| Da Redação
| "A separação
é necessária à vida. Se, por um lado, apresenta
um aspecto de dor e solidão, por outro pode se apresentar como
edificante. Pois é a partir da experiência de separação
que a possibilidade de individualidade apresenta-se como possível" |
Muito se escreveu e se discutiu nesta coluna acerca
das questões que convencionamos chamar de "amorosas".
Neste período, de pouco mais de um ano, diversas perspectivas
foram contempladas neste espaço de reflexão: diferentes
aspectos da traição, as possibilidades de se amar mais
de uma pessoa ao mesmo tempo, critérios de escolha, inter-relações
entre corpo e psique, entre amor e química corporal. Enfim...
diferentes olhares referentes àquilo que chamamos de Amor.
|
Um importante aspecto, entretanto, exige reflexão: o tema separação
pode figurar numa coluna que se propõe a discutir o amor? Evidentemente
que sim, e cabe a este artigo a tarefa de propor tal reflexão.
A experiência da separação se apresenta como uma realidade
humana típica. Prova incontestável deste fato, é
o nosso próprio nascimento: comprovadamente há vida intra-uterina,
mas nos referimos ao nascimento somente no momento em que, de fato, a
criança e mãe se separam. Ou seja, o nascimento é
consagrado pela separação de duas vidas, ambas pré-existentes,
que se reencontram em um outro nível de realidade.
Até então, o feto, apesar de pulsar e reclamar junto à
mãe (e as mulheres grávidas não me deixam mentir!)
é encarado como "alguém que está por vir".
De modo que o nascimento é, a um só tempo, uma separação
e um sinalizador de um novo momento de se relacionar com a realidade concreta.
No decorrer de nosso desenvolvimento psíquico inúmeras são
as ocasiões onde o mote da separação se apresenta,
especialmente na relação pais-filhos: o primeiro passeio
do casal após o nascimento do filho; o primeiro dia de aula; a
primeira noite dormida na casa dos amiguinhos; a primeira balada; o primeiro
namoro. A lista é interminável, fato que nos aponta à
percepção de que a separação é uma
realidade humana. Mas o que podemos perceber entre separação
e relacionamento amoroso?
Vivemos a realidade da globalização: a um clique de mouse
ou um toque de celular atravessamos o mundo; um minuto diante da televisão
e nos damos conta daquilo que acontece nos locais mais distantes do planeta.
Outra faceta deste fenômeno mundial refere-se à esfera econômica:
vivemos a globalização do capitalismo, onde seus valores
matemático-financeiros se impõe, não só no
âmbito comercial, mas também como parâmetros que regulam
nossas relações inter-pessoais.
Uma decorrência diretamente perceptível deste fato, é
a maneira bancária de nos mantermos em relação. Explico.
Passamos a viver e medir nossas experiências exclusivamente pelo
viés econômico, ou seja, o sucesso de um relacionamento é
medido pelo tempo de duração; o sucesso de um indivíduo
é medido, por sua vez, pela quantidade de relações
em que se envolve. A própria noção de mensurar (medir)
um relacionamento nos mostra quão arraigada esta percepção
financeira está em nossas existências. O que importa, então,
dentro deste viés, é "quanto" e não "como".
O que podemos perceber deste modo, é que a separação
ora entendida como um aspecto legítimo - dentre tantos outros -
da natureza humana, passa ao status de erro, falta, falha. Tratamos algo
próprio da experiência humana e, portanto, necessário,
como um deslize a ser evitado. E a culpabilização decorrente
deste processo nos afasta de um aspecto primordial da separação:
a possibilidade de emersão de nossa individualidade.
A separação é necessária à vida. Se,
por um lado, apresenta um aspecto de dor e solidão, por outro pode
se apresentar como edificante. Pois é a partir da experiência
de separação que a possibilidade de individualidade apresenta-se
como possível. É a partir da dor da separação
que surge a alegria da existência individual. E esta tomada de consciência
de nossa individualidade se dá, justamente, quando podemos nos
perceber "separados" do outro, como uma existência autônoma,
onde também passamos a perceber o outro como uma entidade única,
desejante, que também deve ser levada em conta como tal.
Podemos perceber aos poucos se delineando uma idéia de escolha.
De um lado, o chamado a uma percepção "econômica"
da separação, vinculada intimamente a idéia de quantidade
(mais é melhor); por outro, o chamado a um entendimento mais integrado
da idéia de separação, como um dos aspectos da existência
humana, percebido agora não mais como falha, mas como necessário
ao processo de crescimento individual.
Podemos entender esta diferenciação pelo prisma da dicotomia
individualidade/individualismo. Na primeira está a idéia
de um caráter especial em particularidade que distingue um indivíduo;
ou seja, fala daquilo que é único, que pertence de modo
particularizado, àquele ser humano. Aqui surge a idéia da
possibilidade do ego a serviço do Amor. Já na segunda, a
idéia embutida é uma existência individual, egocêntrica;
o indivíduo, nesta perspectiva, se norteia nos princípios
egóicos de satisfação imediata onde prevalecem as
vontades conscientes: é o Amor a favor do ego.
O que podemos perceber, então, é que dentro de uma perspectiva
materialista, onde se prioriza a quantidade, a separação
é vista e sentida como perda. Mas, diante de uma percepção
integral, onde procuramos entender cada passo por nos dado, como partes
de um quebra-cabeças - nossa vida - a separação pode
se apresentar não só como uma etapa, mas uma etapa edificante,
onde são colocados à prova nossos critérios éticos
de escolha. E a questão principal da separação diz
respeito justamente ao posicionamento ético que nos propomos e
propomos ao mundo.
Então, as escolhas que norteiam um relacionamento devem estar presentes,
também, no processo de separação. Este processo deve
ser ético e procurar criar uma nova síntese, ou seja, não
encará-la como perda, mas sim como um novo momento, onde se apresenta
um novo lócus consciente, um novo estágio de consciência,
trazendo à tona possibilidades de crescimento pessoal e novas opções
de vida.
O tema "separação" foi escolhido não só
pela relevância atual do tema, mas, também, por um motivo
especial: este artigo encerra as contribuições do grupo
S.E.J.A. junto ao site "Vya Estelar". E, dentro de uma perspectiva
integrada, nos separamos desta relação; relação
esta repleta de frutos e surpresas; relação esta baseada
em cumplicidade e respeito; relação esta, enfim, inteira.
Mas esta relação, como tantas outras de sucesso, chega ao
fim. Em nome de todos os membros do grupo S.E.J.A. agradeçomos
tanto aqueles que nos apoiaram como aqueles que criticaram, pois o fim
último de um relacionamento é a troca legítima e
honesta, sempre em busca de nossos caminhos. OBRIGADO!
P.S.:Como o fim de uma relação não equivale a silencio
absoluto, colocamo-nos à disposição daqueles que
queiram entrar em contato.
Fonte: Por Luiz
André Martins
Autores e
integrantes do Grupo Seja - Serviços e Estudos Junguianos Sobre
Amor: Carla Regino, Fernanda Menin, Helena Girardo de Brito, João
Paiva, Lilian Loureiro, Luiz André Martins, Mariana Leite, Marina
Winkler, Priscila Parro e Thiago Pimenta - sob a coordenação
da profa. Dra. Noely Montes Moraes
|