Bombas e rebeldes preocupam apresentadora da Globo

Ricardo Ribeiro, especial para o UOL
Em Granada
28/12/98

Ricardo Ribeiro
A jornalista Leilane Neubarth conversa, no centro de Granada (Espanha), com os brasileiros Maurício Fernandes e Arillo Alencar Junior (dir)

A jornalista Leilane Neubarth, apresentadora do "Bom Dia Brasil", da Rede Globo, será a primeira mulher brasileira a participar do rali Granada-Dacar. E como aventura pouca é bobagem, ela irá competir no caminhão Tatra do piloto brasileiro André Azevedo, da equipe BR/Lubrax.

Leilane está empolgada e aparentemente tranquila com o desafio. Mas tem suas preocupações. "Não tenho medo de morrer no rali, mas do sofrimento e dos riscos que podemos enfrentar, como possíveis ataques e sequestros de rebeldes e minas (bombas) intactas que foram abandonadas pelo deserto".

Ela sabe o que está falando e esse medo não é em vão. No rali de 91, entre Paris-Tripoli-Dacar, um franco-atirador assassinou o piloto de caminhão Charles Cabanne, que dava apoio à equipe oficial da fábrica francesa Citroën.

No rali de 96, entre Granada-Dacar, mais um grave acidente envolvendo outro caminhão de apoio da Citroën. O mecânico Laurent Gueguen morreu após a explosão do veículo, que passou em cima de uma mina deixada intacta nas areias do deserto do Saara.

Histórias traumáticas à parte, Leilane Neubarth deixa bem claro que gosta muito de aventura. "Quero encontrar novos desafios e ultrapassá-los. Faço isso até no cotidiano da minha profissão", explicou.

A jornalista relembra quando foi convidada por Armando Nogueira e Alice Maria, então os principais diretores da CGJ (Central Globo de Jornalismo), para apresentar o Jornal da Globo, em rede nacional. Leilane, repórter que trabalhava na rua, topou na hora.

O desafio estava lançado: atuar em estúdio, algo que quase nunca fazia. "Naquela época não havia ninguém apresentando telejornais com 21 anos. Era a minha idade", relembra. Pelo jeito deu certo.

Leilane sempre andou rodeada de desafios e aventuras. Começou a fazer off-road de moto em Lumiar, região serrana do Rio de Janeiro, com a ajuda e instrução de um ex-namorado. "Eu sempre ia na garupa, mas às vezes não dava porque as trilhas eram difíceis. Não queria ficar cozinhando em casa e fui aprender a pilotar", disse.

E a família, Leilane, aceitou a idéia numa boa? Em termos. O filho mais velho, de 17 anos, é o "especialista" em equipamentos eletrônicos. "Ele me ajudou a operar a câmera de vídeo, a internet", disse. O mais novo, de 10 anos, é o mais "preocupado", embora não entenda muito a situação. "Mas ele fala que estou indo para um lugar sinistro e vou dormir com cobras e escorpiões no deserto".

E o marido? Olívio Petit, diretor de criação da Sportv, emissora de TV a cabo especializada em esportes, sabe que o Dacar não é brincadeira. Sabe porque o evento tem o trágico apelido de "rali da morte". E sabe ainda que ali o menor descuido pode ser fatal. Sabe também que em 20 anos de existência, mais de 35 pessoas já morreram durante a competição.

"Meu marido trabalha com esporte. Ele conhece bem a história do rali Granada-Dacar. Quando falei com ele sobre minha ida para o deserto africano, ele simplesmente ficou quieto. Senti que não gostou muito", contou Leilane Neubarth, em Granada.

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