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LIVRO SEGUNDO: O MATERIAL
PRIMEIRA PARTE
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B - Argumentos: CAPÍTULO XI
Sobre as varetas de caule de milefólio, os hexagramas e as linhas

           1 - O Mestre disse: Que fazem as Mutações? As Mutações desvelam coisas, completam os assuntos e abrangem todos os caminhos sobre a terra. Isso e nada mais elas fazem. Por isso, os santos e sábios as utilizavam para penetrar todas as vontades sobre a terra e para determinar todos os campos de ação sobre a terra e para resolver todas as dúvidas sobre a terra.
    Aqui temos novamente uma frase do Mestre que serve de ponto de partida para uma reflexão na qual as idéias apresentadas serão desenvolvidas e interpretadas.
        2 - Por isso a natureza dos caules de milefólio é redonda e espiritual. A natureza dos hexagramas é quadrada e sábia. O sentido das seis linhas muda de modo a fornecer informações. Deste modo os santos e sábios purificaram seus corações, recolheram-se e ocultaram-se no mistério. Preocupavam-se com a boa fortuna e o infortúnio junto com os outros homens. Eram divinos e por isso conheciam o futuro; eram sábios e por isso preservavam o passado. Quem é capaz de tudo isso? Só o discernimento e a lucidez dos antigos, seu conhecimento e sabedoria, seu incansável poder divino.
    A triplicidade mencionada na seção 1 é aqui desenvolvida. O aprofundamento que penetra todas as vontades é associado à espiritualidade dos caules de milefólio; eles são redondos pois simbolizam o céu e o espírito. O número que lhes serve de base é o sete; seu número total é 49 (7 x 7). Os hexagramas representam a terra; o número que lhes serve de base é o oito; seu número total é 64 (8 x 8), o total dos hexagramas. Servem para determinar o campo de ação. Finalmente, as diferentes linhas são móveis e mutáveis (seus números são 6 e 9), de modo a dar informações e resol ver as dúvidas relativas a situações particulares.
    Os santos e sábios possuíam este conhecimento. Recolhiam-se e em reclusão cultivavam seu espírito; por isso eram capazes de penetrar no modo de pensar dos homens (penetração), podendo, então, determinar a boa fortuna ou o infortúnio (o campo de ação) e conhecer o passado e o futuro (a resolução das dúvidas). E o conseguiam graças a seu conhecimento e sabedoria (determinação do campo de ação) e graças a seu divino poder (resolução das dúvidas). Essa divina força guerreira (em chinês Shên Wu) age sem esmorecer (essa é uma interpretação preferível a "sem matar").
        3 - Por isso eles sondavam o sentido dos céus e compreendiam as circunstâncias dos homens. Eles inventaram, assim, essas coisas divinas como resposta às necessidades humanas. Os santos e os sábios jejuavam para que suas naturezas se tornassem límpidas e claras, semelhantes ao divino.
    Como esses sábios conheciam igualmente as leis que regem o curso do universo e aquilo de que os homens carecem, inventaram o uso das varetas oraculares - essas são as "coisas divinas" -, de modo a preencher as necessidades dos homens. Por isso, concentravam-se em santa meditação, dando à sua natureza a força e a plenitude necessárias para atingir esse fim. Portanto, a compreensão do Livro das Mutações decorre também do vínculo de uma concentração e meditação.
        4 - Por isso chamaram ao fechar dos portões o Receptivo, e ao abrir, o Criativo. À alternância entre o fechar e o abrir eles chamaram "a mutação". Ao incessante movimento de ir e vir eles chamaram "o penetrar". Àquilo que se manifesta visivelmente eles chamaram "a imagem", e ao que possui uma forma corpórea chamaram "coisa"34 . Ao que foi estabelecido para o uso chamaram "lei". Ao que favorece o sair e o entrar, àquilo de que vivem todos os homens, eles chamaram "o divino".
    Aqui se expõem as condições do Tao do céu e as circunstâncias dos homens tal como foram reconhecidas pelos santos e sábios. O fechar e o abrir dos portões significa a alternância entre o repouso e o movimento. Essas são também duas condições da prática do yoga,35 passíveis de serem realizadas apenas através de um treinamento pessoal. A penetração é o estado em que se atinge o domínio soberano na esfera psíquica, podendo mover-se no tempo, para adiante e para trás. As próximas frases revelam como se origina o mundo material. Primeiro, há uma imagem preexistente, uma idéia que funciona como fundamento; em seguida, uma reprodução dessa imagem arquetípica toma forma como figura corpórea. O que regula esse processo é o divino. Encontram-se, em Lao-Tse, numerosas colocações paralelas a esta.
        5 - Por isso existe nas Mutações o grande Começo primordial. Este gera as duas forças fundamentais. As duas forças fundamentais geram as quatro imagens. As quatro imagens geram os oito trigramas.
    O grande Começo Primordial (T´ai Chi) desempenha um papel importante na filosofia naturalista que mais tarde se desenvolverá na China. Originalmente Chi significava viga-mestra - um traço simples, simbolizando o estabelecimento de uma unidade: ______. Mas quando se estabelece a unidade, postula-se ao mesmo tempo a dualidade, pois surge um acima e um abaixo. O elemento condicionante passa a ser designado pela linha inteira, enquanto o elemento condicionado é representado por uma linha partida:
__ __. Essas são as duas forças ou polaridades fundamentais, mais tarde denominadas yang, o luminoso, e yin, o obscuro. Com sua duplicação surgem quatro imagens:

           o velho ou grande yang

           o velho ou grande yin

           o jovem ou pequeno yang

           o jovem ou pequeno yin

    Essas imagens correspondem às quatro estações. Quando se acrescenta mais uma linha, surgem os oito trigramas:

Ch´ien    K´un    Chên    Li
 
Tui    Sun    K´an    Kên

    Esse mesmo processo é mencionado no capítulo 42 de Lao-Tse.
        6 - Os oito trigramas determinam a boa fortuna e o infortúnio. A boa fortuna e o infortúnio dão origem ao grande campo de ação.
    O "grande campo de ação" são as regulamentações e regras instituídas pelos santos e sábios para possibilitar aos homens a boa fortuna e evitar-lhes o infortúnio.
        7 - Por isso: não há imagens arquetípicas maiores que o céu e a terra. Não há nada que seja mais mutável ou possua maior coesão que as quatro estações. Entre as imagens suspensas no céu nenhuma é mais luminosa que o sol e a lua. Entre os que são veneráveis e se encontram em posição elevada, ninguém supera aquele que possui riquezas e fidalguia. Quanto à criação de objetos para o uso e instrumentos úteis para todo o mundo, ninguém é maior que os santos e os sábios. Para compreender a diversidade desordenada das coisas e explorar o que está oculto, para penetrar até as profundezas e influir sobre o longínquo, determinando assim a boa fortuna e o infortúnio sobre a terra, e consumando todos os esforços na terra, nada é superior ao oráculo.
    Assim como no capítulo 25 de Lao-Tse, em que se fala dos quatro seres de maior grandeza do universo,36 aqui se mencionam simultaneamente a grandeza da natureza e do mundo humano. As estações têm a máxima mobilidade e coerência; o sol e a lua, a máxima luminosidade. Sobre a terra, o ser mais elevado é o rei dos homens, o sábio que ocupa o trono, aquele que, sendo ele próprio rico e nobre é ao mesmo tempo uma fonte de riqueza e nobreza. Auxiliando-o estão o sábio ativo, dirigente e inventivo, e o oráculo que, correspondendo às imagens luminosas do sol e da lua, esclarece e ilumina todas as situações sobre a terra.

        8 - Por isso: o céu cria coisas divinas; o santo e o sábio as têm como modelo. O céu e a terra mudam e se transformam. O santo e o sábio os imitam. No céu há imagens suspensas que revelam a boa fortuna e o infortúnio; o santo e o sábio as reproduzem. O Rio Amarelo manifestou um mapa e o Rio Lo, uma escritura: os santos tomaram-nos como modelo.

    Aqui se desenvolve o paralelismo entre os processos do macrocosmo e a ação dos santos e sábios. As coisas divinas criadas pelo céu e pela terra são, provavelmente, os fenômenos da natureza reproduzidos pelos santos nos oito trigramas. De acordo com outra interpretação, trata-se de tartarugas37 e de caules de milefólio. As mudanças e transformações manifestas no dia e a noite e nas quatro estações são reproduzidas nas mutações das linhas. Os sinais no céu que expressam boa fortuna ou infortúnio são o sol, e a lua, as estrelas junto com os cometas, os eclipses e fenômenos semelhantes. Eles são reproduzidos nos julgamentos anexos sobre a boa fortuna ou o infortúnio.

    A última frase dessa seção, que se refere a dois acontecimentos de caráter lendário ocorridos na época de Fu Hsi e de Yü, é um adendo tardio que teve efeitos desastrosos na exegese do Livro das Mutações. Os dois diagramas mencionados foram reproduzidos no comentário do capítulo IX, seção 1 (figuras 4 e 5). O caráter tardio desse acréscimo é demonstrado pelo fato de as seções 7, 8 e 9 do presente capítulo tratarem do triplo paralelismo existente entre a natureza e o mundo humano, o qual fora já mencionado na seção 1, e esse adendo representar uma ruptura nessa continuidade.

        9 - Nas Mutações38 há imagens que visam a revelar; há julgamentos anexos que visam a interpretar; determina-se a boa fortuna ou o infortúnio, visando a decidir.
    O texto diz "quatro" imagens; trata-se de um erro trazido da seção 5. Como imagens, deve-se entender aqui os 8 trigramas, que revelam as situações em suas inter-relações. Isso corresponde às imagens arquetípicas do céu. Os julgamentos anexos (relativos às diferentes linhas) indicam as mudanças. Isso corresponde às mudanças das estações do ano. As decisões sobre boa fortuna ou infortúnio correspondem, então, aos sinais nos céus.

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