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  Entrevista


Carlos Tilkian
Estrela quer voltar a exportar como antes
Com a liderança no setor de brinquedos no Brasil consolidada, a Estrela busca novos horizontes. A companhia pretende reconquistar os mercados internacionais perdidos depois da sobrevalorização da moeda nacional, em meados dos anos 90. O grande objetivo é voltar a vender para o exterior os US$ 15 milhões a US$ 20 milhões daquela época, muito mais que os US$ 4 milhões exportados em 2002.

O primeiro passo para essa estratégia é o investimento inicial de R$ 12 milhões na construção da quarta fábrica da empresa em Itapira, a 165 quilômetros de São Paulo, com inauguração prevista até junho. A unidade de Três Pontas, em Minas Gerais, em funcionamento desde 2001, também deverá ser ampliada, em 20%. "A idéia é ter disponibilidade de produção para atendermos também a exportação", afirma o presidente da Estrela, Carlos Tilkian, em entrevista ao UOL Businessdurante a Feira Brasileira de Brinquedos, realizada esta semana em São Paulo.

O sucesso desta empreitada depende, entre outros fatores, da cotação da moeda americana. "O dólar deveria estar, no mínimo, a R$ 3,30 para que as empresas nacionais tenham um mínimo de competitividade", diz Tilkian.

 
Foto: Ivan Luis Gomes
Foto: Ivan Luis Gomes
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UOL Business - Por que a Estrela decidiu investir numa nova fábrica, prevista para ser inaugurada em junho?
Carlos Tilkian - A fábrica de Itapira (SP) está dentro de nosso plano de expansão. Nós sentimos que, principalmente depois que o governo começou a fazer as correções cambiais, nós nos tornamos mais competitivos na exportação. E como hoje há poucas alternativas fora da China de países produtores, nós realmente acreditamos que existe um espaço para o Brasil como produtor de brinquedo para participar do processo de globalização. A idéia é expandir as nossas atividades industriais com a fábrica de Itapira, que terá 40 mil metros quadrados. Estamos inaugurando em partes. No primeiro semestre, 20 mil metros quadrados. E mais 20 mil metros ao longo do primeiro semestre e início do ano que vem. E estamos também ampliando a fábrica de Três Pontas, no Sul de Minas, de 20 para 25 mil metros quadrados. A estratégia é ter disponibilidade de produção para atender não só mercado interno como a exportação.

UOL Business - A fábrica de São Paulo será mantida?
Tilkian - Vamos mantê-la, por enquanto. É claro que, dependendo de como estiver o desempenho em função de exportação e do mercado interno, nós tomaríamos outras decisões.

UOL Business - O mercado de brinquedo espera faturar R$ 1 bilhão em 2003. Qual a expectativa da Estrela para este ano?
Tilkian - Nossa expectativa é ter um crescimento real na base de 10%. O que significa que devemos passar dos R$ 250 milhões. Esta cifra pode aumentar muito se nós tivermos sucesso no processo de exportação. Isso porque o volume do mercado externo é muito maior do que o do Brasil. A única coisa que nos deixa um pouco ansiosos é que, neste momento, nós estamos tendo de absorver todo aumento de custo bruto do aumento cambial do ano passado, e o dólar caiu. O momento não é ideal para ser agressivo na exportação, mas acreditamos que através de uma redução de custo ou através de uma normalização da alíquota de importação, nós voltaremos a ser competitivos.

UOL Business - Em quanto o sr. entende que a Estrela pode aumentar as exportações?
Tilkian - A Estrela até 94 exportava de US$ 15 milhões a US$ 25 milhões por ano, o que significava cerca 20 a 30 % por cento do faturamento da companhia. Quando o governo, em 1995, promoveu a supervalorização do real, nós praticamente perdemos todo o mercado de exportação porque o nosso brinquedo ficou muito caro. Na hora que o governo corrigiu o câmbio, a partir de 1999, iniciamos um processo de reconquista. É muito mais difícil. Na medida que você está exportando e sai, alguém ocupa o seu espaço. Então, você precisa estar muito melhor para voltar. Trocar por trocar, nenhum comprador internacional troca. Nós estamos nesse processo. Estamos a cada ano crescendo. No ano passado, exportamos US$ 4 milhões, que é muito aquém do que nós exportávamos. O primeiro objetivo é voltar a faixa de US$ 15 milhões a US$ 20 milhões de exportação. Exportávamos para Estados Unidos, Europa e América Latina. Hoje, voltamos a exportar para Estados Unidos, estamos exportamos para a América Latina, mas ainda não conseguimos voltar para a Europa. Nossa prioridade absoluta é crescer para o mercado americano, que ainda é o grande mercado, e, em segundo lugar, voltar a vender para a Europa.

UOL Business - O sr. disse que o dólar subiu quando vocês compraram a matéria-prima e desceu na hora de vender. O que é um dólar ideal para a Estrela?
Tilkian - A Estrela entende que dentro da estrutura de impostos que nós temos hoje, dentro da estrutura de custo financeiro que existe no Brasil, o dólar deveria estar no mínimo a R$ 3,30 para que as empresas nacionais tenham um mínimo de competitividade. Efetivamente se o governo conseguir progredir na reforma tributária, deixar de ter tantos impostos em cascata, desonerar a produção através da reforma da previdência, então o câmbio pode cair. É uma ilusão achar que o dólar abaixo de R$ 3,20, R$ 3,30, achar que a médio e longo o prazo o Brasil consiga manter esse nível de saldo positivo na balança comercial. Você mantém a curto prazo porque os contratos estão formados e ninguém deixa de honrar um contrato porque você não consegue mais exportar.

UOL Business - Como a Estrela faz para se manter na liderança de um mercado tão pulverizado, tanto em número de itens como em concorrentes?
Tilkian - Esta é uma das dificuldades do setor. Primeiro, nós procuramos estar presentes em todos os segmentos do mercado. Nós tentamos ter uma coleção que atenda todos os segmentos de mercado. Em segundo, procuramos ter produtos para todas as faixas etárias, do recém-nascido ao adolescente, onde começamos a perder nosso consumidor. A terceira preocupação é tentar viabilizar todos as faixas de poder aquisitivo, ter produtos desde o primeiro preço, na faixa de R$ 5 ou R$ 6, até produtos de alta tecnologia e estão acima de R$ 300. Com isso, você tenta, através de uma única empresa, atender a necessidade dos consumidores. O nosso negócio é muito dinâmico. Lança 250 produtos novos a cada ano.

UOL Business - Por que a Estrela procura ter produtos cada vez mais baratos?
Tilkian - Nós temos procurado, principalmente após o Plano Real, estar cada vez mais abrindo espaço para produtos que chamamos de primeiro preço. Isso sem abrir mão da qualidade Estrela. É uma decisão estratégica. Nós não vamos piorar a qualidade do produto para vender mais barato. E por que temos aberto cada vez mais espaço? Com o Plano Real, você trouxe uma camada nova de consumidores para o mercado, que antes não tinham recursos para comprar brinquedo. E, segundo, porque infelizmente o poder aquisitivo médio do brasileiro não tem crescido. Então, a economia e os salários reais não têm crescido. Se você não tiver produtos de primeiro preço, você deixa de atender uma parcela significativa da população. Essa estratégia visa cobrir todos os segmentos de mercado.

UOL Business - A Estrela tem projeto para vender brinquedos em bancas de jornais. Tem futuro esta idéia?
Tilkian - Tem sim. Ele tem um volume muito grande de pontos-de-venda, só que requer uma logística e um tratamento diferente, desde o desenvolvimento do produto, pois produto de banca tem de ter um preço significativamente mais baixo. Porque as pessoas compram uma lembrancinha. Estamos fazendo testes com a Probanca avaliando e nós acreditamos que é uma saída muito importante.

UOL Business - E a possibilidade de a Nintendo voltar a ser representada pela Estrela no Brasil?
Tilkian - A Nintendo começou no Brasil através da associação da Estrela com a Gradiente. Elas formaram empresa que chamava Playtronic, que montou uma fábrica e todo o processo de comercialização da Nintendo no Brasil. Em 1996, a Estrela vendeu sua participação para a Gradiente. No ano passado, eles tomaram a decisão de se separar. Nós estamos conversando com a Nintendo, mas a Nintendo não tem posição de como vai atuar. Estamos conversando mas ainda não tem nada definido.



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