UOL Business - Apesar de ter encerrado 2002 com lucro operacional maior que em 2001, a Eliane fechou o ano no vermelho. O que a companhia tem feito para reverter essa situação?
Nelson Cascelli Reis - O fato de a Eliane ter fechado no vermelho no ano passado tem a ver com o câmbio. O câmbio ficou muito supervalorizado do segundo semestre até o final do ano, com toda aquela expectativa negativa em torno do Brasil, e a Eliane tem uma dívida razoável, de longo prazo, em dólar. O efeito dólar é muito forte para uma empresa que exporta os volumes que a Eliane exporta. Agora, com a queda do dólar, já estamos revertendo essa situação. Só este mês a Eliane fechou o balanço com 4 milhões de reais de lucro.UOL Business - Quais as expectativas da Eliane com relação às exportações?
Reis - Para a Eliane, e para os exportadores em geral, o que interessa não é um dólar alto nem baixo, e sim um dólar de equilíbrio, que permita planejamento. Acreditamos que esse dólar pode ficar em 3 reais, 3,20 reais, equilibradamente, e nesses níveis a estratégia da Eliane é incrementar as exportações sempre. Temos uma estratégia de focar muito no mercado do NAFTA [Estados Unidos, México e Canadá] e no mercado da América do Caribe, que é uma América equatorial, quente, e que começa a desenvolver o uso de cerâmica.
UOL Business - E se o dólar ficar abaixo dessa faixa de 3 reais?
Reis - O dólar de corte da Eliane é menor que isso. Tanto é que a 2,80 reais tivemos esse resultado de 4 milhões de reais de lucro. Mas seria bom para a indústria como um todo, não só para a Eliane, que o dólar ficasse nessa faixa.
UOL Business - A Eliane tem uma dívida de 45 milhões de dólares com o IFC, braço financeiro do Banco Mundial. Como a empresa lida com isso?
Reis - A dívida de longo prazo não nos preocupa por dois motivos. Primeiro porque ela é uma dívida basicamente "hedgeada" em produtos [dívida que se baseia nos bens produzidos pela empresa]. Então é um hedge [proteção contra variação do câmbio] natural, o que diminui muito o risco. Além disso, temos gerado caixa EBITDA suficiente, aumentando 25% a cada ano. Este ano vamos gerar 83 milhões de reais de EBITDA [lucro antes de participações, impostos, depreciação e mortização]. O que incomoda um pouco a Eliane é a dívida de curto prazo, porque a indústria de cerâmica demanda muito capital de giro. Hoje os empréstimos são feitos em bancos por meio de desconto de duplicata, mas já estamos começando a reestruturar essa dívida. Pode ser por meio de fundos de recebíveis [fundos formados por créditos a receber de empresas, como notas promissórias], empréstimos "clean" [empréstimos sem nenhuma garantia], novos fundos de pensão ou até mesmo fundos de investidores que começam a olhar o Brasil com mais confiança. Essas são as possibilidades.
UOL Business - Você assumiu a presidência da Eliane recentemente. Qual a sua missão na empresa?
Reis - A minha missão na Eliane é preparar um modelo de crescimento para a empresa, um modelo de longo prazo. Estamos agora no meio da discussão de um planejamento estratégico para definir o que fabricar, como fabricar, onde fabricar. E isso tem de estar pronto até o final do ano, para ser submetido ao Conselho de Administração. Uma vez aprovado, passaremos à implementação.
UOL Business - Esse plano pode contemplar a fusão com outras empresas do setor?
Reis - Sim. Hoje, os bancos de investimento e o próprio BNDES vêm analisando o setor de cerâmica no Brasil e têm observado que ele é muito pulverizado. Em setores com esse tipo de economia e com esse tipo de necessidade de capital - como no setor de telecomunicações, do qual eu venho -, isso é uma tendência natural. Então a fusão com outras empresas do setor não faz necessariamente parte do plano.
UOL Business - A Eliane chegou a ter 2 mil itens e agora são apenas 400. Vocês planejam aumentar o portfólio de produtos?
Reis - Não. Por ser líder de mercado, a Eliane tem de estar sempre lançando produtos inovadores, de design, mas tem também de "autocanibalizar" produtos. Essa é a ciência dessa indústria. É saber o que colocar e o que retirar.
UOL Business - A Eliane oferece produtos para as áreas residenciais, comerciais e industriais. Há intenções de atuar mais especificamente em alguma dessas áreas?
Reis - Eu faria a seguinte leitura: a Eliane tem produtos produtos básicos, como azulejos e pisos; produtos médios, um pouco mais sofisticados; e produtos de design, os porcelanatos. O que a Eliane quer fazer é focar cada vez em valor agregado, continuar desenvolvendo produtos mistos, como o porcelanato com coco, com metal, com coisas brasileiras. Nossos investimentos estarão focados em produtos de design.
UOL Business - Também faz parte dos planos da Eliane prestar serviços a seus clientes?
Reis - Sim. Hoje quando você chega numa butique Eliane você tem um ambiente para escolher e um profissional - um decorador, um arquiteto - para ajudá-lo na especificação. Esse serviço já existe, e essa é a forma como queremos distribuir nossos produtos. Mas todo mundo quer subir na escala de valor da indústria. Então o próximo passo é começar a fornecer materiais de limpeza para porcellanatos, por exemplo, desenvolver projetos para construtoras e até treinar os assentadores. Porque o grande problema de um piso de grife, de design, é a qualidade do assentamento, que é tão ou mais caro que o produto. E nós estamos desenvolvendo cursos para isso.
UOL Business - A Eliane também tem uma escola em Santa Catarina...
Reis - Esse é um tema que eu gosto muito, porque o balanço social da Eliane é por meio da educação. A Eliane mantém em Cocal do Sul, em Santa Catarina, o Colégio Maximiliano Gaidzinski, uma escola de 2º grau que forma 40 profissionais na área de cerâmica por ano. Todos saem empregados, na Eliane ou na indústria. Agora também estamos dando treinamento de inglês e de orçamento familiar. É um trabalho social de altíssima profundidade. E a Eliane quer aumentar o leque dessa escola, para também formar gerentes, administradores de RH etc. A responsabilidade de ser líder é que todo mundo quer a sua liderança. Então o grande diferencial em qualquer indústria são as pessoas. A Eliane investe quase 800 mil reais ao ano só no desenvolvimento de mão-de-obra básica. Também participamos de um projeto de e-learning que tem como objetivo desenvolver um sistema de treinamento a distância para toda a cadeia da construção civil.
UOL Business - Que outros serviços a Eliane oferece pela internet?
Reis - Além do B2B [compras pela internet], oferecemos aos clientes corporativos ferramentas on-line que permitem gerenciar informações comerciais. Também estamos desenvolvendo uma ferramenta em 3D voltada para pessoas que estão construindo e não têm oportunidade de contratar um decorador, um arquiteto. A idéia é que pelo portal da Eliane você insira as dimensões da sua sala e selecione os produtos desejados. Com base nesses dados, você terá idéia de como ficará o projeto, quanto vai custar, onde encontrar os materiais, ou seja, tudo para facilitar a vida do cliente. O meu desejo é que possamos incrementar as vendas com essa ferramenta, mas sei que tenho de considerar uma característica do mercado de cerâmica: o cliente quer sempre ver antes de comprar. Mas acho que vamos conseguir avançar nisso.
UOL Business - Quando vocês pretendem lançar essa ferramenta em 3D?
Reis - A idéia é lançá-la ainda este ano. Devemos iniciar os primeiros testes em outubro.
Clique aqui para ler mais entrevistas do UOL Business.