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A verdade sobre Barrichello

"Não pilota nada", "A Ferrari quer ferrá-lo"... Por que
essas opiniões sobre Rubinho não têm consistência

por Luiz Alberto Pandini

Desta vez peço licença aos amigos leitores e leitoras para fugir um pouco dos assuntos habituais da coluna. Motivo: desde o domingo 13 de maio, data do GP da Áustria de Fórmula 1, amigos e familiares me perguntaram o que eu achava de Rubens Barrichello ter que ceder o segundo lugar para seu companheiro na Ferrari, Michael Schumacher. Como Barrichello tem sido um tema dominante nas conversas sobre F1, resolvi "meter minha colher" nesse assunto.

Esclareço: acompanho atentamente automobilismo e motociclismo desde 1978. Passei os primeiros oito anos de minha carreira jornalística cobrindo diretamente esses assuntos. Entre 1991 e 1995, cobri alguns GPs de F1 no Brasil e no exterior. Tive contatos profissionais com Barrichello, mas não o vejo pessoalmente desde 1995.

Volta e meia ouço alguém falar algo como "esse Rubinho não guia nada, mesmo...". Outros falam coisas como "a Ferrari só ferra com o Rubinho...". Discordo de ambas as afirmações. Acho Barrichello tão bom quanto quase todos os outros pilotos que estão hoje na Fórmula 1 -- com exceção óbvia do alemão Michael Schumacher. Se não fosse, a Ferrari simplesmente não o teria contratado -- e, se ele não correspondesse às expectativas da equipe, teria sido demitido antes mesmo do final de seu contrato, como já aconteceu antes com outros pilotos. Quanto à equipe italiana querer "ferrar" (sem trocadilhos) o brasileiro, peço para que analisem com frieza: alguma equipe contrata um piloto por US$ 5 milhões anuais apenas para "ferrá-lo"? 

Barrichello tem dois problemas básicos. Um é o fato de ser brasileiro e ter chegado à Fórmula 1 depois de um trio formado por Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. Esses três pilotos conseguiram em um tempo relativamente curto (19 anos) nada menos que oito títulos mundiais. Isso fez com que o público e a mídia brasileira, muito acostumados com o futebol e menos familiarizados aos esportes motorizados, ficassem com a impressão de que é muito fácil chegar à Fórmula 1, ganhar corridas e títulos mundiais. 

Evidentemente, não é assim -- tanto que nenhum país, mesmo os do chamado Primeiro Mundo, com muito mais tradição, força política e condições financeiras, logrou conseguir algo parecido na categoria. A Alemanha, por exemplo, demorou quase 50 anos desde o primeiro campeonato mundial, disputado em 1950, para ter um campeão mundial. Com a Itália, terra da Ferrari, aconteceu o contrário -- conquistou três dos quatro primeiros campeonatos da história e... mais nada.

A Inglaterra, país-sede da maioria das equipes, teve vários campeões mundiais espalhados pelas cinco décadas de história do campeonato -- mas nenhum desses pilotos é colocado entre os três melhores da história. A França, por sua vez, teve a partir dos anos 60 projetos detalhados de preparação de jovens talentos para chegar à F1. Muitos deles venceram uma, duas, dez corridas. Mas apenas um, Alain Prost, conquistou o título mundial -- é até hoje o único francês a ostentar tal honra. 

E o Brasil? Bem, o Brasil teve Emerson, Piquet e Senna, pilotos dotados de um talento excepcional e de um brilho absolutamente incomum. Venceram por isso e porque batalharam muito, sacrificando tremendamente seus anos de juventude. 

Se Barrichello fosse o primeiro brasileiro a chegar à F1 e vencer, seria talvez um herói nacional. Como não é o caso, ele padece com a comparação com os feitos de seus antecessores. (Só para ilustrar: o colombiano Juan Pablo Montoya, nova fera da F1 e primeiro piloto de seu país a se destacar na categoria, já tem até um personagem de novela inspirado nele).

Esse é o primeiro problema de Barrichello. O segundo é culpa dele mesmo e das pessoas que orientam e assessoram sua carreira (ou o fizeram no passado). Quando Ayrton Senna morreu, em 1994, Barrichello abraçou a causa de ser o sucessor do ídolo falecido. Com isso, diminuiu logo de saída a grandeza de qualquer feito que alcançasse no futuro. 

Lembro-me bem da pré-temporada de 1995. Rubinho, então piloto da Jordan, declarava ter expectativa de vencer naquele ano sua primeira corrida. No GP do Brasil (o primeiro da temporada e o primeiro a ser disputado no País depois da morte de Senna), adaptou ao lay-out de seu capacete a pintura característica que Senna usava. Só que Barrichello teve azar e foi mal em todos os treinos e na corrida.

Pressionado por todos e principalmente pela missão auto-imposta (e declarada aos quatro ventos) de suceder Senna, transformou-se a partir daí em motivo nacional de chacota -- condição da qual ainda não conseguiu se livrar, basicamente por causa de um acúmulo de atitudes imaturas, declarações infelizes e criação de expectativas que nunca se concretizaram. 

O duro é que Barrichello insiste em vestir-se de "representante" de uma pátria cujo povo não tem complacência sequer com ídolos nacionais em momentos de tristeza e dor (não digo isso à toa: quem estava na fila do velório de Ayrton Senna teve oportunidade de ouvir ali mesmo várias piadas relativas ao assunto). Este ano, ele repetiu a dose: fez, especialmente para o GP do Brasil, um capacete com as cores da bandeira nacional e criou em todos uma enorme expectativa de vitória. O fiasco que veio a seguir ainda está fresco em nossa memória e serviu para alimentar ainda mais a imaginação (e a crueldade...) dos piadistas.

Finalmente, é preciso compreender que Barrichello, embora seja um ótimo piloto, não é um gênio como Senna ou Schumacher. Foi contratado pela Ferrari para ser o segundo piloto de Schumacher e não para desafiá-lo. Isso, ao contrário do que pode parecer, não é um demérito. Outros pilotos -- como o austríaco Gerhard Berger, companheiro de Ayrton Senna na McLaren -- aceitaram isso e jamais perderam a compostura e o respeito por parte de seus pares. 

Se Barrichello admitisse logo e de maneira madura seu papel na equipe, o público brasileiro também o teria feito -- e muitos incidentes desagradáveis teriam sido evitados. Mas, como diz o ditado, "a experiência é um belo pente que a vida nos dá quando não temos mais cabelos"...

P.S.: Em um dos últimos editoriais, o editor do site, Fabrício Samaha, revelou a inexistência de planos de lançar uma versão impressa do conteúdo do site. Concordo com tudo o que ele escreveu a respeito, inclusive os prós e contras das edições impressas e eletrônicas. Mas não deixo de pensar no quanto uma "revista Best Cars" enriqueceria o hoje esmaecido mercado das publicações especializadas em automóveis.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com