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LIVRO SEGUNDO: O MATERIAL
A ESTRUTURA DOS HEXAGRAMAS
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1. Considerações Gerais

    O material apresentado até agora fornece a maior parte dos elementos necessários para a compreensão dos hexagramas. Aqui, porém, se expõe uma visão geral de suas estruturas. Isso possibilitará ao leitor perceber por que os hexagramas encerram precisamente o significado que lhes é atribuído, por que as linhas vêm acompanhadas de textos muitas vezes aparentemente fantásticos que expressam por meio de uma alegoria qual a posição que essa linha ocupa na situação global do hexagrama e, portanto, até que ponto ela significa boa fortuna ou infortúnio.
    Essa infra-estrutura de exegese foi bastante desenvolvida pelos comentaristas chineses. Sobretudo desde o período Han quando a magia secreta dos "cinco estados de mutação" veio a se associar ao Livro das Mutações, essa obra foi cada vez mais sendo envolvida por mistério e finalmente por mais e mais charlatanice. Foi isso que deu ao livro sua reputação de profundidade e hermetismo. Julgando que se pode poupar o leitor de todos esses acréscimos, reproduzimos apenas aquilo que o próprio texto e os mais antigos comentários demonstram ser relevantes.
    É evidente que numa obra como o Livro das Mutações sempre há um resíduo não-racional. Por que, num caso particular, se enfatiza um determinado aspecto e não outro, que seria igualmente possível, é uma questão tão inexplicável quanto o fato de bois terem chifres em vez de dentes incisivos superiores como os cavalos. Só é possível provar as inter-relações a partir dos limites estabelecidos por sua postulação; prosseguindo com a analogia, isso seria o mesmo que explicar até que ponto existe uma conexão orgânica entre o crescimento dos chifres e a ausência de dentes incisivos superiores.


2. Os Oito Trigramas e suas Aplicações

    Como já foi ressaltado, deve-se sempre considerar os hexagramas como compostos de dois trigramas, e não de uma simples série de linhas individuais. Na interpretação dos hexagramas deve-se considerar os trigramas de acordo com os diversos aspectos que lhes são próprios: primeiro, de acordo com seus atributos; depois, de acordo com suas imagens; e, finalmente, segundo a posição que ocupam no contexto familiar (para isso leva-se em consideração apenas a Seqüência do Céu Posterior).

Ch´ieno Criativoé fortecéuo pai
K´uno Receptivoé dedicadoterraa mãe
Chêno Incitarvé movimentotrovão, madeirao filho mais velho
K´ano Abismalé perigoágua, nuvenso filho do meio
Kêna Quietudeé imobilidademontanhao filho mais moço
Suna Suavidadeé penetraçãovento, madeiraa filha mais velha
Lio Aderirvé luminoso ou condicionadosol, fogo, relâmpagoa filha do meio
Tuia Alegriaé jovialidadelagoa filha mais moça

    Esses significados gerais, principalmente quando se trata da interpretação das diferentes linhas, devem ser complementados pelo conjunto de símbolos e atributos, que à primeira vista parecem supérfluos, apresentados na "Discussão dos Trigramas" (cap. III).     É necessário também levar em consideração a posição dos trigramas um em relação ao outro. O trigrama inferior está abaixo, no interior, atrás. O trigrama superior está acima, no exterior, adiante. As linhas enfatizadas no trigrama superior são sempre caracterizadas como "indo"; aquelas que são enfatizadas no trigrama inferior, como "vindo".
    A partir dessas caracterizações dos trigramas, já utilizadas no Comentário sobre a Decisão, foi construído mais tarde um sistema de transformação dos hexagramas uns nos outros, que ocasionou várias confusões. Como não é de maneira alguma indispensável para a explicação, esse sistema foi aqui por completo deixado de lado. Do mesmo modo também não se fez qualquer uso dos hexagramas "ocultos", isto é, a idéia de que, como base de cada hexagrama, encontra-se, no interior, oculto, seu oposto (por exemplo, no interior do hexagrama Ch´ien estaria contido K´un; no interior do hexagrama Chên estaria contido Sun, etc.).
    Mas é absolutamente necessária a utilização dos chamados trigramas nucleares Hu Kua. Estes formam as quatro linhas centrais de cada hexagrama e se superpõem um ao outro, de modo que a linha média de um se encontra também situada no outro. Dois exemplos tornarão clara esta noção:







    O hexagrama Li, o ADERIR (30), contém um complexo de trigramas nucleares consistindo das quatro linhas . Os dois trigramas nucleares são: acima Tui, a Alegria (), e abaixo Sun, a Suavidade ().







    O hexagrama Chung Fu, VERDADE INTERIOR (61), contém um complexo de trigramas nucleares consistindo das quatro linhas . Os dois trigramas acima são: Acima Kên, a Quietude (), e abaixo Chên, o Incitar (). A estrutura dos hexagramas revela, portanto, uma superposição, por etapas, de diferentes trigramas e suas influências:

    Assim, a primeira e a última linha fazem parte de um único trigrama (o trigrama básico inferior ou superior, respectivamente). A segunda e a quinta linha fazem parte, cada uma delas, de dois trigramas. A segunda linha participa do trigrama básico superior e do nuclear superior. A terceira e quarta linhas pertencem, cada uma delas, a três trigramas: ao trigrama básico superior e inferior respectivamente, e ambos os trigramas nucleares. Como resultado, a primeira e a última linha tendem, de certo modo, a se excluírem do contexto do hexagrama. Na segunda e quinta linha há um estado de equilíbrio em geral favorável, e nas duas linhas centrais há uma superposição de determinações1 que só não perturba o equilíbrio em casos particulares favoráveis. Essas relações coincidem de maneira exata com a avaliação das linhas nos julgamentos.

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