UOL Business - Quando iniciou suas atividades no mercado nacional de genéricos, em 2001, a Novartis escolheu não lançar remédios com princípios ativos que concorressem com seus produtos convencionais. Essa estratégia está sendo repensada?
Patrice Zagamé - O mercado farmacêutico é bastante fragmentado, com muitas empresas. Então, a visão inicial da Novartis no que se refere ao setor de genéricos era de não se concentrar em um pequeno market share, e sim olhar para os outros 90% do mercado, dos quais ainda não participávamos. Como estamos falando de prioridades, depois de algum tempo podemos mudar de estratégia e aí, sim, considerar o lançamento de nossos próprios genéricos.UOL Business - Ainda não chegou esse momento?
Zagamé - Ainda não. Estamos considerando a possibilidade, mas ainda não chegamos a concretizar porque é preciso balancear nossas prioridades e a alocação de energia gerencial e recursos.
UOL Business - A Novartis tinha como meta oferecer 100 genéricos aos brasileiros até 2003. Esse objetivo já foi alcançado?
Zagamé - Não, não chegamos lá. Hoje temos 18 produtos genéricos, mas nosso plano é seguir com essa amplitude de registros. Até porque o negócio de genéricos é um negócio de registros, ou seja, você tem de ter muita oferta de produtos para estar na linha de farmácias. Mas a Novartis - apesar de atrasada com relação a seus planos, em parte por conta dos atrasos de registros na esfera das autoridades - está nessa direção.
UOL Business - O setor de genéricos no Brasil vem crescendo bastante. Qual a estratégia da Novartis para abocanhar um pedaço desse mercado?
Zagamé - Aí temos um ponto-chave. O negócio genérico tem uma margem de ganância menor e um risco de erosão - e de guerra de preços - muito grande. Você corre o risco de entrar no mercado hoje e sair depois de 2, 3, 4 anos, porque o negócio atingiu um nível tão baixo que já não é negócio para ninguém. Ou melhor, não é negócio para empresas que estão fazendo investimento em pesquisas, qualidade. Trata-se de um jogo de registros, de muitos produtos, de muitos lançamentos. Nesse sentido, a estratégia da Novartis não é diferente do restante da indústria farmacêutica, ou seja, quanto mais produtos lançarmos, melhor. Mas também faz parte da estratégia Novartis se posicionar como um provedor de genéricos de altíssima qualidade. Estamos nesse negócio há muitos anos, desde a década de 60. A Novartis foi uma das primeiras empresas do mundo a oferecer matéria-prima para genéricos. Atualmente fabricamos genéricos em países como Áustria, Suíça e Estados Unidos, mas estamos considerando a produção dos genéricos no Brasil.
UOL Business - Atualmente todos os genéricos da Novartis no Brasil são importados?
Zagamé - Sim, mas se chegarmos a uma massa crítica de venda relevante teremos possibilidade de considerar a produção local, o que seria bom para a Novartis Brasil.
UOL Business - Quais os planos da Novartis para o segmento em que ela já é tradicional, para produtos como Voltaren e Cataflam, por exemplo?
Zagamé - Esse segmento tradicional, que chamamos de produtos maduros, está sofrendo muito desde a mudança do mercado e da lei de produção de genéricos. É um negócio que claramente não tem proteção de patente. Dessa forma, estamos mantendo um mínimo de investimento, apenas de manutenção, porque não acreditamos muito nas chances de defender esse portfólio, apesar de ele ser excelente. A desconexão que existe entre a receita e a compra na farmácia não permite considerar investimentos. Então estamos apenas assegurando que os produtos estejam disponíveis nos pontos-de-venda.
UOL Business - Então as vendas do Voltaren e do Cataflam caíram bastante nos últimos anos?
Zagamé - Sim, muito. Desde a Lei dos Genéricos, estamos falando de uma queda de 20% por ano.
UOL Business - Isso aconteceu porque ninguém previu o "ataque" dos genéricos?
Zagamé - Na verdade, isso pode acontecer com as melhores pessoas... Às vezes não olhamos para as ameaças estratégicas de maneira adequada, e ao pegar uma mudança de lei - por surpresa ou despreparo - isso fica mais evidenciado. Mas eu diria também que aconteceu no momento certo: o Brasil entrava numa crise econômica, havia uma promoção do próprio governo a favor dos genéricos, existia uma grande confusão entre genéricos e similares, algo de mercado negro [venda sem fatura]. Ou seja, não foi um único fator que arruinou esse negócio [referindo-se à queda nas vendas do Voltaren e do Cataflam] .
UOL Business - A Novartis anunciou este ano um investimento de 50 milhões de reais no Brasil até 2005. Em que áreas esse capital será aplicado?
Zagamé - Será aplicado na manutenção e na modernização da fábrica. Temos necessidade de investir na fábrica, que é de altíssimo padrão, para trazer mais projetos de produção para o Brasil. Nossa intenção é conquistar uma linha de produção mundial. Se pudéssemos pegar um produto de linha mundial e consolidar sua fabricação no Brasil, seria ótimo. Levando em conta o custo hoje do Brasil, a eficiência de nossa fábrica e o conhecimento na produção de Voltaren, por exemplo, poderíamos fazer isso tranqüilamente.
UOL Business - O Voltaren é apenas um exemplo ou é, de fato, uma possibilidade viável?
Zagamé - Claramente é uma possibilidade viável. Primeiro, teríamos de cumprir todo o processo de validação dessa fábrica. Mas certamente temos capacidade de produção local. Hoje estamos buscando produtividade, ou seja, procurando otimizar nossas fábricas. Se conseguirmos concentrar a produção de um produto no Brasil, poderemos utilizá-las melhor, recrutar mais pessoal, trabalhar em três turnos... Estamos trabalhando para isso.
UOL Business - Quais as metas da Novartis Brasil para 2003, em termos de faturamento?
Zagamé - Em 2002, anunciamos um faturamento líquido de 726 milhões de reais. Para este ano, esperamos crescer 15%.
UOL Business - Mas ao que se atribui esse crescimento?
Zagamé - A maioria desse crescimento está ligado ao preço mesmo. Por causa da desvalorização do real, a indústria farmacêutica em geral viveu uma situação bastante preocupante este ano. Então tivemos de renegociar preços com o governo. Na verdade, em unidades, o mercado em geral não está crescendo, ele está estagnado. E o nosso mercado específico - sem os genéricos - está apresentando uma queda de 2% em relação a 2002. Ou seja, estamos entrando numa recessão e não esperamos um crescimento orgânico.
UOL Business - Já dá para arriscar que isso acontecerá no ano que vem? Quais são as projeções da Novartis?
Zagamé - Acreditamos que essa tendência de crescimento ficará para longe. Hoje não há elementos macroeconômicos para falar que o Brasil amanhã vai recuperar uma tendência de alto crescimento. Portanto, se conseguirmos estabilizar a taxa cambial, se a inflação ficar controlada, se tudo isso ficar bem, já vai ser um sucesso. Temos de esperar um pouco mais para falar em crescimento. E isso está ligado à capacidade exportadora do Brasil. Quando o Brasil começar a exportar de uma maneira muito mais significativa, teremos recursos chegando ao país, o país começará a crescer, o poder aquisitivo dos brasileiros também e, aí sim, o mercado farmacêutico vai crescer. Até você ter esse contexto positivo eu acho que já é bom se você conseguir manter sua posição no mercado.
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