Com possível vitória de Schlesser, Renault é nova "rainha do deserto"

Ricardo Ribeiro, especial para o UOL
Em São Paulo
16/01/99

Ricardo Ribeiro
O buggy de Jean-Louis Schlesser, protótipo de um Renault Megane

Hubert Auriol, hoje diretor geral do Granada-Dacar e com a experiência de quem já venceu a competição duas vezes com moto e outra em carro, foi taxativo em entrevista ao UOL no final de dezembro: "O buggy de Jean-Louis Schlesser é o único carro capaz de tirar a supremacia dos Mitsubishi Pajero Evolution". Se tivesse apostado, Auriol poderia engordar a conta bancária com alguns milhares de francos franceses.

Apenas 20 quilômetros de trecho cronometrado separam o buggy do francês Schlesser da vitória na 21ª edição da maior e mais perigosa competição sobre rodas do Planeta. É exatamente a distância da 16ª e última etapa da prova, nas praias e dunas senegalesas, que acontece nesse domingo. Se ele não tiver azar, a Renault, que assina o chassi e o potente motor do carro, será a nova rainha do deserto africano, desbancando a rival Mitsubishi.

A já quase vitória inédita de Schlesser vai entrar para a história do rali. O buggy dele nunca venceu o desafio. Em compensação os Mitsubishi acumulam cinco vitórias em 21 anos de Dacar (98, 97, 93, 92 e 85). Embora previsível para alguns, uma suposta derrota da marca japonesa sempre foi tratada como ficção.

O buggy de Schlesser é uma coisa esquisita, difícil de descrever. Não se parece com nada. Apenas a frente carrega o símbolo da Renault e lembra pouco o bico do modelo Megane. A marca francesa tenta, há anos, uma vitória no Dacar, já que a última foi em 82. Seus principais rivais na França, a Peugeot e a Citroën (que não competem mais no rali), têm juntas oito vitórias.

Se o departamento de propaganda e marketing da Renault seguir a tradição jornais, revistas e emissoras de TV das principais cidades do mundo estarão exibindo nas próximas semanas comerciais com a façanha de Schlesser. Afinal, não existe melhor propaganda do que usar a conquista do Dacar como símbolo de resistência de seus carros.

Esse é o grande objetivo das marcas que investem milhões de dólares no rali: publicidade. A própria Citroën, que venceu a competição uma vez com o finlandês Ari Vatanen e três com o francês Pierre Lartigue, usou e abusou. Os carros "ZX" saíram da fábrica com adesivos promocionais nos vidros traseiros, onde divulgavam que aquele modelo "venceu o rali Dacar".

E o consumidor gosta disso, pois sabe que "cobaias" daquela marca foram testadas em situações nada comuns: terra, areia, pedra, buraco e dunas. São dias e mais dias acelerando milhares de quilômetros sob calor infernal. Ou seja, se o carro resistiu a tudo isso, poderá sobreviver perfeitamente nas ruas de qualquer cidade. Até mesmo no "queijo suíço" chamado São Paulo.

Etapa 15