O texto apresentado na primeira parte (Livro Primeiro) constitui o núcleo essencial do Livro das Mutações. Lá a principal preocupação era trazer à luz o que se pode chamar o aspecto espiritual do livro, a sabedoria, muitas vezes oculta sob formas estranhas. Nosso comentário resume o que os filósofos mais notáveis da China pensaram e disseram no decorrer dos séculos, em relação aos hexagramas e às linhas. Entretanto, o leitor deve ter sido freqüentemente assediado pela pergunta: Por que tudo isso é assim? Por que essas imagens, muitas vezes tão inesperadas, estão ligadas aos hexagramas e às linhas? De que profundezas da mente elas emergem? Trata-se de imagens puramente arbitrárias ou obedecem a determinadas leis? E mais ainda, por que tal imagem aparece vinculada em específico a determinada idéia e não a outra? Não seria um simples capricho a procura de profundos pensamentos filosóficos onde aparentemente nada existem além de um jogo de grotescas fantasias da imaginação?
A segunda parte do livro (Livros Segundo e Terceiro) procura responder, na medida do possível, a essas perguntas. Visa a explicitar o material do qual surge esse universo de idéias, apresentar o corpo ao qual esse espírito está ligado. Então se poderá perceber como, de fato, existe um vínculo secreto e que mesmo imagens aparentemente arbitrárias baseiam-se de algum modo na estrutura dos hexagramas. Basta, para isso, que se aprofunde o suficiente a sua compreensão. Os comentários mais antigos que, em geral, associam, interpretações técnicas sobre as estruturas dos hexagramas com análises filosóficas, remontam ao próprio Confúcio, ou pelo menos a se círculo de discípulos. O seu conteúdo filosófico já foi utilizado no Livro Primeiro. Aqui, esses comentários são retomados junto com o texto, sem o qual seriam incompreensíveis, explorando-se agora seu aspecto técnico. Isso é absolutamente indispensável para a plena compreensão do Livro e nenhum comentário chinês prescinde desse aspecto técnico. Pareceu-me, entretanto, indicado separá-lo do aspecto filosófico, para não confundir demais o leitor ocidental com questões pouco habituais. Não lamento as repetições inevitáveis que esse método impôs. O I Ching é uma obra cuja maturidade é fruto de um crescimento orgânico realizado durante milênios. É, por isso, um livro que para ser assimilado exige uma longa reflexão e meditação. À medida que se realizem, essas aparentes repetições vêm abrir novas perspectivas. O material apresentado nesta segunda parte consiste principalmente do que se conhece como "As Dez Asas". Essas Dez Asas ou exposições contêm, de fato, o que há de mais antigo em termos de literatura de exegese do Livro das Mutações.
O primeiro desses Comentários (Primeira e Segunda Asas) é intitulado T´uan Chuan. T´uan significa literalmente a cabeça do porco oferecida nos rituais de sacrifício. Devido à similitude fonética, o termo adquiriu também o segundo de "decisão". Os julgamentos em cada um dos hexagramas eram chamados T´uan, "decisão", ou Tz´u, "julgamento", ou ainda, Hsi Tz´u, "julgamento anexo". Esses "julgamentos" ou "decisões" são atribuídos ao Rei Wên de Chou (aproximadamente 1150 a.C.),
cuja condição de autor desses textos em geral não é posta em dúvida.1
O T´uan Chuan, ou "Comentário sobre a Decisão", fornece explicações precisas sobre esses "julgamentos", tomando como base a estrutura e outros elementos dos hexagramas. Esses comentários são atribuídos pelos chineses a Confúcio. É um trabalho minucioso de grande valor e que muito elucida a organização interna dos hexagramas do I Ching. Não veio por que duvidar que seja ele o autor, uma vez que é fato notório a familiaridade de Confúcio com o Livro das Mutações, e que as concepções expressas nesses comentários em nada divergem de suas idéias. O T´uan Chuan compõe-se de duas partes (correspondentes às partes I e II do texto do Livro das Mutações), que formam as duas primeiras Asas ou exposições. Na presente tradução esses comentários foram separados e colocados junto ao hexagrama ao qual se referem2
A Terceira e Quarta Asas são formadas pelo chamado Hsiang Chuan, "Comentário sobre as Imagens". Esse comentário é também dividido em duas partes, assim como o texto. Em sua forma atual consiste das chamadas "Grandes Imagens", que se refere às imagens associadas aos dois trigramas básicos3
que compõem os hexagramas. Dessa análise dos trigramas básicos o comentário deduz o significado do hexagrama como um todo e infere conclusões aplicáveis à vida humana.
Toda a esfera de idéias contida nesse comentário aproxima-se muito do Ta Hsueh, estando assim em ligação muito estreita com Confúcio.
Além das "Grandes Imagens", esse comentário contém as "Pequenas Imagens"; são referências muito breves às palavras do Duque de Chou a respeito das linhas. Entretanto, essas referências não tratam em absoluto de imagens. Foi, decerto, em virtude de algum engano ou talvez por uma casualidade que esse comentário tenha sido concluído no comentário sobre as Imagens. As "Pequenas Imagens" contêm apenas indicações muito breves, geralmente em rima. É possível que sejam frases de caráter mnemônico extraídas de algum outro comentário mais detalhado. São, sem dúvida, muito antigas e de origem confucionistas. Mas prefiro não formular um julgamento definitivo sobre o grau exato de ligação que têm com o próprio Confúcio.
Esses comentários também foram divididos e distribuídos junto aos hexagramas correspondentes.
A Quinta e Sexta Asas formam um tratado no qual há muitos pontos obscuros. Essas Asas são chamadas Hsi Tz´u ou Ta Chuan e dividem-se também em duas partes. O título Ta Chuan é mencionado por Ssu-ma Ch´ien4
e significa "O Grande Comentário", "O Grande Tratado". Sobre o título Hi Tz´u, "Julgamentos Anexos", Chu Hsi afirma: "Os julgamentos anexos foram compostos pelo Rei Wên e pelo Duque de Chou, por eles anexados aos hexagramas e às linhas formando, atualmente, o texto do livro. O 'Comentário aos Julgamentos Anexos' consiste das explicações de Confúcio sobre os mesmos e serve de introdução geral ao texto completo da obra".
Percebe-se logo a falta de clareza dessa definição. Se os "julgamentos anexos" são realmente as observações do Rei Wên e do Duque de Chou sobre os hexagramas e as linhas, se esperaria dos "Comentários sobre os Julgamentos Anexos" uma discussão destes, e não um tratado sobre a obra em geral. Mas já há um comentário a respeito dos julgamentos dos hexagramas, isto é, a respeito do texto do Rei Wên. Por outro lado, falta um comentário detalhado sobre as observações do Duque de Chou a respeito das diferentes linhas. Tudo o que se tem são frases breves que aparecem sob o título, obviamente incorreto, de "Pequenas Imagens". Existem, é verdade, fragmentos de um tal comentário, ou melhor ainda, de um certo número de tais comentários. Alguns desses fragmentos - referentes aos dois primeiros hexagramas - estão incluídos no Wên Yen (Comentário sobre as Palavras do Texto), sobre o qual ainda se discutirá adiante. Explicações referentes às diferentes linhas aparecem dispersas em diversas passagens do "Comentário sobre os Julgamentos Anexos". É muito provável que duas obras diferentes hoje apareçam sob o título Hsi Tz´u Chuan: primeiro, uma coleção de tratados sobre o Livro das Mutações em geral, constituindo provavelmente o que Ssu-ma Ch´ien chamava "O Grande Comentário" (Ta Chuan); segundo, encontram-se dispersos dentro deste texto e dispostos de acordo com certos pontos de vista os fragmentos de um comentário sobre os julgamentos anexos às linhas. Existem muitos indícios de que esses fragmentos têm origem na mesma fonte que a coleção de comentários, conhecida como Wên Yan (Comentário sobre as Palavras do Texto).
É evidente que os tratados conhecidos como Hsi Tz´u ou Ta Chuan não foram redigidos por Confúcio, pois neles encontram-se diversas passagens atribuídos ao Mestre.5
Esses tratados contêm um significativo acervo de tradições da escola confucionista, procedente de diferentes épocas.
A Sétima Asa, ou Wên Yen (Comentário sobre as Palavras do Texto), é uma obra muito importante. Compõe-se dos remanescentes de um comentário, ou melhor, de toda uma série de comentários sobre o Livro das Mutações. Contém um material valiosíssimo procedente da escola confucionista. Infelizmente não vai além do segundo hexagrama, K´un.
Esse tratado contém ao todo quatro comentários diferentes sobre o hexagrama Ch´ien, o Criativo. Na presente tradução (na qual o texto do Wên Yen está distribuído entre os hexagramas Ch´ien e K´un) esses comentários foram denominados a, b, c, d. O comentário "a" desta série pertence ao mesmo estrato que os fragmentos de comentários dispersos no Hsi Tz´u Chuan. Reproduzem o texto e acrescentam a pergunta: "Que significa isso?". Algo semelhante ocorre ao comentário Kung Yang sobre o Ch´un Ch´iu. Os comentários "b" e "c'' contêm breves observações sobre as diferentes linhas, segundo o estilo das "Pequenas Imagens". O comentário "d", assim como o "a", trata do julgamento do hexagrama como um todo e das diferentes linhas, porém o faz de modo mais livre. No Wên Yen resta apenas um comentário sobre o hexagrama K´un. Esse texto assemelha-se ao comentário "a", apesar de estar relacionado a um estrato diverso. (O texto é colocado após as explicações do Mestre.6
Esse mesmo estrato está representado também no Hsi Tz´u Chuan.)
A Oitava Asa, Shuo Kua, "Discussão dos Trigramas", contém um material de grande antigüidade, destinado à explicação dos trigramas fundamentais. Provavelmente inclui vários fragmentos anteriores a Confúcio, comentados por ele ou por sua escola.
A Nona Asa, Hsu Kua, "Seqüência ou Ordem dos Hexagramas", apresenta uma explicação pouco convincente sobre a atual disposição em seqüência dos 64 hexagramas. O único interesse dessa explicação está nas curiosas interpretações que às vezes são dadas aos nomes dos hexagramas e que, sem dúvida, baseiam-se em tradições antigas.
Esse comentário que, sem dúvida, nada tem a ver com Confúcio, foi também dividido e distribuído entre os diversos hexagramas, com o título "A Sequência"7
A Décima e última Asa, Tsa Kua ou "Coletânea de Indicações",8
é formada de definições dos hexagramas em versos de caráter mnemônico, em geral dispostos em pares opostos, diferindo, porém, essencialmente da seqüência do atual Livro das Mutações. Estas definições também foram divididas e distribuídas entre os diferentes hexagramas, sob o título "Coletânea de Indicações"...........
As páginas que se seguem apresentam primeiro a tradução dos dois tratados - Shuo Kua, Discussão dos Trigramas, e Hsi Tz´u Chuan, Comentário sobre os Julgamentos Anexos, mais corretamente denominado Ta Chuan, o Grande Comentário. Em seguida, há algumas considerações sobre a estrutura dos hexagramas, procedentes de diversas fontes, e que são importantes para a compreensão da segunda parte.