Best Cars Web Site
O que atrapalha é a morosidade


Vovô tinha razão: o trânsito se complica quando a velocidade é insuficiente

Texto: Roberto Chaves

Eu tinha 14 anos quando meu avô materno, que pouco dirigiu em sua vida, dizia: "O que atrapalha o trânsito é a morosidade". Isso por volta de 1956, quando a indústria automobilística engatinhava, a frota brasileira não devia ter mais que dois milhões de veículos e o trânsito urbano estava longe de ser o que é hoje. Uma olhada mais atenta no que acontece nos nossos dias mostra que vovô estava certo.

Ele dizia, e dou-lhe razão, que um veículo em velocidade abaixo da adequada é como um cano d'água parcialmente entupido: o líquido não é conduzido como deve e o sistema hidráulico como um todo perde desempenho. Transpondo o conceito para as ruas, o tráfego deixa de fluir como esperado e a sensação de vias saturadas acaba se tornando fato.

As vias marginais de São Paulo são bom exemplo disso. De Santo Amaro até o primeiro pedágio na Dutra ou na Ayrton Senna não há um semáforo sequer. Teoricamente, o tráfego não poderia parar em toda a sua extensão, mas pára.

Ele não advogava, nem eu, velocidade excessiva, incompatível com a segurança e com o convívio harmônico do homem com a máquina. O que se preceitua é uma postura dos motoristas de que são todos parte de um sistema, e que este não pode ser perturbado sob pretexto algum. Velocidade insuficiente é uma das maiores causas de perturbação.

Quando foi adotado nos Estados Unidos o limite nacional de velocidade de 88 km/h para economizar combustível, em razão do embargo de petróleo dos países da Opep em 1973, era inconcebível para o americano trafegar em velocidade tão baixa nas auto-estradas. Era comum a coluna andar a 100 ou 110 km/h. Mas havia aqueles que obedeciam cegamente ao limite, e o resultado era perturbação do tráfego naquele ponto da rodovia, não raro provocando acidentes.

Acontecia, então, que os policiais rodoviários emparelhavam com o carro que estava dentro do limite e, com gritos e gestos com o braço, diziam "Go!" (acelere) para o obediente motorista, que apertava o acelerador.

Indo para o outro extremo, os das corridas de automóveis, se um piloto de Fórmula 1 tiver obtido tempo de classificação para a largada 7% maior que a média dos três primeiros, não poderá participar da prova. Para ilustrar, se essa média for 1 min 30 seg, o tempo de 1 min 36,1 seg deixa o piloto fora da corrida. Essa regra existe justamente para que os demais não venham a encontrar um carro lento à frente, que perturbe o andamento da competição ou possa vir a ser a causa de um acidente.

Esses dois casos evidenciam com clareza como a velocidade insuficiente atrapalha. É por esse motivo que todos os códigos de trânsito estabelecem a velocidade mínima como metade da máxima e, em certas cidades, como em Buenos Aires, esse limite inferior é ainda mais elevado. Por exemplo, se o limite é 80 km/h, é proibido trafegar abaixo de 60 km/h.

Toda essa questão tem a ver menos com habilidade e mais com educação do motorista. Os americanos dizem que um bom trânsito é resultado dos "Três E" -- Education (educação), Engineering (engenharia) e Enforcement (fiscalização). A educação constitui um dos tripés de bons resultados do sistema de trânsito como um todo.

É a educação, que necessariamente terá sido recebida de alguém -- pai, mãe, professor, instrutor de auto-escola, autoridades --, que vai determinar o comportamento do indivíduo no meio em que vive. Talvez não exista oportunidade maior para alguém expressar sua educação do que no trânsito.

É comum ver-se uma pessoa estacionar, nos supermercados e lojas, fora da vaga demarcada, ocupando duas. Nas ruas, ao deixar o carro estacionado ao longo da guia da calçada, poucos calculam o próprio espaço ocupado e utilizam mais do que o carro precisa, prejudicando alguém -- trata-se de um colega motorista, afinal. Dia desses vi uma senhora, de aparente bom nível social, fazer isso e quando alertei-a que ela poderia recuar e deixar vaga para mais um carro, tive a resposta: "Cansei de ser boazinha".

Isso sem contar a freqüente chamada nos shoppings, "Atenção, proprietário do carro placas...", para que o dono retire o carro de uma posição irregular onde certamente está atrapalhando outros motoristas. Questão de educação.

Como também é falta de educação, combinada com falta de percepção, alguém não se dar conta de que está trafegando em velocidade insuficiente, prejudicando o trânsito e incomodando os demais, gerando tensão e atritos desnecessários.

É tão importante a noção de não atrapalhar que, nos Estados Unidos, quando o câmbio do veículo é manual, o motorista é obrigado a aguardar o sinal verde com a primeira marcha engatada, só para que ele não retenha o tráfego à retaguarda naqueles 1 ou 2 segundos entre luz verde e veículo começar a se mover.

A morosidade dos caminhões contribui da maneira marcante para os congestionamentos urbanos e rodoviários. Não que caminhão tenha de andar à velocidade dos automóveis, mas a verdade é que são lentos demais. A prática brasileira de "trucar" caminhão -- instalar um terceiro eixo para aumentar a capacidade de carga sem exceder o peso máximo por eixo -- é uma das responsáveis pela sua lerdeza. Um caminhão para 12 toneladas de peso bruto total de repente passa a 18 t -- onde estão o motor e principalmente freios para isso?

Cabe a cada um de nós contribuir para o trânsito melhor, e não apenas às autoridades. A conscientização não é uma utopia. Veja-se o caso de Brasília, onde em dois anos o comportamento do motorista diante da faixa para pedestres igualou-se ao dos países de vanguarda: pedestre tem preferência e ponto final.

Assim, vamos nos conscientizar todos de que morosidade prejudica. Converse a respeito com familiares, amigos, colegas de trabalho. Pouco a pouco grande parte do nó de tráfego acabará desfeita e todos verão que vovô tinha razão.


Segurança & Serviço - Página principal - e-mail

© Copyright 2000 - Best Cars Web Site - Todos os direitos reservados