|
O terceiro capítulo trata separadamente de cada um dos oito trigramas e apresenta os símbolos aos quais estão associados. Este capítulo é importante, uma vez que, em diversas ocasiões, as palavras do texto das diferentes linhas de cada hexagrama serão explicadas com base nessas associações simbólicas. O conhecimento dessas associações é importante como um instrumento para a compreensão da estrutura do Livro das Mutações.
| |
7 - Os Atributos.
O Criativo é forte. O Receptivo é maleável. O Incitar significa movimento. A suavidade é penetrante. O Abismal é perigoso. O Aderir significa dependência. A Quietude significa imobilidade. A Alegria significa contentamento.
8 - Os Animais Simbólicos.
O Criativo atua no cavalo; o Receptivo, na vaca; o Incitar, no dragão; a Suavidade, no galo; o Abismal, no porco; o Aderir, no faisão; a Quietude, no cão; a Alegria, na ovelha.
|
O Criativo é simbolizado pelo cavalo9
que corre veloz e incansável; o Receptivo, pela vaca em sua mansidão. O Incitar tem como imagem o trovão, é simbolizado
pelo dragão que, irrompendo das profundezas,10
ascende ao céu nas tempestades - isso corresponde à única linha forte que pressiona em direção ao alto sob duas linhas maleáveis. A Suavidade, o Penetrante, tem como símbolo o galo, guardião do tempo, cujo canto corta o silêncio e se propaga como o vento, que é parte da imagem da Suavidade. O Abismal é representado pela água. Entre os animais domésticos é o porco que vive na lama e na água. O Aderir, a Claridade, em seu trigrama Li, possuía originalmente a imagem de um pássaro de fogo, semelhante a um faisão. A Quietude, Kên, tem como símbolo o cão, guardião fiel, enquanto que a Alegria está ligada à ovelha, considerada como animal do oeste11
; os dois traços da linha partida ao alto indicam os chifres da ovelha.
| |
9 - As Partes do Corpo.
O Criativo manifesta-se na cabeça; o Receptivo, no ventre; o Incitar, no pé; a Suavidade, nas coxas; o Abismal, no ouvido; o Aderir (o resplendor), no olho; a Quietude, na mão; a Alegria, na boca.
|
A cabeça governa o corpo inteiro. O ventre serve à conservação, o pé calca o chão e se move, a mão segura. Os músculos das coxas, encobertos, ramificam-se para baixo, a boca abre-se de forma visível, para o alto. O ouvido é oco por fora, o olho é oco por dentro. Esses são todos os pares de opostos que correspondem aos trigramas.
| |
10 - A Família dos Trigramas
O Criativo é o céu, e por isso é chamado o pai. O Receptivo é a terra, e por isso é chamado a mãe.
No trigrama do Incitar o feminino procura pela primeira vez o poder do masculino e recebe um filho.12
Por isso, o Incitar chama-se filho mais velho.
No trigrama da Suavidade o masculino procura pela primeira vez o poder do feminino e recebe uma filha; por isso, a Suavidade chama-se filha mais velha.
No Abismal o feminino procura pela segunda vez o masculino e recebe um filho; por isso, ele se chama o filho do meio.
No Aderir o masculino procura o feminino pela segunda vez e recebe uma filha; por isso, ela se chama a filha do meio.
Na Quietude ela procura o masculino pela terceira vez e recebe um filho; por isso, ele se chama o filho mais moço.
Na Alegria ele procura o feminino pela terceira vez e recebe uma filha; ela, então se chama a filha mais moça.
|
Nos filhos, em virtude dessa derivação, a substância procede da mãe - por isso as duas linhas femininas -, enquanto que a linha dominante e determinante vem do pai. O oposto ocorre no caso das filhas. Na progênie, o sexo é sempre oposto ao de quem "procura".
Aqui pode-se notar uma diferença entre a Ordem Interna e a Ordem Primordial quanto ao sexo dos trigramas derivados. Na Ordem Primordial a linha inferior sempre determina o sexo e os filhos então são:
| |
| 1) Chên, o Incitar: |  |
| 2) Li, o Aderir (o sol): |  |
| 3) Tui, a Alegria: |  |
|
| |
No esquema da Ordem Primordial (fig. 1), eles estão todos dispostos a leste. As filhas são:
|
| |
| 1) Sun, a Suavidade: |  |
| 2) K´an, o Abismal: |  |
| 3) Kên, a Quietude: |  |
|
Estes trigramas, por sua vez, estão dispostos a oeste. Portanto, na Ordem Interna, só Chên e Sun não se modificam quanto ao sexo. O esquema (fig. 2) mostra os três filhos à esquerda de Ch´ien, do Criativo, enquanto K´un tem as duas filhas mais velhas à sua direita e a filha mais moça à sua esquerda, entre ela própria, K´un, e Ch´ien.
| |
11 - Simbolismo Adicional.
O Criativo é o céu, é redondo, o príncipe, o pai, jade, metal, frio, gelo, o vermelho profundo, o bom cavalo, um cavalo velho, um cavalo magro, um cavalo selvagem, os frutos das árvores.
|
A maioria desses símbolos explicam-se por si mesmos. O jade é o símbolo da pureza imaculada e da firmeza; do mesmo modo o metal. O frio e o gelo resultam da posição do trigrama, situado a noroeste. O vermelho profundo é a cor intensificada do luminoso (no texto ele próprio13
, a cor do Criativo é o azul-noite, que corresponde à cor do céu). Os vários cavalos indicam o poder, a duração, a firmeza, a força (o cavalo "selvagem" é um animal mítico com dentes de serra, capaz de despedaçar até mesmo um tigre). O fruto é o símbolo da duração da mudança.
Os comentários posteriores acrescentam: "é reto, é o dragão, é roupa de cima, a palavra".
| |
O Receptivo é a terra, a mãe, um tecido, o caldeirão, a frugalidade, a superfície plana, é a vaca com um bezerro, uma grande carroça, a forma, a multiplicidade, o tronco. Entre os tipos de solo, é a terra negra.
|
Os primeiros símbolos não exigem maiores explicações. O tecido é algo que se estende; a vida cobre a terra como se fora uma vestimenta. No caldeirão cozinham-se os alimentos até que estejam prontos; a terra é, portanto, o grande crisol da vida. A frugalidade é uma qualidade fundamental da natureza. A superfície plana indica a imparcialidade da terra, que não tem preferências nem repulsas. A vaca com o bezerro é o símbolo da fertilidade; a grande carroça simboliza a terra carregando todas as coisas. Forma e ornamento são o oposto do conteúdo, que é expressão do Criativo. A multiplicidade é o oposto da unidade de Ch´ien. É do tronco que brotam os galhos, assim como toda a vida brota da terra. O negro é a escuridão em seu grau mais intenso14.
| |
O Incitar é o trovão, o dragão, o amarelo escuro, é estender, uma grande estrada, é o filho mais velho, é decisão e veemência, o bambu verde, o junco e a cana. Entre os cavalos significa os que relincham bem, os que têm patas traseiras brancas, os que galopam, os que têm uma estrela na testa.
Entre as plantas úteis significa as leguminosas. Finalmente é o forte, o que cresce em abundância.
|
O amarelo escuro representa uma fusão da escuridão do céu com a terra amarela. O estender - talvez se deva ler "o florescer'' - refere-se ao exuberante crescimento que ocorre na primavera e cobre a terra de plantas. A grande estrada indica o caminho que conduz todas as coisas à vida, na primavera. O bambu, o junco e a cana são plantas de crescimento particularmente rápido. O relinchar dos cavalos indica seu parentesco com o trovão. As patas traseiras brancas, vistas à distância, parecem brilhar quando o animal corre. O galope é a marcha mais rápida. As leguminosas, ao germinarem, trazem consigo a vagem.
| |
A Suavidade é a madeira, o vento, a filha mais velha, o fio condutor, o trabalho; é o branco, o longo, as alturas, é o avanço e o recuo, o indeciso, o odor.
Entre os homens refere-se aos grisalhos, os de testa larga, os que têm muito branco nos olhos, os que estão próximo aos lucros, de modo que obtêm três vezes mais no mercado. Finalmente, é o signo da veemência.
|
Os primeiros significados não exigem maiores explicações. O fio condutor pertence a esse trigrama na medida em que se refere à difusão de ordens que se espalham como o vento. O branco é a cor do princípio Yin. O Yin encontra-se aqui ao começo, na posição inferior. A madeira cresce alongando-se, o vento sobe a grandes alturas. O progresso e o retrocesso se referem à natureza mutável do vento; assim, a indecisão e o odor que o vento propaga fazem parte desse mesmo contexto. Nos homens grisalhos, com cabelos ralos, o branco predomina. Aqueles que têm muito branco nos olhos são arrogantes e veementes. Também o são aqueles que têm ambição de lucros com o que, ao final, o trigrama se converte em seu oposto e representa a violência, isto é, Chên.
| |
O Abismal é a água, fossos, a emboscada, é o que se dobra e desdobra, o arco e a roda.
Entre os homens refere-se aos melancólicos, aos que sofrem do coração, aos que padecem de dor de ouvido.
É o signo do sangue, é vermelho.
Entre os cavalos representa os que têm um belo quarto traseiro, os que têm uma coragem selvagem, aqueles cuja cabeça pende, os que têm cascos finos, os que tropeçam.
Entre as carroças representa as que têm muitos defeitos.
É a penetração, é a lua.
Significa os ladrões.
Entre as diversas espécies de madeira, significa as firmes e com muitos sulcos.15
|
Os primeiros atributos, mais uma vez, explicam-se por si mesmos. O dobrar e o desdobrar são implícitos à trajetória tortuosa da água; isso conduz à idéia do curvo, do arco e da roda. A melancolia é expressa pela linha forte encerrada entre duas linhas fracas; por isso também a doença do coração. O trigrama significa o esforço assim como o ouvido. As dores de ouvido foram deduzidas dessa dificuldade de escutar.
O sangue é o líquido do corpo, por isso a cor de K´an é o vermelho, se bem que de um tom mais claro que o vermelho de Ch´ien, o Criativo. Devido à sua propriedade penetrante, quando referindo-se a uma carroça, representa um veículo com rachaduras que, no entanto, ainda é usado para carga. A penetração é sugerida pela linha central penetrante, encravada entre duas linhas fracas. Como seu elemento é a água, representa a lua que, por isso, aparece como masculina. Aqueles que penetram secretamente num lugar e se retiram de maneira furtiva são os ladrões. Os sulcos da madeira também estão ligados ao atributo da penetração.
| |
O Aderir é o fogo, o sol, o raio, a filha do meio. Significa armaduras e elmos, lanças e armas. Entre os homens, refere-se aos que têm o ventre dilatado.
É o signo do seco. Significa o jaboti, o caranguejo, o caracol, o molusco, a tartaruga.
Entre as árvores refere-se às que secam na parte superior do tronco.
|
Quando os símbolos não são compreensíveis em si mesmos, são sugeridos pelo significado do fogo, do calor e da seca como também pelo próprio caráter do trigrama: sólido e firme por fora, oco e maleável por dentro. Esse aspecto explica a ligação com as armas, com o ventre dilatado, os animais que têm casco e as árvores ocas que começam a secar acima.
| |
A Quietude é a montanha, uma via de contorno, as pequenas pedras, as portas e aberturas, frutas e sementes; significa os eunucos e os vigias, os dedos, o cão, o rato e as diversas espécies de pássaros de bico preto.
Entre as árvores significa as que são firmes e nodosas.
|
A via de contorno é sugerida pelos caminhos das montanhas, do mesmo modo que as pedras. O portal é indicado pela forma do trigrama . As frutas e as sementes são a ligação entre o fim e o começo das plantas. Os eunucos são os guardiões das portas, os guardas vigiam as estradas; ambos protegem e vigiam. Os dedos servem para segurar. O cão toma conta, o rato rói, os pássaros de bico preto bicam as coisas com facilidade. Os troncos nodosos são os mais resistentes.
| |
A Alegria é o lago, a filha mais moça, uma feiticeira, é a boca e a língua. Significa estragar e partir-se, cair e entreabrir-se.
Entre os tipos de solo refere-se às terras duras e com alto teor de sal.
É a concubina, é a ovelha.
|
A feiticeira é uma mulher que fala. O trigrama da Alegria é aberto acima, por isso a boca e a língua. Está situado a oeste e assim associado à idéia do outono, destruição; por isso estragar e romper-se, a queda e o entreabrir dos frutos maduros. Nos locais em que lagos secaram a terra é dura e com alto teor de sal. A concubina se deduz da idéia da filha mais moça. A ovelha, fraca exteriormente e teimosa em seu interior, é evocada pela forma do trigrama, como já foi indicado acima. A ovelha e a cabra são consideradas na China como animais praticamente idênticos e têm o mesmo nome.
|
|