ao dia, mania
de limpeza, de arrumação, de deixar tudo simetricamente organizado,
checar várias vezes as trancas das portas, entre muitos outros, o que gera
mais angústia e constrangimentos, pois são comportamentos perceptíveis
aos olhos dos outros. Já os transtornos do espectro TOC,
como a mania de arrancar o cabelo (tricotilomania), lembram muito o TOC, mas que
não se configuram neste transtorno propriamente dito. Muitas características
são semelhantes, como sintomas, idade de início destes, curso ou
evolução clínica, origem, história familiar, modo
de transmissão genética, semelhança e respostas positivas
quanto ao tratamento, mas na verdade são alterações de comportamento
que se constituem em uma entidade clínica independente por si só.
Em geral a tricotilomania começa na infância ou na adolescência.
Na prática clínica temos notado que muitos adolescentes começam
a puxar os cabelos assim que percebem que a qualidade e a cor dos fios mudaram
em razão das alterações naturais da adolescência. Isso
é mais comum entre as meninas, que dizem não se conformar que o
cabelo tenha ficado mais grosso, mais ondulado ou mais escuro. Assim, algumas
se esmeram em catar fios destoantes do resto do cabelo. Usam o tato para sentir
a textura dos fios ou ficam observando no espelho até detectar fios não
assentados, crespos ou com qualquer outra característica que fuja ao padrão
por elas desejado. O ato de puxar os fios costuma ser precedido de duas
situações curiosamente opostas entre si: ou uma situação
de aumento de estresse, que cause ansiedade e nervosismo, ou situações
tranqüilas, de contemplação, em que a pessoa não tenha
nada de imediato para fazer e fique pensando. Nestas últimas, com freqüência
a pessoa começará puxar os fios distraidamente. Esse problema
ganha contornos dramáticos porque causa danos à auto-estima das
pessoas e muitas vezes também à sua estética. É comum
que deixem de sair de casa, passem a usar bonés e evitem ir à praia,
piscina ou se dedicar a quaisquer outras atitudes em que se exponham as falhas
do couro cabeludo. O tratamento, prolongado e difícil, envolve
a necessidade de ganhar maior controle sobre os próprios impulsos por meio
de medicamentos e psicoterapia de abordagem cognitivo-comportamental (Terapia
cognitivo-comportamental - TCC), o que sempre vem após bastante esforço
e perseverança. |