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3 - Céu e Terra determinam a direção. Montanha e Lago unem suas forças. Trovão e Vento estimulam-se um ao outro. Água e Fogo não se combatem. Assim, os oito trigramas se interligam.
O registro do que ocorre e segue rumo ao passado depende do movimento progressivo. O conhecimento do que acontecerá depende do movimento retroativo. Por isso há, no Livro das Mutações, algarismos em ordem decrescente.
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Aqui, numa expressão provavelmente muito antiga, os oito trigramas primordiais são enunciados numa seqüência de pares que, de acordo com a tradição, remonta a Fu Hsi. Isso significa que essa ordenação existia já na época da compilação do Livro das Mutações, durante a dinastia Chou. Esse arranjo é denominado "Seqüência do Céu Anterior" ou "Seqüência Primordial",2
"Ordenação Primordial". Os diferentes trigramas são relacionados aos pontos cardeais da seguinte forma (deve-se notar que os chineses situam o sul ao alto).3

Fig. 1. Seqüência do Céu Anterior ou Seqüência Primordial.4
Ch´ien, céu e K´un, terra, determinam o eixo norte-sul. Segue-se então o eixo Kên, montanha, e Tui, lago. Suas forças se interligam, uma vez que o vento sopra da montanha em direção ao lago e as nuvens e a névoa dirigem-se do lado à montanha. Chên, trovão, e Sun, vento, surgem fortalecendo um ao outro. Li, fogo, e K´an, água, são opostos inconciliáveis no mundo dos fenômenos. Entretanto, nos relacionamentos primordiais4
seus efeitos não entram em conflito mas, ao contrário, mantêm um ao outro em equilíbrio.
Quando os trigramas se interligam, isto é, quando estão em atividade, observa-se um duplo movimento. O primeiro é o movimento habitual, progressivo, no sentido dos ponteiros do relógio; acumula e se expande com o decorrer do tempo e determina os acontecimentos que seguem rumo ao passado. O segundo é o movimento oposto, retroativo, que se dobra e contrai no decurso do tempo; é através dele que as sementes do porvir vêm a tomar forma. A compreensão desse movimento possibilita o conhecimento do futuro. Isto pode ser expresso na seguinte imagem: caso se compreenda como uma árvore está contida no interior de uma semente, se poderá também compreender o futuro desdobramento da semente em árvore.
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4 - O trovão provoca o movimento, o vento gera a dispersão, a chuva gera umidade, o sol gera o calor, a Quietude gera imobilização, a Alegria gera o contentamento, o Criativo gera o domínio, o Receptivo gera o abrigo.
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Aqui novamente são apresentadas as forças simbolizadas pelos oito trigramas primordiais em termos de seus efeitos sobre a natureza. Os quatro primeiros trigramas são designados por suas imagens, os quatro últimos, por seus nomes. Isso porque só os quatro primeiros designam, em suas imagens, as forças da natureza em atividade no curso do tempo, enquanto os quatro últimos indicam as condições que surgem no decorrer do ano.
Assim se tem primeiro uma linha de movimento progressivo (ascendente), na qual manifestam-se os efeitos das forças do ano anterior. De acordo com a seção 3, seguindo-se esta linha chega-se ao conhecimento do passado, pois este subsiste como causa latente nos efeitos que gerou. No segundo conjunto, quando os trigramas são nomeados não através das imagens (fenômenos), mas de acordo com seus atributos, há um movimento retroativo, um salto de Li, que se encontra a leste, de volta a Kên, no noroeste. Desenvolvem-se, nessa linha, as forças do ano que está por ini
ciar. Seguindo-se essa linha chega-se ao conhecimento do futuro que, em suas causas, está sendo preparado como efeito, como sementes que, concentradas em si mesmas, preparam-se para o crescimento.
Dentro da Seqüência Primordial essas forças agem em pares de opostos. O trovão, a força eletricamente carregada, desperta as sementes do ano anterior; sua contraparte, o vento, dissolve a rigidez do gelo do inverno. A chuva umedece as sementes, possibilitando-lhes o germinar; sua contraparte, o sol, provê o calor necessário. Por isso a expressão: "Água e fogo não se combatem". Em seguida entram em jogo as forças retroativas. A Quietude bloqueia qualquer nova expansão: começa a germinação. Sua contraparte, a Alegria, gera o contentamento da colheita. Finalmente entram em jogo as duas forças diretrizes: o Criativo, que representa a grande lei da existência, e o Receptivo, que indica o abrigo no seio materno, ao qual tudo retorna após o ciclo da vida se ter completado.
Assim como no ciclo do ano, também na vida humana existem essas linhas de forças ascendentes e retroativas, das quais se podem deduzir o passado e o futuro.
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5 - Deus se manifesta no signo do Incitar; ele faz com que todas as coisas se completem no signo da Suavidade; ele leva as criaturas a se perceberem umas às outras no signo do Aderir (a luz); ele faz com que elas se ajudem no signo do Receptivo. Ele infunde-lhes o contentamento no signo da Alegria; ele luta no signo do Criativo, se esforça no signo do Abismal e conduz à plenitude no signo da Quietude.
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Aqui se apresenta a seqüência dos oito trigramas de acordo com o arranjo atribuído ao Rei Wên, e que é denominada a "Seqüência do Céu Posterior", ou "Ordem Interna do Mundo".5
Os trigramas aqui são retirados de seu agrupamento em pares de opostos e apresentados segundo a seqüência temporal em que se manifestam no plano fenomênico durante o ciclo do ano. Assim sendo, a ordenação dos trigramas sofre modificações essenciais. Estabeleceram-se correlações entre os pontos cardeais e as estações do ano. A ordem é a seguinte:

Fig. 2. Seqüência do Céu Posterior ou Ordem Interna do Mundo.
O ano começa a revelar a atividade criadora de Deus no trigrama Chên, o Incitar, que está a leste e significa a primavera. A passagem que se seguirá contém explicações mais detalhadas sobre como essa atividade de Deus se realiza na natureza.
É muito provável que a seção 5 expresse um provérbio enigmático de origem muito remota, que receberá, no trecho a seguir, uma interpretação de cunho sem dúvida confucionista.
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Todos os seres surgem no trigrama do Incitar, que se encontra a leste.
Eles chegam à plenitude no trigrama da Suavidade, que se encontra a sudeste. A plenitude significa que todos os seres tornam-se puros e realizados.
O Aderir é a luminosidade, na qual os seres percebem-se uns aos outros. É o trigrama do sul. O fato de os santos e sábios voltarem-se para o sul quando escutavam o sentido do universo significa que governavam voltados para a luz.6
Eles sem dúvida inspiravam-se nesse trigrama.
O Receptivo significa a terra. Ele cuida para que todos os seres tenham alimento. Por isso se diz: "Ele (Deus) os leva a ajudarem-se uns aos outros no trigrama do Receptivo".
A Alegria é o auge do outono, que proporciona contentamento a todos os seres. Por isso se diz: "Ele lhes dá contentamento no trigrama da Alegria".
"Ele luta no trigrama do Criativo". O Criativo é o trigrama do noroeste. Isso indica que aqui o obscuro e o luminoso incitam-se um ao outro.
O Abismal significa água. É o trigrama do norte, do esforço a que todos os seres estão sujeitos. Por isso se diz: "Ele se esforça no trigrama do Abismal".
A Quietude é o trigrama do nordeste, onde consuma-se o começo e o fim de todos os seres. Por isso se diz: "Ele os conduz à plenitude no trigrama da Quietude".
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Aqui se ressalta a correspondência entre o curso do ano e o curso do dia. Aquilo que, no trecho anterior, se descrevia como a manifestação do divino, agora é expresso em sua atuação na natureza. Os trigramas são atribuídos às estações do ano e aos pontos cardeais, através de breves referências das quais se infere o esquema acima (fig. 2). Com o despertar da primavera a natureza começa a germinar e brotar. Isso corresponde ao amanhecer, ao início do dia. Este movimento que arranca da inércia é atribuído ao trigrama Chên, o Incitar, que surge da terra sob a forma do trovão e da força elétrica.7
Sopram, então, as suaves brisas, renova-se o mundo das plantas, cobre-se a terra de verde. Isso corresponde ao trigrama da Suavidade, do Penetrante. Sun tem como imagem tanto o vento que dissolve o rígido gelo do inverno, como a
madeira que cresce organicamente. Esse trigrama tende a fazer com que as coisas fluam rumo às suas formas, que se desenvolvam e cresçam de modo a realizar o que se prefigurava na semente.
Chega-se, então, à culminância do ano, ao pleno verão, ao meio-dia. Este é o ponto do trigrama Li, o Aderir, a Luz. Aqui os seres percebem-se uns aos outros. A vida orgânica vegetativa passa ao estado de consciência psíquica. Aqui há também uma imagem da sociedade humana na qual o dirigente, voltado para a luz, governa o mundo. Convém notar que o trigrama Li ocupa a posição sul, que na Seqüência Primordial era ocupada pelo trigrama Ch´ien, o Criativo. Li consiste essencialmente na linha superior e inferior de Ch´ien, que incorporou a si a linha central de K´un. Para uma compreensão completa, deve-se visualizar a Ordem Interna do Mundo como translúcida, quando, então, através dela, brilharia a Ordem Primordial. Assim, quando se chega ao trigrama Li, encontra-se também o dirigente Ch´ien, que governa voltado para o sul.
Segue-se o amadurecimento dos frutos do campo, dádiva de K´un, a Terra, o Receptivo. É a época da colheita, do trabalho comunitário. E então, assim como a noite segue-se ao dia, vem o pleno outono, no trigrama da Alegria, Tui, conduzindo o ano à maturidade e ao contentamento. A seguir vem a estação severa, que exige provas do que foi realizado. Há uma atmosfera de julgamento. Os pensamentos retornam da terra para o céu, para o Criativo, Ch´ien. Trava-se uma luta. É justamente quando o Criativo está alcançando o domínio que o poder obscuro de Yin adquire sua maior capacidade de influência externa. Por isso o obscuro e o luminoso agora incitam-se um ao outro. Não pode haver dúvida quanto ao resultado dessa luta, pois é apenas a conclusão decorrente de causas já existentes que foram julgadas pelo Criativo.
Depois chega o inverno no trigrama do Abismal, K´an, situado ao norte, lugar do Receptivo na Ordem Primordial. K´an tem como símbolo o desfiladeiro. É o momento do trabalho de guardar a colheita no celeiro. Assim como a água não poupa esforços, dirigindo-se sempre aos lugares mais profundos (e por isso todas as coisas acompanham seu fluir), assim o inverno no curso do ano e a meia-noite no curso do dia representam o momento da concentração.
O trigrama Kên, a Quietude, cujo símbolo é a montanha, tem um significado misterioso. Aqui, na semente, no mais profundo recolhimento e silêncio, o fim de todas as coisas une-se a um novo começo. A morte e a vida, o perecer e o ressuscitar - esses são os pensamentos que despertam a transição do ano que passa ao novo ano que chega.
Assim fecha-se o círculo. Como o dia ou o ano na natureza, cada vida, e mais ainda, cada ciclo de experiências, instaura uma continuidade que liga o antigo ao novo. A partir dessa perspectiva pode-se compreender por que em vários dos sessenta e quatro hexagramas o sudoeste representa o período de trabalho e companheirismo, enquanto o nordeste corresponde ao período de solidão, quando o antigo termina e o novo principia.
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6 - Há um espírito misterioso presente em todos os seres, e que atua através deles. Entre tudo que movimenta as coisas, nada é mais veloz que o trovão. Entre tudo que curva as coisas, nada é mais rápido que o vento. Entre tudo que aquece as coisas, nada resseca mais que o fogo. Entre tudo que alegra as coisas, nada traz mais contentamento que o lago. Entre tudo que umedece as coisas, nada é mais úmido que a água. Entre tudo que dá início e fim às coisas, nada é mais glorioso que a quietude.
Por isso a água e o fogo se complementam, o trovão e o vento não atrapalham um ao outro, as forças da montanha e do lago atuam convergindo. Somente assim é possível a modificação e a transformação. Somente assim os seres podem alcançar a perfeição.
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Aqui descreve-se apenas a atividade dos seis trigramas derivados.8
Essa é a ação do princípio espiritual que não é uma coisa entre as outras, mas a força que se manifesta através de diferentes efeitos - do trovão, do vento, etc. Os dois trigramas originários, o Criativo e o Receptivo, não são mencionados, pois enquanto céu e terra eles são diretas expressões do próprio espírito no interior do qual, pela influência das forças derivadas, o mundo visível surge e se modifica. Cada uma dessas forças atua numa determinada direção, mas há movimento e mutação apenas porque essas forças não se anulam uma à outra mas, agindo como pares complementares de opostos, impulsionam a dinâmica cíclica da qual depende a vida do mundo.
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