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O Brasil está parando

Transporte com caminhões e abandono da rede
ferroviária causam congestionamentos e acidentes

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto Pandini"Sem caminhão o Brasil pára", dizia um adesivo distribuído aos milhares no começo dos anos 90. É verdade: a greve dos caminhoneiros realizada no ano passado mostrou isso. Também é verdade que, com caminhões, as estradas e ruas também param. Observe os congestionamentos em estradas e grandes vias, como as marginais dos rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo, e veja quanto espaço é tomado pelos caminhões.

O poderio dos caminhoneiros se deve a anos de ausência de planejamento de uma política de transportes séria no Brasil. Desde que Juscelino Kubitschek implantou a indústria automobilística nacional (de nacional, mesmo, ela tem muito pouco, mas esta é outra história), os governos abriram muitas rodovias e investiram pouquíssimo em transporte ferroviário e fluvial. Esta postura também foi adotada pelos municípios, e o resultado global disso é o caos no transporte de passageiros e de carga. As ferrovias praticamente desapareceram (você conhece alguém que tenha viajado de trem ultimamente?), nosso imenso potencial em transporte fluvial é minimamente explorado e as passagens aéreas domésticas estão entre as mais caras do mundo.

Nas grandes cidades, o trânsito caótico se deve a fatores que vão da falta de planejamento urbano à precariedade do transporte público. Em São Paulo, por exemplo, existem inúmeros edifícios comerciais novos, com mais de 20 andares, erguidos em antigas (e estreitas) ruas residenciais. Muitas vezes, eles não têm estacionamentos para receber os visitantes -- às vezes, nem mesmo aos que trabalham neles. Resultado: motoristas circulando à procura de vagas, contribuindo ainda mais para congestionar as ruas. Não bastasse isso, o transporte público é um caos, pois os ônibus são insuficientes para cobrir as necessidades da população (os perueiros, que tantos problemas vêm gerando, surgiram nesse vácuo) e o metrô ainda tem menos de 200 km de trilhos. Pode-se até dizer que o transporte público da cidade de São Paulo andou para trás em relação aos anos 60, pois havia 600 km de linhas de bonde que foram literalmente jogados no lixo em nome da "modernidade".

Parece óbvio, então, que uma das maneiras de melhorar o trânsito caótico nas ruas e estradas é investir mais na nossa esquecida malha ferroviária. Só para ilustrar, conto o que vi na Argentina, em abril de 1995. Havia viajado àquele país para cobrir o GP de Fórmula 1, e aproveitei para conhecer o museu de Juan Manuel Fangio em sua terra natal, Balcarce. Esta cidade fica a uns 400 km de Buenos Aires e a viagem é feita pela Ruta 2 (Buenos Aires-Mar del Plata), com cerca de 500 km de extensão. Boa parte do percurso seria feita à noite. Quando entrei na estrada, comecei a me preparar para um verdadeiro inferno ao constatar que era uma via de pista simples. Mas a viagem foi surpreendentemente tranqüila: a estrada era ótima, tinha piso perfeito, limite de velocidade de 120 km/h e os poucos caminhões não criavam nenhum problema. Ultrapassá-los era apenas uma questão de oportunidade.

Em dezembro de 1996, voltei à Argentina a passeio e resolvi fazer nova visita ao museu. Peguei novamente a Ruta 2, desta vez durante o dia, e descobri duas coisas: 1) ela havia sido privatizada desde a visita anterior e estava sendo duplicada, sem que houvessem novos pedágios ou que os poucos já existentes tivessem se tornado mais caros; 2) a razão do ótimo trânsito era a existência de uma linha ferroviária paralela, que diminuía em muito a necessidade de uso de caminhões.

Diante disso, pode-se imaginar como seria benéfico um investimento nas linhas ferroviárias para absorver parte do transporte rodoviário. E, antes que alguém se levante para dizer algo do tipo "os caminhoneiros ficarão sem trabalho" e "milhares de empresas de transporte irão à falência", lembro que a mão-de-obra pode tranqüilamente ser absorvida por um sistema ferroviário devidamente desenvolvido, que poderia inclusive ser um novo segmento empresarial em nosso país.

Como se vê, diminuir o problema do trânsito em nossas ruas e estradas é ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil porque as soluções estão aí, prontas para serem aplicadas pelos poderes públicos, desde que seja feito um planejamento global e que haja um mínimo de vontade política. Difícil porque infelizmente não se pode esperar dos políticos que haja essa vontade e que as verbas sejam aplicadas corretamente. Além do mais, tais soluções não rendem necessariamente votos e seus efeitos não aparecem em um ou dois mandatos. Mas em algum momento é preciso começar a colocar ordem na casa. O ideal seria que esse momento fosse já.


P.S. - A propósito do artigo anterior, recebi do amigo Bob Sharp uma notícia do jornal "O Globo", dando conta de mais uma morte estúpida em um acidente causado por um caminhão. Um rapaz de 28 anos consertava um Fusca no quintal de sua casa quando foi atropelado por um caminhão carregado de granito que circulava pela rodovia Niterói-Manilha. O caminhão desgovernado atingiu três casas na beira da estrada, e numa delas estava esse rapaz.

P.S. 2 - Dias depois, ouvi na Rádio Bandeirantes uma reportagem na qual um motorista de caminhão admitia tranqüilamente que dirige após beber cerveja. "Tenho 20 anos de estrada", "estou acostumado" e "nunca me aconteceu nada" foram algumas das frases ditas por ele, candidamente. É, em boa parte, nas mãos desse tipo de gente que está entregue o transporte de carga no Brasil.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com