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Querer não basta

Gurgel BR-800

Quem quiser repetir a trajetória de João Gurgel terá de
convencer pessimistas e interesseiros de plantão

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniO artigo sobre a trajetória da Gurgel (leia), publicado há poucas semanas no Best Cars Web Site, agradou a muita gente pelo nível de detalhamento e pelo interesse legítimo em saber quais as circunstâncias que levaram à falência um empresário tão criativo e dinâmico como Gurgel. É uma página recente de nossa história automobilística, mas que já estava empoeirando nas prateleiras.

Numa das próximas edições, o BCWS trará uma suíte (jargão jornalístico para as reportagens que surgem como continuação de outras) a respeito da Gurgel. Colaboradores do site obtiveram histórias e curiosidades sobre a marca. Eu não fui exceção e fiz questão de dar minha contribuição. Como se pode ver, para mim foi uma grande satisfação ter conhecido pessoalmente João Gurgel.

Minha coluna desta edição foi motivada pelo artigo em primeira pessoa que o colaborador Bob Sharp assinou na reportagem sobre a Gurgel. Bob destacou, entre outros pontos importantes, que a empresa conseguiu o mais difícil para uma fábrica de automóveis: produzir seu próprio motor. Depois, fez uma pergunta: por que o Brasil não possui uma indústria automobilística com empresas e marcas nacionais, se países com pouca expressão ou tradição automobilística (Malásia e Coréia do Sul, por exemplo) o conseguem?

Bob termina seu artigo com uma série de argumentos que deixam claro haver, sim, condições tecnológicas e grupos empresariais e industriais com o porte necessário para que exista no Brasil um fabricante de automóveis genuinamente nacional, com plenas condições de fazer sucesso em qualquer mercado -- exatamente como a Gurgel esteve tão perto de ser. "Querer é o que basta", finalizou Bob.

É neste último ponto que fico em dúvida. Isso porque, por ingenuidade ou por motivos inconfessáveis, setores poderosos da sociedade brasileira sempre trabalharam cuidadosamente para disseminar a idéia de que nacionalismo só é bom quando se trata de torcer para esportistas ou para mostrar o carnaval e as praias para os turistas.

Quando se trata de defender os interesses políticos, econômicos e sociais do país, tudo isso desaparece: o nacionalismo vira um sentimento anacrônico, típico de regimes políticos ditatoriais ou de práticas econômicas obsoletas. Embora não falte quem tente nos convencer do contrário, ser nacionalista não é sinônimo de ser xenófobo nem de defender mercados fechados.

A Embraer, citada pelo Bob e hoje um fabricante de aviões respeitado no mundo, foi considerada uma "loucura" quando de sua criação. Dizia-se simplesmente que o País não tinha capacidade para produzir aviões -- e pronto. Se o governo decidisse criá-la hoje (lembrem-se que ela nasceu estatal, ainda durante a ditadura militar, e só recentemente foi privatizada), haveria algo parecido, mas com palavras mais bonitas.

Leríamos ou ouviríamos frases do tipo "fabricar aviões no Brasil, em plena globalização, é andar na contramão das tendências econômicas", "o Brasil jamais terá condições de brigar de igual para igual nesse mercado" e semelhantes. Outros colocariam em dúvida a validade do empreendimento.

Com os automóveis, aconteceria algo semelhante -- e com uma agravante: se um grupo privado pedisse incentivos fiscais (os mesmos que alguns estados concederam de maneira escandalosa a fabricantes de outros países), haveria imediatamente acusações de favorecimento ilícito.

Temos todas as condições de construir nossos próprios carros, sem dúvida. Mas, ao contrário de Bob, acho que querer não basta. Quem quiser precisará também lutar bravamente para vencer os pessimistas e interesseiros de plantão, antes de poder fabricar seus automóveis e concorrer em pé de igualdade com as indústrias já instaladas.

Alguém se habilita?


P.S. 1 - Ótima a história da alemã Jutta Kleinshmidt, que em janeiro se tornou a primeira mulher a vencer o difícil Rali Paris-Dakar. Dizem que seu namoro com outro participante assíduo da prova, o francês Jean-Louis Schlesser (vencedor em 1999 e 2000), terminou quando Schlesser descobriu que Jutta teria um carro à altura do seu e que poderia ser uma concorrente à vitória...

P.S. 2 - Alguns leitores têm enviado mensagens com elogios, críticas e comentários a respeito dos assuntos abordados pela coluna. Agradeço a todos e peço desculpas àqueles que eventualmente não tenham recebido resposta.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com