| |
1 - Os santos sábios possuíam uma visão de conjunto de toda a confusa diversidade existente sob o céu. Contemplavam as formas e os fenômenos e criavam representações das coisas e seus atributos. Eles as chamavam: as imagens.
|
Aqui se indica como as imagens do Livro das Mutações surgiram das imagens primordiais, arquetípicas, que são o fundamento do mundo fenomênico.
| |
2 - Os santos sábios eram capazes de abranger com sua visão todos os movimentos existentes sob o céu. Observavam o modo pelo qual os movimentos coincidiam e se interligavam de forma a seguirem seu curso de acordo com as leis eternas. Acrescentaram, então, julgamentos para distinguir a boa fortuna e o infortúnio que indicavam. E os chamaram os julgamentos.
|
No texto, o último termo ao invés de julgamentos é, na realidade, "linha". Na presente tradução adotou-se a correção feita por Hu Shih em sua "História da Filosofia Chinesa", uma vez que explicita com maior clareza o contraste entre Imagem e Julgamento, que se verifica também em outras passagens do Livro das Mutações.
| |
3 - Eles falam das mais confusas diversidades, sem despertar aversão. Eles falam da maior mobilidade, sem causar confusão.
4 - Isso se deve ao fato de que eles observavam antes de falar, e deliberavam antes de se pôr em movimento. Pela observação e deliberação eles aperfeiçoavam as mutações e as transformações.
|
Essas duas seções apresentam outra vez o contraste entre a contemplação da imagem que fornece o conhecimento da diversidade das coisas e a discussão do julgamento que conduz ao conhecimento das direções do movimento. Aqui há comentários sobre a teoria do simples como raiz da diversidade da forma (de acordo com o Receptivo) e do fácil, raiz de todos os movimentos (de acordo com o Criativo), assim como no capítulo I (seç. 6 e segs.). As seções que se seguem (fragmentos de um detalhado comentário sobre as diferentes linhas) trazem exemplos disso.
| |
5 - "Um grou canta na sombra. Sua cria responde. Tenho uma boa taça. Quero compartilhá-la com você." O Mestre16
disse: O homem superior permanece em seu aposento. Quando ele se expressa adequadamente, em palavras, encontra aprovação mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que lhe estão próximos! Se o homem superior permanece em seu aposento e não se expressa adequadamente em palavras, encontra oposição mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que lhe estão próximos! As palavras brotam do interior de uma pessoa, e exercem influência sobre os outros. As ações surgem junto à pessoa e tornam-se visíveis à distância. Palavras e atos são como os gonzos das portas e a mola da besta do homem superior. Movendo-se, geram a honra ou a desgraça. Através de suas palavras e atos o homem superior move o céu e a terra. Não é então necessário ser cauteloso?
|
Cf. Livro Primeiro, hexagrama 61, Chung Fu, VERDADE INTERIOR, nove na segunda posição (comentário sobre a questão do falar).
| |
6 - "Os homens em comunidade primeiro choram e se lamentam, mas depois riem."
O Mestre disse: A vida conduz o homem responsável por caminhos tortuosos e mutáveis. Muitas vezes o curso é bloqueado, em outras segue desimpedido. Ora pensamentos sublimes vertem-se livremente em palavras, ora o pesado fardo da sabedoria deve fechar-se no silêncio. Mas quando duas pessoas estão unidas no íntimo de seus corações, podem romper até mesmo a resistência do ferro e do bronze. E quando duas pessoas se compreendem plenamente no íntimo de seus corações, suas palavras tornam-se doces e fortes como a fragrância das orquídeas.
|
Cf. Livro Primeiro, hexagrama 13, Tung Jen, COMUNIDADE COM OS HOMENS, nove na quinta posição (comentário sobre a questão do falar).
| |
7 - "Seis na primeira posição significa: Forrar com uma esteira de junco branco. Nenhuma culpa." O Mestre disse: Se alguém contenta-se simplesmente em colocar algo no chão, isto também é válido. Mas se ainda se forra com uma esteira de junco branco, que erro poderia haver? Esta é a extrema cautela. A esteira de junco branco em si é algo sem valor, porém pode ter um efeito muito importante. Quando se é tão cuidadoso em tudo o que se faz, se permanece livre de erros.
|
Cf. Livro Terceiro, hexagrama 28, Ta Kuo, A PREPONDERÂNCIA DO GRANDE, seis na primeira posição (comentário sobre a questão do agir).
| |
8 - "Um homem superior de mérito e modesto leva tudo a bom termo. Boa fortuna."
O Mestre disse: A maior generosidade é a de um homem que não se vangloria de seus esforços e que não conta seus méritos como virtude. Isso significa que, apesar de todos os seus
méritos, ele se subordina aos outros. Nobre por natureza, reverente em sua conduta, o homem modesto impõe o mais profundo respeito, e por isso ele é capaz de manter a sua posição.
|
Cf. Livro Terceiro, hexagrama 15, Ch´ien, MODÉSTIA, nove na terceira posição (comentário sobre a questão do agir).
| |
9 - "Dragão arrogante terá motivo de arrependimento." O Mestre disse: Aquele que é nobre e não ocupa o lugar que lhe corresponde, aquele que se encontra em posição elevada sem o apoio do povo, aquele que mantém os homens de valor como subalternos sem dar-lhes apoio, terá motivo de arrependimento tão logo se movimente.
|
Cf. Livro Terceiro, hexagrama 1, Ch´ien, O CRIATIVO, nove na sexta posição (comentário sobre a questão do agir). A citação que lá se faz do Wên Yen contém, palavra por palavra, essa passagem que, sem dúvida, foi extraída do mesmo texto.
| |
10 - "Não ir além da porta e do pátio não é nenhuma culpa." O Mestre disse: As palavras são o primeiro degrau rumo ao início da desordem. Se o príncipe não é discreto, ele perde seu vassalo. Se o vassalo não é discreto, ele perde sua vida. Se aquilo que está ainda germinando não for tratado com discrição, seu desenvolvimento será prejudicado. Por isso o homem superior é cuidadoso ao manter silêncio e não vai além do que deve.
|
Cf. Livro Primeiro, hexagrama 60, Chieh, LIMITAÇÃO, nove na primeira posição (comentário sobre a questão do falar).
| |
11 - O Mestre disse: Os autores do Livro das Mutações sabiam como eram os ladrões. O Livro das Mutações diz: "Se alguém leva um fardo às costas e ao mesmo tempo viaja numa carruagem, atrai com isso a aproximação dos ladrões". Carregar um fardo às costas é tarefa de um homem comum. A carruagem é o meio de transporte dos nobres. Quando um homem comum usa algo que é próprio aos nobres, atrai com isso os ladrões. Quando um homem é insolente para com seus superiores e severo para com os subalternos, provoca os ladrões a que o ataquem. A negligência ao guardar objetos atrai ladrões ao roubo. Uma jovem usando jóias suntuosas é uma tentação a que lhe roubem a virtude. O Livro das Mutações diz: "Se alguém leva um fardo às costas e ao mesmo tempo viaja numa carruagem, atrai com isso a aproximação dos ladrões", pois isso é um convite para os ladrões.
|
Cf. Livro Primeiro, hexagrama 40, Hsieh, LIBERAÇÃO, seis na terceira posição (comentário sobre a questão do agir).
|