| "Os anjos precisam de espaço
para trabalhar, mas não querem, não podem ocupar todo
o espaço da condução de nossas vidas. Saber até
onde caminhar entre as próprias responsabilidades como ser
humano e deixar a direção para um motorista mais habilitado
ao chegar no limite pessoal é a verdadeira inteligência" |
Quando fui preso pelo regime militar em 1969, depois
de passar por uma sessão de porrada e choques elétricos,
fui colocado no “pau-de-arara”[1]. Era a forma de tortura
que eu mais temia. Fui pendurado ali e o interrogatório continuou,
mas sem choques ou porrada, embora os fios da maquininha de choque
já estivessem enrolados no meu dedinho do pé. |
Quando insisti que não sabia o que estava sendo perguntado, eles
resolveram me dar um crédito e foram buscar o meu contato na organização
que também estava preso no mesmo lugar.
Fui avisado de que se ele me desmentisse, eu estaria ferrado. Fiquei pendurado
ali alguns minutos que pareciam de elástico. Estava encapuzado,
mas pude sentir uma presença diferente na sala e algumas vozes
se alterando. Preparei-me para o pior e rezei pedindo proteção
aos meus anjos. Mais alguns instantes de silêncio, e começo
a ser descido da trave. Minha história havia sido confirmada, miraculosamente.
Continuei a ser interrogado, mas sem choques nem porradas, apenas alguns
gritos e ameaças mas nada que não pudesse ser controlado.
Tive uma sensação muito nítida de uma intervenção
espiritual.
Mecânica obscura
Durante anos vivi um conflito interior em relação a esse
episódio e a outros que se seguiram. Se existem mesmo seres angelicais
que nos protegem, se especificamente algum deles estava comigo e impediu
que eu fosse torturado no “pau-de-arara”, por que me deixaram
chegar até ali? Por que permitiram que um imbecil pisasse com seu
sapato no meu rosto? Por que permitiram e permitem tantas barbaridades?
Levei décadas para entender essa mecânica obscura.
Reparem que coloquei o verbo entender em itálico, na verdade deveria
ter colocado a palavra risos logo depois. Mas cheguei a algumas conclusões
baseadas num mix entre intuições e pensamento buscador.
Os anjos não poderiam impedir a minha prisão e a lógica
que se seguiu por questões óbvias: eu decidi entrar na chuva,
ou seja, assumi correr o risco de me molhar. Infelizmente tenho que entrar
naquele velho chavão cristão do tal livre-arbítrio,
embora eu não o aceite dessa forma literal (afinal como aceitar
o livre-arbítrio, na íntegra, depois de Freud?).
Mas então por que os anjos interferiram para evitar um suplício
maior? Uma resposta que tenho dado a todos que me questionam desde a publicação
do meu livro Falando com os Anjos, é: é preciso
criar uma via de comunicação com esses seres. A primeira
ponte desse caminho é a aceitação de sua existência
e acusar a sua presença na nossa vida. Além do fato espiritual
propriamente dito, você estará criando uma fôrma semântica
que dará sentido a uma série de eventos, que de outra forma
passariam despercebidos, seriam consignados à sorte, ao acaso ou
iriam parar na conta genérica de Deus.
Ego em retirada e entrega
Assim acredito que ao longo da minha curta vida antes da prisão,
eu já havia criado alguns atalhos até eles, e minha espiritualidade
já se manifestava intensamente. Mas também acredito que
os anjos precisam de espaço para agir, precisam que deixemos para
eles a tarefa impossível, abandonemos os esforços do ego,
que são sempre vãos. O peixe quando é pego pela rede
só se safa se não entrar em pânico, se não
insistir em sair se debatendo. Quando soube que os torturadores iriam
chamar o meu contato na organização, abandonei os esforços,
larguei mão de continuar a controlar a situação.
Praticamente disse: “Estou tirando o meu ego de campo, agora é
com vocês”.
Com o tempo a gente deve ir aprendendo a conhecer os limites, até
onde podemos ir caminhando pelas pernas do nosso ego, e quando precisamos
deixar as mãos do Imponderável nos levar sobre as águas
revoltas. Os anjos precisam de espaço para trabalhar, mas não
querem, não podem ocupar todo o espaço da condução
de nossas vidas. Saber até onde caminhar entre as próprias
responsabilidades como ser humano e deixar a direção para
um motorista mais habilitado ao chegar no limite pessoal é a verdadeira
inteligência.
Em última instância somos nós os responsáveis,
até pela correta convocação dos anjos que irão
nos auxiliar e na compreensão dessa intervenção.
Por fim, saber agradecer. Ser grato é a chave que fecha essa equação
espiritual. Abrimos reconhecendo a sua existência e a presença
ao nosso lado. No meio do caminho os invocamos e abrimos espaço
para trabalharem. No fim agradecemos, mesmo que o resultado não
tenha sido exatamente aquele que esperávamos. Pode parecer que
é pedir muito para as mentes mais racionais, mais objetivas, e
é mesmo. Mas o contrário é a mais seca e arrogante
solidão.
[1] Tortura onde a vítima tem os pulsos amarrados em volta das pernas
flexionadas e é pendurada numa trave elevada. Em geral o sujeito
fica nu e absolutamente imobilizado. Choques elétricos ou espancamento
é aplicado em suas partes genitais, ou em qualquer outra parte do
corpo.
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