Thomaz Koch
Por José Nilton Dalcim

Canhoto e adepto do tênis clássico, de saque seguido de voleios, o gaúcho Thomaz Koch foi certamente o maior nome masculino do Brasil antes de Gustavo Kuerten. Dono de resultados espetaculares na carreira individual e no time da Copa Davis, figurou vários anos entre os 20 melhores de um ranking anual da revista "Tennis" e teria certamente ido mais longe se tivesse melhor preparo físico, se fosse mais rápido.

Koch nasceu a 11 de maio de 1945 e sua família era apaixonada por esporte. O avô foi um dos fundadores do Grêmio, o pai presidiu o Leopoldina e o irmão Luiz Fernando, oito anos mais velho e campeão brasileiro infantil, foi quem mais diretamente influenciou Thomaz a ir para a quadra. Com 9 e 10 anos, ganhava de todo mundo, até mesmo dos garotos de 12 anos. "Eu já sacava e ia para a rede, era uma coisa instintiva. Queria matar o ponto".

Aos 15 anos, Thomaz disputou seu primeiro Orange Bowl, ao lado de Iarte Adams, outro alucionado pelo jogo de rede. Nunca teve professor, mas seguia os conselhos do irmão e de Iarte. "Treinava muito com ele, participávamos de campeonatos, um incentivava o outro. Ajudava muito ter um companheiro de idéias e nível de jogo. Em 60, Koch foi á final do Orange de 15 anos e à semifinal por equipes do Orange de 18. Foi quando se lembra de ter visto um filme com a final de Maria Esther no US Open.

Ainda com 18 anos, explodiu para o tênis. Foi quadrifinalista do Nacional dos EUA (hoje US Open), sobre piso de grama, e em seguida ganhou o Orange Bowl, que era o mais importante torneio juvenil do mundo. A façanha em Forest Hills teve sua história à parte. A derrota foi para o então campeão de Wimbledon, Chuck McKinley. O gaúcho chegou a ter dois match points e foi prejudicado pelos organizadores. "Não se podia usar sapatos com pregos na grama, mas McKinley reclamou que o piso estava escorregadio e deram uma par para ele. Eu também quis, mas disseram que não tinha meu número".

Sua capacidade era indiscutível. Ele já havia disputado duas finais juvenis de Roland Garros. Na primeira perdeu por 8/6 no terceiro set contra John Newcombe; na outra, teve match point contra o grego Nick Kallorpopoulous. Para completar, participou dos Jogos Pan-americanos de São Paulo e ganhou as duplas mistas ao lado de Maria Esther. Naquele mesmo ano, ganhou do Roy Emerson, número 1, em Caracas, e perdeu de Manoel Santana na final em quatro sets. Depois ganhou Gstaad em cima do Ronald Barnes, fez final em Hilversum e somou vitórias sobre Fred Stolle e Bob Hewitt.

"Era sempre o mais jovem do circuito", lembra Koch. Os tempos era de completo amadorismo. "A gente recebia ajuda de 25 dólares para jogar um torneio, mas no Caribe era melhor. Chegava a 250 dólares, por causa da nossa despesa de passagem". A viagem de final de ano durava dois meses. Havia muitos torneios na Flórida e em seguida havia o circuito do Caribe. "Ficava dois meses por lá. A Europa vinha a partir de maio. Aproveitava Roma, Roland Garros, os torneios ingleses sobre grama, incluindo Wimbledon, e campeonatos tradicionais como Gstaad, Hilversun, Kitzbuhel. Então voltava para casa para o Brasileiro e o Sul-americano. Por isso, disputei poucos US Open. Era difícil viajar de novo no segundo semestre. Nunca foi para a Austrália".

A falta de treino e de um bom grupo são considerados seu maior problema. "Nunca peguei um grupo que gostasse de treinar. Quando comecei a viajar pela Europa, batia muito com o Lelé, o que me ajudou bastante. Mandarino e Barnes nunca gostaram de treinar". Kcoh esteve entre os 20 melhores do mundo, chegou a ser classificado no 15º. "Poderia ter ficado entre os cinco. Faltou preparo físico. Tecnicamente não estava abaixo de nenhum deles. Sempre melhorava muito quando tinha um bom parceiro de treino, como Iarte, Lelé e Maria Esther. Sempre precisei de alguém ao lado para dar empurrão. Fisicamente eu era uma piada".

O fato é que Thomaz viveu uma geração conturbada, com movimento hippie. Sofreu influência do dinamarquês Torben Ulrich, que foi uma espécie de guru. Usava cabelo comprido, o que não era uma coisa habitual, tinha fita na testa, praticava ioga, ouvia rock e praticava meditação oriental. Uma figura que lembrava Beatles, John Lennon. E isso chamava a atenção da mídia. Apesar de extravagante, era tímido. "A fama é horrível para mim. Sempre fui o antiídolo, o antimito", comentou à época. Mas ele teve sua vida vasculhada. O casamento com Janete, menor de idade, virou manchete de jornal e caso de polícia. Os pais da noiva eram contra o casamento e os dois fugiram para a casa da família em Porto Alegre.

Os resultados continuaram vindo. Em 66, venceu o torneio de Barcelona em cima de Manoel Santana. Foi depois quadrifinalista de Wimbledon em 67 - caiu diante de Bungert, para quem nunca havia perdido, por 6/4 no quinto set - e no ano seguinte foi também quadrifinalista em Roland Garros, após quatro duros sets contra Ken Rosewall. Seu talento era tão grande que o australiano Harry Hopman quis levá-lo para Austrália. "Faltou iniciativa. Nunca escolhi os torneios certos, faltou alguém para planejar e orientar", lamenta.

Ao longo de sua carreira, ganhou de todos os grandes, exceto Laver e Rosewall, e ganhou campeonatos no México, Suíça, Inglaterra e Alemanha. Quando chegou a era profissional, continuou o sucesso. Derrubou estrelas como Borg, Connors, Vilas, Ashe. Chegou a morar em Los Angeles, onde fez estágio com Pancho Gonzalez. Faturou o torneio de Washington em cima de Ashe e recebeu o troféu das mãos da filha do presidente Nixon. Em 74, ganhou de Borg no saibro de Bastad. Foi quando surgiu o ranking da ATP, onde ele apareceu no final da temporada como 24º colocado, o que permanece a segunda mais alta posição de um brasileiro no tênis profissional. No ano seguinte, faturou as duplas mistas de Roland Garros, ao lado da italiana Fiorella Bonicelli.

Koch também escreveu um capítulo mais que especial na história nacional da Copa Davis, atingindo duas semifinais, em 66 e 71. Ele ainda é o mais precoce titular do time, com 16 anos, na estréia de 1962 quando o time possuía Lelé Fernandes, Ronald Barnes e Edison Mandarino. A partir de 63, virou titular e passou dez anos ao lado de Mandarino. Os dois ocupam lugar entre as cinco duplas com maior vitória em todos os tempos. "Colocamos o tênis na TV", afirma Koch, lembrando das sensacionais atuações de 66, quando o Brasil eliminou Espanha fora e Estados Unidos em Porto Alegre.

"Mandarino foi um importante companheiro. Era quatro anos mais velho, totalmente diferente de mim. Jogava no fundo, era um devolvedor, e além disso muito sociável. Mas a gente se entendia. Ele já era noivo, dedicado, eu era mais solto. Havia respeito muito grande e com o convívio ficou ainda maior", avalia Thomaz, que conseguiu a façanha de levar Manda a um show do guitarrista Jimi Hendrix.

Por fim, veio o problema da hérnia de disco. Treinava dois meses e parava um, abandonava um torneio atrás do outro, e a saída foi a cirurgia. Voltou aos 34 anos e ainda assim ganhou a Copa Itaú, com dois títulos em cima do jovem Carlos Kirmayr. "Operei porque não conseguia mais caminhar, cheguei a dar uma clínica sentado. As costas me prejudicaram por cinco anos e me dei conta de que perdia devido a minha condição fisica. Me arrependo de não ter me preparado fisicamente".

Determinado, Koch manteve-se entre os 100 do mundo até o início da década de 80. Foi titular da Davis em 81, quando o Brasil disputou o recém-criado grupo mundial, e abandonou as quadras em 83 para ser técnico de um grupo juvenil. Chegou a receber convite para treinar John McEnroe, mas estava cansado de viajar.

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