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1 - Os santos sábios da antigüidade compuseram o Livro das Mutações da seguinte maneira: para ajudar de modo misterioso os Deuses Luminosos, eles inventaram o oráculo de caules de milefólio. Ao céu atribuíram o número três e à terra, o número dois; a partir daí calcularam todos os demais números.
Contemplaram as mutações na escuridão e na luz e de acordo com elas estabeleceram os hexagramas. Provocaram movimentos no firme e no maleável, dando origem, assim, às diferentes linhas. Colocaram-se em harmonia com o Tao e a Vida estabelecendo, de acordo com isso, a ordem do que é correto. Refletindo sobre a ordem do mundo externo até as últimas conseqüências e explorando a lei de sua própria natureza interna em seu núcleo mais profundo chegaram à compreensão do destino.
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Esta primeira seção se refere ao Livro das Mutações como um todo e aos princípios em que se baseia. O objetivo original dos hexagramas era a consulta do destino. Mas como os seres divinos não expressam em forma direta seu saber, foi necessário encontrar um meio através do qual pudessem se fazer entender. Foram três os meios de expressão de que, desde os primórdios da existência, a inteligência supra-humana se valeu: homens, animais e plantas nos quais a vida pulsa. A eles veio se reunir, como um quarto fator mediador, o acaso. A própria ausência de significado imediato que o caracteriza permite a expressão de um sentido mais profundo. O oráculo surgiu dessa utilização do acaso. O Livro das Mutações teve sua origem na prática oracular em que são usados caules de milefólio manipulados por homens capazes de estabe
lecer a mediação entre o plano humano e o sobre-humano1.
A linguagem estabelecida para a comunicação com as inteligências supra-humanas baseia-se nos números e seu simbolismo. Os princípios fundamentais do mundo são o céu e a terra, o espírito e a matéria. A terra é o princípio derivado, por isso lhe é atribuído o número dois.
O céu é a unidade última que, porém, inclui em si a terra. Por isso lhe é atribuído o número três. O número um não poderia expressá-lo pois, não contendo em si qualquer diversidade, é demasiado abstrato e imóvel. Segundo essa concepção os números ímpares foram atribuídos ao mundo celeste e os números pares, ao mundo terrestre.
Os hexagramas, em sua composição de seis linhas, são, pode-se dizer, representações de condições reais do mundo e das combinações do poder luminoso, celeste, e do poder obscuro, terreno, que ocorrem nessas situações. Porém, no interior desses hexagramas há sempre a possibilidade de mutação e reagrupamento das linhas. Assim como as situações do mundo estão em contínua mutação, assim também os hexagramas mudam, criando novas composições em lugar das anteriores. O processo de mutação manifesta-se nas linhas móveis, resultando, ao final, na formação de um novo hexagrama.
Mas além de sua utilização como oráculo, o Livro das Mutações possibilita também a compreensão intuitiva das condições do mundo e um aprofundamento até os níveis mais essenciais da natureza e do espírito. Os hexagramas apresentam imagens completas das condições e relacionamentos do mundo como um todo. As diferentes linhas tratam das mutações que ocorrem em situações específicas no interior dessas condições gerais. O Livro das Mutações está em harmonia com o Tao e a Vida (Tao, a lei natural, e Te, a lei moral). Por isso, o livro pode estabelecer as normas quanto ao que é próprio e adequado a cada homem. Mergulhando até as profundezas das derradeiras origens tanto no plano da experiência externa (natureza) quanto no da interna (espírito), o homem pode chegar à descoberta do Destino, do sentido último do mundo tal como este realmente é, tal como veio a ser, em virtude de uma decisão criadora (Ming). Ambos os caminhos conduzem à mesma meta. (Cf. o primeiro capítulo de Lao-Tse.)
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2 - Os santos sábios da antigüidade compuseram o Livro das Mutações da seguinte maneira: tinham como meta seguir a ordem da lei interna e do destino. Constataram, então, o Tao do céu e o chamaram de o obscuro e o luminoso. Constataram o Tao da terra e o chamaram de o maleável e o rígido. Constataram o Tao dos homens e o chamaram: o amor e a justiça. Combinaram esses três poderes fundamentais e os duplicaram. Por isso, no Livro das Mutações cada signo é formado por seis linhas. As posições das linhas são divididas em obscuras e luminosas. O maleável e o rígido alternam-se como ocupantes dessas posições. Por isso o Livro das Mutações tem seis posições que formam as figuras lineares.
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Essa seção trata dos elementos de cada hexagrama e suas relações com o curso do mundo. Assim como no céu o anoitecer e o amanhecer formam o dia pela alternância da escuridão e da luz (Yin e Yang), assim também as posições pares e ímpares em cada hexagrama são designadas como obscuras e luminosas. As posições 1, 3 e 5 são luminosas e as posições 2, 4 e 6 são obscuras. Como, por outro lado, todos os seres sobre a terra são formados de elementos firmes e maleáveis, as diferentes linhas são também firmes (isto é, inteiras) ou maleáveis (partidas). Esses dois poderes fundamentais no céu e na terra correspondem no homem às polaridades de amor e justiça. O amor corresponde ao princípio luminoso, a justiça, ao princípio obscuro. Como são aspectos subjetivos e não objetivos, esses atributos humanos não estão representados em específico nem nas posições nem nas linhas dos hexagramas. Entretanto, a tríade dos princípios universais está expressa no hexagrama como um todo, assim como em seus componentes. Essa tríade se divide em: sujeito (homem), objeto dotado de forma (terra) e conteúdo (céu). A posição inferior num trigrama corresponde à terra, a do meio, ao homem, a superior, ao céu. De acordo com o princípio da bipolaridade do universo, os conjuntos originais, compostos de três linhas (trigramas), foram duplicados. Nos hexagramas assim formados há, por isso, duas posições para cada elemento: a terra, o homem e o céu. As duas posições inferiores são atribuídas à terra, a terceira e a quarta, ao homem, as duas superiores, ao céu.
Essa concepção do universo forma um todo que se completa e conclui em si mesmo. Parece estar diretamente ligada ao Chung Yung ("A Doutrina do Meio"). Considerando-se seu conteúdo de idéias, pode-se concluir que este primeiro capítulo faz parte do conjunto de ensaios sobre o significado e estrutura dos hexagramas intitulado "Julgamentos Anexos" (Ta Chuan ou Hsi Tz´u Chuan), não tendo, portanto, vínculo direto com o que se segue.
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