Ronald Barnes
Por José Nilton Dalcim

Talvez não tenha surgido alguém com mais talento no tênis brasileiro do que Ronald Barnes. Com uma carreira incrivelmente curta, encerrada ainda aos 26 anos, ele conseguiu uma notável série de vitórias sobre os melhores jogadores do mundo e foi o único homem brasileiro a estar numa semifinal de Grand Slam até Gustavo Kuerten.

Filho de ingleses, Ronald Winston Barnes nasceu no Rio de Janeiro no primeiro dia de 1941, a 20 metros do Country Club de Ipanema. Começou a se interessar por tênis aos cinco anos, mas era também muito bom na piscina e no futebol. O pai não quis que seguisse os passos de Domingos da Guia, então ele caminhou naturalmente para as quadras. Numa entrevista dada nos anos 80, quando já morava nos Estados Unidos, Barnes contou que seu jogo cresceu da pura observação: "Com oito anos, eu ficava de juiz de linha no Fluminense e assim podia assistir todos os jogos. No dia seguinte, ia para a quadra e tentava imitar".

Foi nessa época que surgiu também o apelido de "Vovô", que o perseguiu por toda a vida, fruto de um acidente que lhe tirou os dentes da frente. Na quadra, tinha notável facilidade para bater na bola, especialmente com seu espetacular golpe de esquerda. Ganhou o Brasileiro infanto-juvenil por cinco vezes e aos 17 já era campeão de adultos. Em 59, foi vice juvenil de Wimbledon e conquistou o Orange Bowl e a Sunshine Cup, tradicionais torneios até 18 anos. Daí para a frente passou a freqüentar o circuito principal.

Apesar de ser considerado boêmio, Barnes teve vitórias sobre todas as estrelas de seu tempo, como Rod Laver, Fred Stolle e Dennis Ralston. "É verdade sim, eu fumava e bebia socialmente, mas isso nunca me impediu de jogar bem. Ganhei do Stolle em Roland Garros com 9/7 no quinto set, depois de 4 horas e meia". Mas o fato é que ele adorava um jogo de cartas, uma boate, dormir tarde. Dizem que sofria de crises de insônia, que o levava a jogar paciência por horas no quarto de hotel.

Era também avesso à ginástica e a treinar. Na verdade, nunca tomou aula de tênis. Em 63, viveu seu auge. Ganhou de Ralston e atingiu as semifinais do Nacional dos Estados Unidos (hoje US Open), além de conquistar duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-americanos de São Paulo, que lhe valeram o título de "melhor atleta" da competição. Gabava-se de ter perdido apenas duas vezes de Jorge Paulo Lemann, "a primeira e a última, quando eu nem jogava mais" e sempre citava as conquistas dos Brasileiros de 58 e 59 (em cima de Lelé Fernandes) e de 65 (contra Thomaz Koch).

Mas foi aí que surgiram seus problemas com a Confederação Brasileira, então dirigida por Paulo da Silva Costa. Considerado individualista, acabou suspenso do time da Copa Davis em 66, justamente no ano em que o Brasil foi à final internacional. "Estava em San Juan disputando um torneio e a CBT me disse que teria de ir a Roma para jogar outro. Pedi uma passagem e eles me ameaçaram com suspensão. Uma semana antes, tinha ganhado do Manuel Santana, então número 2 e que faturou Wimbledon daquele ano. Não fui para a Itália e eles tiveram o pretexto para acabar com minha carreira", contou Barnes.

De abril a junho daquele ano, sem poder jogar torneios, Barnes foi obrigado a dar exibições e treinar jogadores de outros times da Davis para sobreviver, como Espanha, Tchecoslováquia e Iugoslávia. "A gente se perguntava: como o Edison Mandarino podia jogar a Davis se não disputava o Brasileiro? Tinha eliminatória para saber quem iria jogar, norma imposta pelo Paulo, que também era o capitão da Davis".

Desiludido com o tênis, Barnes se casou com uma venezuelana em 67 e em seguida pediu isenção para a CBT. Nunca mais jogou Brasileiros ou a Davis. Deixou as quadras e passou a trabalhar numa agência de publicidade e depois a vender seguros no Rio. Até que recebeu uma oferta de emprego nos Estados Unidos e se mudou para lá em 69. "Foi só então que me ofereceram o cargo de capitão da Davis ou de diretor de relações exteriores da CBT, mas já não me interessava mais. Fiz campanha e consegui tirar o Paulo da Confederação".

Barnes sempre afirmou que foi a CBT quem acabou com a carreira dele e de Lelé Fernandes, outro grande talento dos anos 60. "Ele também ficou dois meses suspenso, sem poder jogar na Europa. Um dia, o Paulo até impediu de ele treinar num clube em Paris. Tudo porque achavam que eu era rebelde". Nem mesmo um de seus amigos, Gabriel Figueiredo, que assumiu a Confederação em seguida, quis usar o talento de Barnes. "Ele alegava que não havia dinheiro para me pagar. Meu sonho era orientar professores e juvenis".

Voltou poucas vezes ao Brasil. Deu aula na Filadélfia por 10 anos, de tênis e squash, e abriu uma loja de artigos esportivos. Ensinou também badminton, mas não agüentava o frio e mudou-se para a Flórida em 77, onde continuou a dar aulas, divididas entre a pescaria e a TV. Por fim mudou-se para Nova York, onde faleceu aos 61 anos, quase anônimo, vítima de câncer, em 13 de dezembro de 2002. Não teve filhos para passar sua sabedoria.

"Não aproveitei o dom que tinha", concordou ele em uma de suas últimas entrevistas. "Quando eu ganhava do Laver ou do Santana, me perguntava por que não podia ser número 1 ou 2. Mas isso exigia sacrifício e eu não estava disposto. O tênis nunca foi tudo, queria aproveitar a vida. Nunca me arrependi disso".

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