A correspondência é renovada aos domingos, terças e quintas
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Mario Sergio
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São Paulo
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Ivan Lessa
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17/09/2000
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Se é Byron, é bom
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Nêgo,
Primeiro em Macapá com brasilianistas. Agora na Bahia com um fotógrafo. Pelo jeito, você só andou pelo Brasil com americanos. Que mania, que tara é essa? Gosta de língua gringa quando ela lhe roça as orelhas, a nuca?
Vim carregado de presentes de Salvador. Um amigo teve a gentileza de arrumar fitas de vídeo com dois shows do João Gilberto lá. Um foi gravado ao ar livre, na concha acústica do Teatro Castro Alves. Outro, na reinauguração da referida casa de espetáculos (viu com que elegância evitei a repetição da palavra "teatro"?). O da concha é excelente, inclusive na acústica. Ele canta "Rancho Fundo", em homenagem à mãe do Moacyr, e "Faixa de Cetim". O mesmo amigo também deu uma fita com os melhores momentos da campanha eleitoral que ora agita os soropolitanos. É essa última que copiei e estou lhe enviando. Está indo junto com o berimbau. De nada, de nada.
Um outro amigo me presenteou (não falei que os baianos eram porretas?) com nada menos que dez CDs, acondicionados em dois luxuosos estojos. A série se chama "Grandes Momentos do Parlamento Brasileiro". Só tem discursos. Aquilo que todo mundo supõe pode ser constatado: político brasileiro é ruim paca de tribuna. O mal, acho, é universal: oratória vazia, sem concatenação, sem argumento, inteligência, só o ribombar inútil de palavras ocas.
Há exceções. Duas, na verdade: Carlos Lacerda e Afonso Arinos, este último melhor que o primeiro. Tem uma fala dele no dia 5 de maio de 1954, repudiando o atentado da rua Toneleros. Aquele da batalha alada entre o Anjo Negro e o Corvo. Uma hora lá, o Arinos fala diretamente ao "homem" Getúlio Vargas. Dá-lhe um pau muito bem dado, em termos retóricos. É nesse discurso que se emprega a expressão "estuário de lama", que não se sei como virou "um mar de lama ronda o Catete". Coisas nossas: o Jânio também jamais dissse "forças ocultas", quando da sua renúncia. Falou, isso sim, em "forças terríveis", que também não explica nada, mas que foi a que entrou para a História.
Ainda na Bahia, fui ver um comício em Valença. Procure no mapa. É depois de Itaparica. Perto de Morro de São Paulo. Qual não foi minha supresa ao encontrar na cidade uma rua chamada Assel Navi.
Avivo sua memória: Navi é aquele turco que ficou amigo de Byron em Bruxelas, por volta de 1817. Foi ele quem deu de presente ao bardo coxo o exemplar de "Novelle Galanti", de Giovanni Batista Casti, livro que, conforme alguns biógrafos, inspirou o vate nadador a compor sua obra prima, "Don Juan". Pois bem: pouco depois, por motivos nunca esclarecidos, Navi veio para o Brasil e se estabeleceu em Valença. Tomou parte na guerra da Independência, que só existiu para valer na Bahia. Navi morreu, vítima da sanha das tropas lusas.
De certa forma, o destina de Assel Nevi antecipou o do próprio Byron, que também morreu numa guerra de independência num país que não era o seu, a Grécia, que por sinal tentava se libertar do jugo da Turquia, país natal de Navi. É possível especular que a engajamento do turco tenha inspirado o independentismo byroniano. É certo que ambos trocaram vcartas, quando navi estava no Brasil. Lamentavelmente, as cartas se perderam.
É simpático que os baianos tenham homenageado Navi com uma rua. Mas é pouco: Byron é considerado herói nacional grego até hoje.
Com ou sem homenagem, porém, resta o triste fato que ninguém mais lê Byron hoje. Talvez apenas o antologizável "She walks in beauty". Mas nunca, creio, o "Don Juan". Isso no brasil, onde Byron foi bastante conhecido pelos românticos.
E aí, alguém lê Byron? Esses caminhoneiros em greve não matam o tempo declamando "Don Juan"?
Yours,
MS
--------------- Mensagem Original ---------------
De:Ivan Lessa
Para: Mario Sergio
Data: Quinta-feira, 14 de setembro de 2000
Assunto: Budun, dendê e miséria
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