Publicidade
UOL BIBLIOTECA
Enciclopédias, livros, guias e arquivos de jornais e revistas para consulta online


página principal
Prefácio de C.G. Jung | Prefácio à Edição Brasileira | Prefácio à Primeira Edição | Introdução
Livro Primeiro: O Texto | Livro Segundo: O Material | Livro Terceiro: Os Comentários
Ajuda | Tabela dos hexagramas | Jogar o I Ching | Página Inicial

LIVRO SEGUNDO: O MATERIAL
PRIMEIRA PARTE
jogar o I Ching

voltar | índice | avançar
TA CHUAN

O GRANDE TRATADO (O GRANDE COMENTÁRIO)
(Também denominado Hsi Tz´u Chuan, Comentário aos Julgamentos Anexos).


A - Os Fundamentos: CAPÍTULO I
As Mutações no Universo e no Livro das Mutações

        1 - O céu é alto, a terra, baixa, assim o Criativo e o Receptivo se determinam. As posições inferiores e superiores se estabelecem de acordo com essa diferença entre o baixo e o alto.
     O movimento e o repouso têm suas leis definidas de acordo com as quais distinguem-se as linhas firmes e maleáveis. Os acontecimentos seguem seus rumos próprios, cada qual segundo a sua natureza. As coisas distinguem-se umas das outras de acordo com classes específicas. Desse modo têm origem a boa fortuna e o infortúnio. Os fenômenos surgem no céu, as formas surgem na terra. Assim a mutação e a transformação se manifestam.
    O Livro das Mutações faz uma distinção entre três diferentes espécies de mutação: a não-mutação, a mutação cíclica e a mutação não recorrente. O imutável é, por assim dizer, o fundo indispensável sobre o qual a mutação torna-se possível. Toda mutação supõe um ponto constante que lhe sirva de referencial. Sem isso não poderá haver uma ordem definida e tudo se dissolveria num movimento caótico. Esse ponto de referência precisa ser estabelecido, o que exige em cada ocasião uma opção e decisão. Ele instaura um sistema de coordenadas no qual tudo o mais pode ser encaixado. Por este motivo, no começo do mundo, assim como no começo do pensamento, há a decisão, a determinação do ponto de referência. Teoricamente qualquer ponto referencial é possível, mas a experiência demonstra que desde o despertar de nossa consciência já nos encontramos inseridos em sistemas já estabelecidos de relacionamento tão poderosos que tendem a prevalecer. O problema consiste agora em escolher seu próprio ponto de referência de modo a que coincida com o ponto de referência do vir a ser cósmico. Pois só assim se poderia evitar que o mundo criado por nossa própria decisão se destruísse por entrar em conflito com as estruturas de relacionamento dominantes. Essa decisão pressupõe evidentemente a convicção de que o mundo, em última instância, é um sistema de referências integradas, um cosmos, não um caos. Essa convicção é o fundamento da filosofia Chinesa - como de toda filosofia em geral. Esse derradeiro ponto de referência de toda mutação é então a não-mutação.
    O I Ching toma como fundamento desse sistema de relações a distinção entre o céu a terra. O céu é o mundo superior, luminoso, que, apesar de incorpóreo, rege e determina com firmeza tudo o que ocorre. Diante dele está a terra, o mundo inferior, obscuro, corpóreo, que, em seus movimentos, depende dos fenômenos celestes. Essa distinção entre alto e baixo estabelece, de certa forma, uma diferenciação de valores, em decorrência da qual um desses princípios é exaltado e honrado enquanto o outro é considerado menos valioso e inferior.1 Esses dois princípios fundamentais de toda a existência são então simbolizados pelos dois hexagramas básicos do Livro das Mutações, o Criativo e o Receptivo. Em última instância, não se pode afirmar que se trate de um dualismo, pois esses dois princípios estão ligados por uma relação unívoca. Não se combatem entre si, mas se complementam. A diferença de nível cria, de certa forma, como que um "declive" que permite o movimento e a manifestação viva da energia.
    Estando o alto e o baixo associados às noções de valor, isso conduz à diferenciação entre o superior e o inferior. Isso é expresso de forma simbólica nos hexagramas do Livro das Mutações, nos quais há posições altas e baixas, superiores e inferiores. Cada hexagrama é composto de seis posições, sendo as ímpares superiores e as pares, comuns ou inferiores.
    Há ainda uma outra diferença vinculada a esta primeira: no céu prevalecem o movimento e a mutação contínua; na terra o que se percebe são estados fixos e aparentemente duradouros. Quando se observa com atenção, se vê que isso é mera aparência. Para a visão de mundo do Livro das Mutações, nada está em repouso; o repouso é apenas uma condição intermediária do movimento ou um movimento latente. Há, entretanto, pontos nos quais o movimento torna-se visível. Isto é simbolizado pelo fato de a estrutura dos hexagramas conter linhas firmes e maleáveis. O firme, o forte, é considerado o princípio do movimento, enquanto o maleável, o princípio do repouso. A linha firme é representada por um traço inteiro, correspondente ao princípio luminoso, e a linha maleável é representada por um traço partido, correspondente ao princípio obscuro.
    Combinando-se o caráter da linha (firme ou maleável) com o caráter da posição (superior ou inferior), chega-se a uma multiplicidade de situações possíveis. Isso serve para simbolizar um terceiro conjunto de acontecimentos no universo. Há estados de equilíbrio nos quais prevalece uma certa harmonia e circunstâncias em que o equilíbrio é perturbado, preponderando então a confusão. Isso tem origem num sistema de organização que abrange todo o universo. Quando, de acordo com essa ordem, cada coisa se encontra no seu devido lugar, a harmonia se estabelece. Pode-se constatar essa tendência à ordem na natureza. As posições de certa forma atraem aquilo que lhes é semelhante para que surja a harmonia. Porém, uma tendência paralela atua igualmente. As coisas não são determinadas apenas pela tendência à ordem; elas se movem também em virtude de forças que, de algum modo, lhes são aplicadas de forma mecânica, do exterior. Por isso o estado de equilíbrio não é possível em todas as circunstâncias, pois podem ocorrer desvios que provoquem confusão e desordem. No âmbito humano, a condição de harmonia gera a boa fortuna e a desarmonia, o infortúnio. Esses conjuntos de ocorrências podem ser representados por combina ções de linhas e posições, tal como foi indicado anteriormente.
    Há ainda uma outra lei que deve ser considerada. No céu, os fenômenos adquirem uma forma em virtude do movimento do sol, da lua e das estrelas. Esses fenômenos seguem leis definidas. Em conecção com eles, formam-se configurações na terra, que obedecem a leis idênticas. Com isso os fenômenos na terra - o florescer e o frutificar, o crescimento e o declínio - podem ser calculados, caso se compreendam as leis do tempo. Caso se conheçam as leis da mutação, poder-se-á calculá-la com antecedência, obtendo-se, assim, liberdade de ação. Mudanças são imperceptíveis tendências à divergência que, ao atingirem determinado ponto, tornam-se visíveis, provocando transformações.
    Para o pensamento chinês estas são as leis imutáveis, segundo as quais as mutações se processam. O I Ching procura demonstrar essas leis através das leis de mutação que operam no interior dos diferentes hexagramas. Quando o homem chega a reproduzir de forma completa essas leis, ele alcança uma visão satisfatória dos acontecimentos, pode entender o passado e o futuro e aplicar esse conhecimento às suas ações.
        2 - Por isso os oito trigramas sucedem-se por períodos, quando o firme e o maleável substituem um ao outro.
    Aqui se explica a mutação cíclica. Ela consiste numa rotação de fenômenos que se sucedem uns aos outros, até que se chega de volta ao ponto de partida. Como exemplos desse movimento têm-se o curso do dia, do ano e os fenômenos que, durante esses ciclos, manifestam-se nos seres vivos. A mutação cíclica é a mudança periódica que se produz no mundo orgânico, enquanto que a mutação em seqüência significa a mudança contínua, irreversível, dos fenômenos provocados pela causalidade.
    O firme e o maleável sucedem-se uns aos outros no interior dos oito trigramas. Assim, o firme se modifica, como que se funde, tornando-se maleável; o maleável muda, se reúne, tornando-se firme. Desta forma os oito trigramas se convertem uns nos outros numa seqüência, e a alternância regular dos fenômenos, no decorrer do ano, se processa. O mesmo ocorre em todos os ciclos, inclusive no ciclo da vida. Assim, ao dia e à noite, ao verão e ao inverno, correspondem, no ciclo vital, a vida e a morte. Para que se possa compreender melhor a natureza da mutação cíclica e sua alternância nos trigramas, repete-se aqui a Seqüência Primordial (fig. 3). Há duas direções de movimento: a progressiva, crescente, e a retroativa, decrescente. A primeira parte do ponto mais profundo, K´un, o Receptivo, terra; a segunda parte do ponto culminante, Chi´en, o Criativo, céu.

I  Norte  Nordeste  Leste  Sudeste
          
    
K´un
  
Chên
  
Li
  
Tui
        
1a
  
2a
  
3a
                  
II  Sul Sudoeste  Oeste  Noroeste
         
    
Ch´ien
  
Sun
  
K´an
  
Kên
        
1b
  
2b
  
3b

Fig. 3

        3 - As coisas são incitadas pelo trovão e pelo raio; são fertilizadas pelo vento e pela chuva; o sol e a lua seguem seu curso cíclico e às vezes faz calor, às vezes faz frio.
    Aqui se tem a seqüência dos trigramas no curso do ano, de modo a que cada um deles seja a causa do seguinte. A energia criadora, Chên, o Incitar, cuja imagem é o trovão, agita-se nas profundezas da terra. À medida que surge essa força elétrica, formam-se centros de ativação que vêm eclodir em raios. O raio é Li, o Aderir, fogo. Por isso o trovão é aqui considerado anterior ao raio. O trovão é, por assim dizer, a energia que incita o raio, não é apenas o ruído. O movimento então se desloca: instala-se o oposto do trovão, o vento, Sun. O vento traz a chuva, K´an. Há um novo deslocamento. Os trigramas Li e K´an, que antes atuavam em sua forma secundária como raio e chuva, manifestam-se agora em sua forma primária como sol, o astro do dia, e lua, o astro da noite. Em seu movimento cíclico, eles produzem o calor e o frio. Quando o sol atinge o zênite, surge o calor, simbolizado pelo trigrama do sudeste, Tui, o lago, a Alegria. Quando a lua chega ao alto do céu surge o frio, simbolizado pelo trigrama do noroeste, Kên, a montanha, Quietude. Portanto, a seqüência é a seguinte (cf. fig. 3):

1a - 2a                1b - 2b
                2a - 3a                2b - 3b

    Assim, 2a (Li) e 2b (K´an) são mencionados duas vezes; em sua forma secundária (raio-chuva) e em sua forma primária (sol-lua).
        4 - O caminho do Criativo produz o masculino. O caminho do Receptivo produz o feminino.
    Começa a surgir aqui a mutação não recorrente, manifesta na sucessão das gerações, um movimento progressivo que nunca retorna a seu ponto de partida. Isso mostra como o Livro das Mutações permanece estritamente ligado à vida. Segundo os conceitos ocidentais, a mutação não recorrente corresponderia à esfera em que a causalidade mecânica faz valer seus direitos. O Livro das Mutações vê a mutação seqüencial como a sucessão das gerações, ou seja, algo ainda orgânico.
    Ao se integrarem, como princípio, à manifestação da vida, o Criativo e o Receptivo tomam forma corpórea; o primeiro no sexo masculino e o segundo, no sexo feminino. Assim o Criativo está presente na linha inferior de cada um dos filhos (Chên, Li e Tui na Seqüência Primordial) e o Receptivo, na linha inferior de cada uma das filhas (Sun, K´an e Kên na Seqüência Primordial). Na Seqüência Primordial, o fator determinante do sexo é a primeira linha na qual então manifestam-se o Criativo e o Receptivo, gerando os filhos e as filhas2.
        5 - O Criativo conhece os grandes começos. O Receptivo completa as coisas concluídas.
    Aqui prosseguem as considerações sobre os princípios do Criativo e do Receptivo. O Criativo produz as sementes invisíveis de todo vir a ser. Estas sementes são, a princípio, puramente espirituais; por isso, sobre elas não é possível se exercer qualquer ação ou procedimento; nesse âmbito é o conhecimento que age de forma criadora. Enquanto o Criativo atua no mundo do invisível, tendo como campo o espírito e o tempo, o Receptivo opera sobre a matéria distribuída no espaço, e completa as coisas concluídas e concretizadas. Aqui acompanha-se o processo de geração e procriação até suas últimas profundezas metafísicas3.
        6 - O Criativo conhece através do fácil. O receptivo é capaz de agir através do simples.
    O Criativo é, em sua essência, movimento. Através do movimento ele consegue com facilidade unir o que está dividido. Ele, portanto, está livre do esforço, pois atua sobre o infinitesimal, orientando o movimento a partir desse estado mínimo. Como a direção do movimento é determinada ainda no estado germinal do vir a ser, tudo o mais se desenvolve com facilidade, de forma espontânea, segundo as leis de sua própria natureza.
    O Receptivo é, em sua essência, repouso. Através do repouso o mais simples torna-se possível no âmbito do espaço. Essa simplicidade que surge da pura receptividade torna-se o germe de toda multiplicidade existente no espaço.
        7 - Aquilo que é fácil, é fácil de conhecer. Aquilo que é simples, é simples de seguir. Aquele que é fácil de conhecer, conquistará a fidelidade. Aquele que é fácil de seguir, conseguirá encargos. Aquele que possui a adesão, poderá perdurar por longo tempo; aquele que possui tarefas, poderá tornar-se grande. A duração é a propensão do sábio; a grandeza é o campo de ação do sábio.
    Essa passagem indica como o fácil e o simples exercem seus efeitos na vida humana. O fácil é facilmente compreendido, por isso o seu poder de sugestão. Aquele cujos pensamentos são claros e fáceis de entender conquista a adesão dos homens porque corporifica em si o amor. Deste modo ele se liberta do caos dos conflitos e das desarmonias. Como o movimento interior está em harmonia com o meio ambiente, pode produzir seus efeitos sem ser perturbado e pode durar por um longo período. Essa consistência e capacidade de duração constituem a atitude interior do sábio.
    O mesmo ocorre no campo da ação. Aquilo que é simples pode ser com facilidade imitado. Por conseqüência, os outros se prontificam a empregar sua força na mesma direção, pois todos fazem com prazer o que lhes é fácil, uma vez que isso é simples. Como resultado, as energias se acumulam e o simples se desenvolve de forma natural no múltiplo. Assim ele cresce e finalmente se cumpre a missão do sábio de conduzir as multidões à realização de grandes obras.
        8 - Através do fácil e do simples pode-se aprender as leis do mundo inteiro. Na compreensão das leis de todo o mundo está a perfeição.
    Aqui se demonstra como os princípios fundamentais expostos acima são aplicados no Livro das Mutações. O fácil e o simples são simbolizados por uma mínima mutação nas linhas. As linhas partidas tornam-se inteiras graças a um movimento fácil no qual as extremidades separadas se ligam; as linhas inteiras tornam-se partidas através de uma simples divisão ao centro. Deste modo, essas fáceis e simples mudanças reproduzem as leis que regem todos os processos sob o céu. Assim, a perfeição é alcançada.
    Com isso, a natureza da mutação é definida como uma mutação das menores partes. Este é o quarto significado da palavra I, a qual, na verdade, tem apenas uma leve conexão com o significado "Mutação".

jogar o I Ching
voltar | índice | avançar  

Prefácio de C.G. Jung | Prefácio à Edição Brasileira | Prefácio à Primeira Edição | Introdução
Livro Primeiro: O Texto | Livro Segundo: O Material | Livro Terceiro: Os Comentários
Ajuda | Tabela dos hexagramas | Jogar o I Ching | Página Inicial


© Copyright Universo Online S/A 2000-2001. Todos os direitos reservados.