A correspondência é renovada aos domingos, terças e quintas
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Mario Sergio
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São Paulo
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Ivan Lessa
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10/12/2000
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Nas asas da fama
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Lessinha,
quando você estiver lendo essa missiva, muito provavelmente estarei no meio da Lagoa da Conceição. O tiro de largada da travessia é às 9 da matina deste domingo, horário em que você costuma estar terminando seu lauto café da manhã e, cachimbo nos lábios, se erquer em direção ao escritório para, no seu resplandescente robe de chambre vermelho, checar a correspondência internáutica.
Já posso até me imaginar. Subindo no pódio. Enrolado na bandeira paulista das treze listas, dedicando a vitória, como o Kuerten, para minha mãe. Cantando o Hino Nacional. Dando entrevistas para a imprensa falada, escrita e televisada, nacional e estrangeira. O desembarque no aeroporto de Congonhas, repleto de faixas me saudando. O tapete vermelho desenrolado a meus pés. Moças bonita me disputando o autógrafo. O desfile em carro de bombeiros pela 23 de Maio. O prefeito dando-me um fusca de presente.
Mais. A Ordem do Rio Branco pespegada pelo presidente no meu peito estufado. O cardinalado oferecido por João Paulo II. O convite de Hollywood para fazer o Tarzan numa refilmagem dirigida por Steven Spielberg. Sharon Stone fará o papel de Jane. (Quer uma ponta como vilão?) Recebendo o Oscar de melhor ator e, no encerramento do discurso de agradecimento, mandando uma banana para nossos compatriotas brasileiros.
Ainda mais. A candidatatura vitoriosa a presidente da ONU. O Nobel da Paz. O Nobel de Literatura, aquinhoado a nós dois pela obra missivista em tabelinha. A compra do Paraguai, transformado em minha fazenda particular. A guerra e anexação do Brasil numa reedição da velha Guerra do Paraguai. (Escolha aí qual província você quer governar, com poderes ditatoriais, é óbvio). O florescer de um idioma, o portunhol. O fuzilamento sumário de duplas caipiras, contistas e humoristas mineiros, atores e atrizes de televisão, vanguardistas de teatro, políticos paranaenses e jogadores cariocas. A intervenção americana, no governo de George Bush IV. A surpreendente vitória do Império Paraguaio-Brasileiro, sob a minha liderança despótica e desiluminada, sobre os Estados Unidos. O fuzilamento sumário de contistas da "New Yorker" (tremei, Donald Barthelme!), diretores de musicais da Broadway e Hillary Clinton.
A chuva de mísseis disparada contra a Rússia. A vitória do Império Paraguaio-Brasileiro-Norte-Americano sobre a Federação Russa. As Américas, a Ásia e a Europa a meus pés. O fuzilamento sumário de filósofos desconstrucionistas franceses, da família real inglesa, da cúria vaticana, de motoristas de táxi gregos. A decretação do parmêra como campeão perpétuo. A fama. A glória. O poder.
Hoje a Lagoa da Conceição, amanhã o mundo!
No último treinamento, fiz os 2km em 44m50. O André, em 44m10. Meus irmãos dizem que estão fazendo em 43m. Mal sabem eles que eu estava escondendo o jogo. Nadei devagarinho, e deixei eles na ilusão que vão me vencer fácil. Assim, na hora H das apostas, como na sinuca, poderei depená-los com tranqulidadade.
Depois te conto tudo.
Torça pelo seu correspondente.
Mario Sergio
--------------- Mensagem Original ---------------
De: Ivan Lessa
Para: Mario Sergio
Data: Quinta-feira, 07 de Dezembro de 2000
Assunto: Escravo de minhas obsessões
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