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LIVRO SEGUNDO: O MATERIAL
PRIMEIRA PARTE
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B - Argumentos: CAPÍTULO V
O Tao em sua relação com o poder luminoso e com o poder obscuro

         1 - É o Tao que faz surgir ora o obscuro, ora o luminoso.

    O luminoso e o obscuro são os dois poderes primordiais, os mesmos que até agora foram denominados no texto como o firme e o maleável, ou o dia e a noite. O firme e o maleável são os termos usados para designar as linhas no Livro das Mutações, enquanto que o luminoso e o obscuro designam os dois poderes primordiais da natureza. Será discutida posteriormente a razão pela qual até aqui se usavam os termos "dia e noite" e, súbito, surgem agora os termos "luminoso e obscuro". É possível que se trate de um texto tardio. De qualquer forma, pode-se notar que, com o passar do tempo, o uso dessas expressões se torna cada vez mais freqüente.
    Os termos Yin, o obscuro, e Yang, o luminoso, indicam a face sombria e a outra, a iluminada, de uma montanha ou rio. Yang representa o lado sul da montanha, por ser iluminado pelo sol. Mas, quando se trata de um rio, Yang representa o lado norte, pois nele se reflete a luz. O inverso ocorre em Yin. Esses termos pouco a pouco se estendem, passando a englobar as duas forças que, como polaridades básicas do universo, são denominadas positivas e negativas. É possível que esses termos, que acentuam o aspecto cíclico mais que a mutação, tenham dado origem à representação em forma circular do princípio primordial. , símbolo que mais tarde desempenhou um papel tão importante7 no pensamento chinês.
        2 - Como aquele que continua, é o bem. Como aquele que completa, é a essência.
    Os poderes primordiais nunca se detêm, pois o ciclo do devir prossegue sem se interromper. Isso porque entre os dois poderes primordiais surge um contínuo estado de tensão, uma diferença de nível que os mantém em movimento, levando-os a se unirem. Com isso eles estão sempre gerando um ao outro, sem cessar. O Tao provoca esse movimento sem, entretanto, que ele próprio se manifeste. Essa propriedade do Tao de manter o universo através de uma constante recriação do estado de tensão entre essas polaridades é descrita como o bem8 . (Lao-Tse, capítulo 8.)
    O Tao, como o poder que completa as coisas, que lhes confere a individualidade e lhes dá um centro do qual podem se organizar, é chamado de a essência, aquilo que as coisas recebem em sua origem.9
        3 - O homem bom o descobre e o denomina o bondoso. O homem sábio o descobre e o denomina o sábio. O povo o utiliza dia após dia e nada sabe sobre ele, pois o Tao do homem superior é raro.
    O Tao se manifesta de forma diferente em cada indivíduo, de acordo com o que lhe é próprio. O homem de ação, para o qual a bondade e o amor humanitário têm um valor supremo, descobre o Tao dos processos cósmicos e o denomina a suprema bondade: "Deus é o amor". O homem contemplativo, para o qual a sabedoria tranqüila é o bem supremo, descobre o Tao do universo, e o denomina a suprema sabedoria. O vulgo vive dia após dia sendo continuamente sustentado e nutrido pelo Tao, mas nada sabe sobre ele, pois vê apenas o que tem diante dos olhos. Pois o caminho do homem superior, que vê não apenas as coisas mas antes o Tao das coisas, é raro. O Tao do universo é, na verdade, a bondade e a sabedoria, mas em sua essência última o Tao está também além da bondade e da sabedoria.
        4 - O Tao manifesta-se10 como bondade, mas oculta suas atividades. Vivifica todas as coisas, mas não compartilha das preocupações do santo sábio. Sua gloriosa natureza, seu vasto campo de ação são a realidade suprema entre tudo o que existe.
    O movimento do interior para o exterior mostra o Tao em suas manifestações como a bondade suprema. Mas ao mesmo tempo ele permanece misterioso mesmo à luz do dia. O movimento do exterior para o interior oculta os resultados de sua ação. É como na primavera e no verão, quando as sementes começam a germinar e o fecundo poder vivificador da natureza se manifesta. Mas ao mesmo tempo está também em atividade aquele poder silencioso que oculta, no interior da semente, os resultados do crescimento e que prepara de modo misterioso o que surgirá no ano seguinte. Deste modo o Tao exerce uma ação inesgotável e eterna.
Mas esta ação vivificante, à qual todos os seres devem sua existência, é algo puramente espontâneo. Não é como a preocupação consciente do homem em seu esforço interior em busca do bem.
        5 - O Tao possui todas as coisas em plena abundância; este é o seu campo de ação. Renova todas as coisas todos os dias: este é o seu glorioso poder.
    Não há nada que não pertença ao Tao, pois ele é onipresente. Tudo o que existe, existe nele e através dele. Mas não se trata de uma posse morta, já que graças a seu eterno poder ele renova continuamente todas as coisas e então, a cada dia, o mundo se torna tão glorioso como no primeiro dia da criação.
        6 - Como criador de todas as criaturas, chama-se mutação.
    O obscuro gera o luminoso e o luminoso gera o obscuro, numa alternância ininterrupta; mas o que gera essa alternância, a que toda a vida deve sua existência, é o Tao e sua lei de mutação.
        7 - Como o que completa todas as imagens primordiais, chama-se o Criativo; como o que as representa, chama-se o Receptivo.
    Essa passagem se baseia na concepção, também expressa pelo Tao Te Ching11 , de que, subjacente à realidade, há um universo de arquétipos dos quais as coisas concretas, no mundo material, são representações. O universo dos arquétipos (imagens primordiais) é o céu, o mundo das representações é a terra; lá a energia, aqui a matéria; lá o Criativo, aqui o Receptivo. Mas é o mesmo Tao que atua tanto no Criativo quanto no Receptivo.
        8 - Como o Tao serve para investigar as leis do número e, deste modo, conhecer o futuro, chama-se a revelação. Como serve para infundir uma coesão orgânica às mutações, chama-se o operar.
    O futuro também se desenvolve de acordo com leis fixas e segundo números calculáveis. O conhecimento desses números permite o cálculo de acontecimentos futuros com precisão rigorosa. O oráculo do Livro das Mutações baseia-se nesse princípio. Essa esfera do imutável constitui o universo do "daimoníaco"12 no qual não há livre-arbítrio, onde tudo está prefixado. É o domínio de Yin. Mas além desse universo rígido do número, existem tendências vivas. As coisas se desenvolvem e se consolidam numa determinada direção, tornam-se rígidas e, em seguida, sobrevêm o declínio; há, então, uma modificação, a coesão é restabelecida e o mundo volta a ser uno. O segredo do Tao neste mundo do mutável, na esfera do luminoso (o domínio de Yang), consiste em manter tão ativo o fluxo das mudanças que não haja estancamento e a coesão se conserve constante.
        9 - Aqui, no Tao, que não pode ser avaliado nem em termos do luminoso nem do obscuro chama-se o espírito.
    Em sua alternância e em sua ação recíproca os dois poderes fundamentais servem para explicar todos os fenômenos no mundo. No entanto, algo sempre resta, uma razão última, que não pode ser explicada pela interação desses poderes. Este derradeiro significado do Tao é o espírito, o divino, o insondável, aquilo que se deve reverenciar no silêncio.
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