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Encurralados

Caminhões velhos e condutores irresponsáveis
põem em risco a vida dos motoristas de automóveis

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniReassisti outro dia, depois de muitos anos, ao filme "Encurralado". Para quem não sabe ou não lembra, "Encurralado" é de 1972 e foi o primeiro grande sucesso de Steven Spielberg. Conta a história de um motorista que viaja a negócios, tranqüilamente, dirigindo um Plymouth Valiant vermelho. A certa altura, ele começa a ser perseguido por um alucinado motorista de caminhão que faz de tudo para assustá-lo e, se possível, matá-lo (se alguém quiser ver o filme, vale a pena procurá-lo nas locadoras ou na programação das TVs por assinatura).

Ao filmar "Encurralado", Spielberg nunca poderia imaginar que há pelo menos um país onde milhares de motoristas vivem a cada minuto um terror parecido com o do pobre viajante de "Encurralado". A diferença é que, no Brasil, a irresponsabilidade, falta de preparo e/ou carga de trabalho elevada de milhares de motoristas de caminhão não rende um roteiro para um ótimo filme de suspense, mas uma triste seqüência de acidentes com mortos e feridos. As conseqüências de tudo isso chegaram ao limite com o ocorrido no pedágio da rodovia Anhanguera, em Limeira, no interior de São Paulo.

Ali, na noite de 11 de fevereiro, um assassino travestido de caminhoneiro abalroou em alta velocidade um Fiat Marea ocupado por uma família, arrastando o carro por mais de 200 metros. Morreram três ocupantes do Marea (um casal e sua filha mais nova, de sete anos) e um quarto (o filho mais velho, de 12 anos) ficou ferido em estado grave. O motorista fugiu, mas foi encontrado e preso pouco depois. Ele havia passado em uma "festa" antes de seguir viagem, e nela gastou o dinheiro que seu patrão lhe dera para as despesas. Ao ver o pedágio à sua frente, não teve dúvidas: apagou as luzes de seu caminhão e acelerou fundo para não pagar.

Este acidente (cuja estupidez dispensa comentários) foi o mais notório dos últimos tempos, devido ao motivo torpe e às proporções da tragédia. Dias depois, uma carreta com 27 toneladas de cal passou por cima de seis veículos em Belo Horizonte. Não houve mortes, mas sete pessoas ficaram feridas, uma delas em estado grave. Basta ler jornais e ouvir rádio para constatar que todos os dias há um acidente de grandes proporções envolvendo pelo menos um caminhão (muitas vezes, são dois ou três). Além das conseqüências físicas e materiais, esses acidentes causam interrupção de vias, congestionamentos e, conseqüentemente, prejuízos enormes para a sociedade.

Todos estes acidentes têm causas bastante precisas. Descontando a irresponsabilidade total de motoristas como o causador do acidente de Limeira (afinal, a grande maioria dos motoristas de automóveis também não se comporta de maneira exemplar no trânsito), chegamos a um fator já citado no começo deste artigo: a carga horária. A maioria dos motoristas de caminhão trabalha como autônomo e ganha por viagem completada. Em outras palavras, quanto mais viagens fizer, mais ele ganhará. Para conseguir isso, ele tenta completar suas viagens no menor tempo possível -- ou seja, correndo o máximo que puder. Não bastasse a alta velocidade e a direção perigosa, muitos motoristas lançam mão de "bolinhas" e outras drogas, a fim de ganhar tempo varando noites e noites na estrada. É claro, os reflexos são prejudicados, a acuidade visual também, a atenção se dispersa... e aí acontecem os acidentes.

Sabendo que o tamanho de seu veículo lhe garante maior proteção em caso de acidente com um veículo menor, muitos caminhoneiros abusam e abrem caminho à força, muitas vezes desrespeitando as mais elementares normas de segurança. Aqui, a única solução seria multá-los em valores altíssimos. Durante a famosa greve de 1999, os caminhoneiros pleitearam maior tolerância com infrações, inclusive com aumento de 20 para 30 pontos para perda do direito de dirigir, alegando que passam mais tempo ao volante e, conseqüentemente, são mais sujeitos a desrespeitar as leis de trânsito. Felizmente, isso não aconteceu. Do contrário, estaria sendo dada licença para que fossem cometidas as maiores barbaridades. Além do mais, a experiência e o número de horas passadas ao volante deveria dar aos motoristas profissionais mais habilidade e responsabilidade.

Finalmente, chega-se ao problema das máquinas: a maioria dos caminhões que rodam pelo Brasil tem entre 10 e 15 anos de fabricação. Não é raro cruzar ainda com modelos da década de 60, como os "cara-chata" (da Mercedes-Benz) e os "fenemês" (da antiga FNM, Fábrica Nacional de Motores). Há uns quatro anos, uma inspeção independente constatou que cerca de 80% dos caminhões examinados tinham problemas mecânicos de alguma ordem, inclusive de freio. Tal inspeção não foi feita por entidade governamental, e os governos estaduais e federal realmente não se abalaram com tal informação. Em países minimamente sérios, qualquer indício nesta direção seria motivo de uma mobilização governamental para diminuir o perigo representado por caminhões defeituosos.

Devido à idade média da frota, o salto tecnológico é tremendamente alto quando o caminhoneiro dirige um caminhão novo, próprio ou de alguma empresa que o tenha contratado. E isso também é um fator de perigo. No começo da década, muitos motoristas de carros importados se acidentaram por fatores que iam da imprudência total e da irrestrita confiança em sistemas de segurança até então desconhecidos (controles de tração, bolsas infláveis, freios antitravamento ABS) à simples falta de hábito de dirigir carros velozes e silenciosos, que parecem andar em velocidade muito inferior à real. Algo parecido acontece hoje com os motoristas que saem diretamente de um caminhão de 1978 ou 1986 para um de 1999.

Além de uma completa reeducação dos motoristas, dando-lhes mais responsabilidade e condições melhores de trabalho, seria necessário viabilizar alternativas ao transporte rodoviário. Mas este é assunto para o próximo artigo --
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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com