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LIVRO SEGUNDO: O MATERIAL
PRIMEIRA PARTE
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B - Argumentos: CAPÍTULO XII
Síntese

           1 - No livro das Mutações se diz: "Ele é abençoado pelo céu. Boa fortuna. Nada que não seja favorável".
O Mestre disse: Abençoar significa ajudar. O céu ajuda o homem de devoção; os homens ajudam quem é sincero. Aquele que caminha na verdade e pensa com devoção, reverenciando ainda aos homens dignos, é abençoado pelo céu. Ele encontra a boa fortuna e tudo lhe é favorável.

    Esta é uma passagem que faz parte do corpo de comentários às diferentes linhas, do qual alguns fragmentos aparecem no capítulo VIII, seções 5-11. Trata-se de um desenvolvimento da conclusão do capítulo II, seção 6, que aqui se encontra então fora do contexto.
        2 - O Mestre disse: "A escrita não pode expressar as palavras totalmente. As palavras não podem expressar os pensamentos totalmente".
Estamos, então, impossibilitados de ver os pensamentos dos santos e sábios?
O Mestre disse: "Os santos e sábios estabeleceram as imagens para dar expressão completa a seus pensamentos; eles estabeleceram os hexagramas para dar expressão completa ao verdadeiro e ao falso. Então eles acrescentaram julgamentos e assim puderam dar expressão completa às suas palavras". (Eles criaram a descontinuidade e a continuidade para manifestar de forma completa o benefício. Eles deram o impulso, puseram em movimento, para manifestar de forma completa o espírito.)
    Essa seção apresenta, sob forma de diálogo no estilo do Lun Yü (Analectos), um julgamento sobre o modo de expressão do Livro das Mutações. O Mestre dissera que a escrita nunca expressa completamente as palavras, e que as palavras nunca expressam completamente os pensamentos. Um aluno pergunta, então, se nunca se pode ter uma visão clara dos pensamentos dos sábios, e o Mestre usa o Livro das Mutações para mostrar como isso pode ser feito. Os sábios estabeleceram as imagens e hexagramas de modo a revelar as situações, e então acrescentaram as palavras, para que, junto com as imagens, formassem uma expressão completa de seus pensamentos.
    As duas últimas frases (entre parênteses) foram transpostas para este parágrafo de algum outro contexto, provavelmente devido à semelhança da construção gramatical. (Cf. segunda metade da seç. 4 e também a seç. 7.)
        3 - O Criativo e o Receptivo são o verdadeiro segredo do Livro das Mutações. Como o Criativo e o Receptivo se apresentam de forma completa, as mutações também estão situadas entre eles. Se o Criativo e o Receptivo se apresentam de forma completa, as mutações também estão situadas entre eles. Se o Criativo e o Receptivo fossem destruídos, nada haveria em que se pudesse ver as mutações. E, se as mutações já não fossem mais vistas, os efeitos do Criativo e do Receptivo também, pouco a pouco, cessariam.
    As mutações são concebidas aqui como um processo natural, praticamente idêntico à vida. A vida depende da polaridade entre a atividade e a receptividade. Assim é mantida a tensão que, em cada ajustamento em busca de equilíbrio, se manifesta como a mutação, o processar-se da vida. Se esse estado de tensão, essa ''diferença de nível", cessasse, não haveria mais nenhum padrão para a vida, que então não mais poderia se manifestar. Por outro lado essas oposições das polaridades, essas tensões, estão sendo constantemente geradas pelas mutações da vida. Se a vida cessasse de se manifestar, essas oposições se apagariam, em virtude de uma progressiva entropia, e o resultado seria a morte do mundo.
        4 - Por isso: o que se encontra acima da forma chama-se "Tao"; o que se encontra no interior da forma chama-se "coisa".
    Essa passagem evidencia a condição transcendente das formas que constituem o mundo visível. O Tao aqui significa uma enteléquia que a tudo abrange. Está além do universo espacial, mas atua sobre o que é visível - através de imagens, de idéias que lhe são inerentes, como se pode ver com maior precisão em outras passagens -, e as coisas então vêm a ser. A coisa é espacial, isto é, define-se por seus limites corpóreos. Mas não pode ser compreendida sem o conhecimento do Tao, que lhe serve de base.
    Essa seção, assim como a seção 2, possui um acréscimo, reproduzido em sua maior parte, com uma ligeira variação, na última seção.

        (O que modifica as coisas e as adapta umas às outras chama-se a mutação; o que as estimula e põe em movimento chama-se continuidade. O que as eleva e apresenta a todos os homens sobre a terra chama-se o campo de ação.)
5 - Por isso, em relação às imagens: os santos e sábios eram capazes de abranger com sua visão toda a confusa diversidade existente sob o céu. Observaram as formas e os fenômenos e fizeram representações das coisas e seus atributos. A essas representações chamaram: as Imagens. Os santos e sábios eram capazes de abranger com sua visão todos os movimentos sob o céu. Observaram o modo como esses movimentos convergiam e se interligavam, de forma a poderem seguir seu curso de acordo com a ordem eterna. Acrescentaram, então, julgamentos, de modo a poderem distinguir a boa fortuna ou o infortúnio. E os chamaram: os Julgamentos.

    Essa seção é uma repetição literal do capítulo VIII, seções 1 e 2.
        6 - A exposição exaustiva da confusa diversidade existente sob o céu depende dos hexagramas. O impulso a todos os movimentos que se realizam sob o céu depende dos Julgamentos.
    Há uma certa conexão entre essa passagem e a seção 3 do capítulo VIII, enquanto que a seção seguinte apresenta um paralelo à segunda metade da seção 4.
        7 - A transformação e a adaptação das coisas umas com as outras dependem das mutações. O estimular e pôr em movimento das mesmas dependem da continuidade. A espiritualidade e a clareza dependem do homem correto. A plenitude silenciosa, a confiança sem palavras, dependem da conduta virtuosa.
    Aqui, na conclusão, é apresentada a correlação existente entre o Livro das Mutações e o homem. Só através de uma personalidade viva podem as palavras do Livro tomar vida plenamente, exercendo, então, sua influência sobre o mundo.
    Nota: Isso parece se referir a um encadeamento de idéias que se encontram dispersas ao longo deste capítulo e do VIII. O problema é saber se, dada a falibilidade de nossos meios de compreensão, há alguma possibilidade de um contato para além dos limites do tempo; se uma época posterior pode compreender a uma anterior. Com base no Livro das Mutações, a resposta é afirmativa. É certo que a palavra e a escrita são transmissoras imperfeitas de pensamentos. Mas através das imagens - diríamos das "idéias" - e do estímulo que elas contêm é posta em movimento uma força espiritual cuja ação transcende os limites do tempo. Quando encontra o homem certo, aquele que, interiormente, se colocou em contato com o Tao, pode ser por ele de imediato acolhida, e redespertada à vida. Essa é a idéia de uma interligação sobrenatural entre os eleitos de todas as épocas.

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