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Ziper
Funk me
Gustavo Brigatti
Então um dia, de tanto ler sobre Joss Stone, Amy Winehouse, Beyoncé, Alicia Keys e afins nos grandes cadernos de cultura, blogs descolados e rádios da moda, o leitor descobre que gosta de música negra. Aí baixa a “discografia” das chamadas novas promessas do R&B, funk, soul e blues e sai por aí, chacoalhando os ombros, crente que o que entra pelos seus ouvidos é, de fato, o que promete. Desculpa, mas você foi enganado.
O que essas novas divas vendem hoje, mais com o corpo do que com a voz, é carne de segunda, uísque falsificado, gasolina batizada. O verdadeiro significado da música negra não precisava de dieta macrobiótica, roupas de grife ou uma bunda empinada. Apenas voz e tesão. Tesão pela vida, pela música, pela história que estavam ajudando a construir, e tesão pelo simples tesão. Mas por favor, não acredite em mim. Vá para o www.lagrimapsicodelica.blogspot.com e procure por Original Funky Divas. Ou, se tiver um cartão internacional, dê um pulo na Amazon.com. Aí então, tire suas próprias conclusões.
O que todas essas garotas hiper-produzidas e de duvidoso gosto por roupas que ocupam hoje a seção de música negra das lojas de CD buscam com os pró-tools da vida, saía direto para o microfone de gente como Vicki Anderson, Marva Whitney e Lyn Collins. O que une todas elas é o Poderoso Chefão do funk, James Brown, que lançou, em 1998, o Original Funky Divas. O projeto reunia faixas de trabalhos solos de suas principais backing vocals - num tempo que ser backing vocal era muito mais do que fazer “u-hu”.
E é visível (ou audível...) o quanto não envelheceram. Os arranjos, as melodias, as levadas, tudo é tão harmônico que é difícil imaginar o que seria feito depois disso. A resposta é uma imensa linha de reprodução infinita da qual as garotas citadas no primeiro parágrafo saíram. Um clássico absoluto, o trabalho traz faixas que ser tornaram referência até hoje para DJs, músicos e produtores de hip-hop. “Unwind Yourself”, por exemplo, já foi sampleada por gente como DJ Kool, Timbaland e Missy Elliot. “Rock Me Again And Again” e “Think (About It)” estão na trilha sonora do game “GTA San Andreas”.
Embora destacar uma ou outra faixa ou cantora seja covardia com as demais, preste atenção na que hoje é considerada a Soul Sister nº 1, Marva Whitney. Ela era a queridinha de Brown nos anos 60 e continua na ativa. Esta semana, inclusive, lançou seu site no MySpace. Lá, dá para ouvir três canções de seu último disco, de 2006, “I am What I am”. Impossível não se impressionar com a potência vocal de Marva, hoje com 63 anos. É de fazer qualquer Beyoncé sentar e chorar de vergonha.
Original Funky Divas vem numa bolacha dupla com 56 impecáveis canções, boa parte gravadas ao vivo com a banda de James Brown. O próprio até arrisca duetos com suas garotas em algumas faixas, mas não vai muito além. Mesmo ele, o Chefão, sabia que quando elas começavam, nem ele estava à altura.
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