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A ponte que partiu

Calçamento, vias e pontes sem conservação:
desconforto aos motoristas, danos aos automóveis

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniAno novo, milênio novo e... assunto velho. Juro que gostaria de escrever sobre coisas novas neste primeiro Pára-brisa de 2001, mas as circunstâncias não deixam. A virada de milênio aconteceu outro dia e as mudanças não ocorrem assim tão rápido... 

Não é nenhuma novidade que grande parte das ruas e estradas de todo o País está em péssimo estado. Mas o que está acontecendo em São Paulo é cada vez mais preocupante. Nos últimos dias de novembro, um acidente com um caminhão (sempre eles) e um ônibus bloqueou a entrada para a cidade pela Via Dutra. O trânsito foi então desviado para um viaduto, o Aricanduva, que não resistiu ao tráfego pesado e começou a afundar.

Quando o desnível chegou a quase 30 cm, este viaduto também foi interditado, com previsão de ficar sem uso por pelo menos 90 dias, até que o problema seja sanado. Sem o viaduto, o tráfego da região ficou caótico durante um dia ou dois, até que os motoristas descobriram caminhos alternativos e tudo voltou a uma aparente normalidade.

Mesmo um leigo pode, com uma olhada rápida, constatar o abandono em que estão as ruas, viadutos e pontes existentes em São Paulo. O famoso "Minhocão" (um monstrengo arquitetônico e aberração de engenharia, erguido há 30 anos e maior responsável pela degradação de uma parte do centro histórico de São Paulo) tem forros caindo e infiltrações em diversos pontos. Mas tudo o que foi feito nele nos últimos anos foi uma pintura "artística" nas laterais, de maneira a minimizar o impacto negativo na paisagem urbana...

Outro viaduto, o Antactica, está há meses com uma de suas pistas interditada. O asfalto foi quebrado em toda sua extensão para alguma obra qualquer, mas há um bom tempo não existe qualquer sinal de gente trabalhando ali -- e o que se vê é o tráfego do viaduto sendo espremido na pista que restou.

Nas marginais dos rios Tietê e Pinheiros, quase todas as pontes estão há anos sem uma manutenção verdadeira -- no máximo, uma nova camada de tinta e olhe lá. Honrosas exceções: a Ponte dos Remédios (isso porque uma rachadura gigante provocou sua interdição para reparos em 1997) e a Ponte do Limão (também afetada por falhas estruturais graves, foi reparada na mesma época por causa do medo gerado pelo caso da Ponte dos Remédios).

Outro motivo que faz as pontes de São Paulo serem alvo de atenção constante é de ordem puramente social. Abaixo de algumas delas, formam-se verdadeiras favelas. Não são raros casos de incêndios que destroem os barracos e abalam as estruturas das pontes e viadutos, exigindo interdição para reparos. Em outras, pessoas carentes cavam buracos para morar dentro da estrutura das pontes. A longo prazo, pode causar uma verdadeira tragédia.

Não pára por aí. O calçamento das ruas e avenidas da cidade está simplesmente lamentável, cheio de buracos e desníveis causados pela omissão ou por reparos feitos mal e porcamente. Transformar as ruas de São Paulo em "tapetes cinzentos", com asfalto liso (ou paralelepípedos nivelados, quando for o caso) será uma tarefa dificílima e que certamente demandará certo tempo para ser completada -- e provavelmente isso seria conseguido com o uso de um calçamento de melhor qualidade.

Mas compensará em todos os sentidos: diminuirá o desgaste dos veículos e contribuirá enormemente para o bem-estar de todos. Imagine que maravilha: você sai de casa para o trabalho e pode dirigir sem se preocupar em desviar de buracos, sem sofrer uma infinidade de solavancos e com um certo conforto. Bom demais, não é?

Ter ruas em bom estado pode não parecer tão importante, mas é. Dou um exemplo prático. Os primeiros seis meses de 2000 foram também os últimos de gravidez de minha mulher. Qualquer buraco, por menor que fosse, causava a ela um grande mal-estar. Por azar, meu carro naquela época era um Fiat Strada -- para quem não sabe, picapes possuem uma suspensão mais dura que a dos carros de passeio. Foi nessa época que percebemos de verdade a buraqueira indecente das ruas de São Paulo. Muitas outras mulheres (e homens também, mas obviamente por motivos diferentes) devem passar por incômodos parecidos.

A julgar pelos planos já divulgados, a nova prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, tomou posse plenamente consciente de todos os desafios e limitações que terá para administrar a cidade. Uma de suas primeiras providências será deixar São Paulo com uma "cara" mais agradável. Isso seria obtido com medidas simples, como limpar e recolher o lixo, eliminar a poluição visual, limpar edifícios e monumentos pichados.

Fica à prefeita eleita uma sugestão relativamente simples de ser executada: cuidar do calçamento da cidade, deixando as ruas e avenidas menos esburacadas. A população agradecerá profundamente.


P.S.:
Meu amigo Bob Sharp, uma das pessoas que mais conhecem o assunto "automóvel" no Brasil, escreveu no Best Cars Web Site um artigo com ponto de vista contrário ao meu sobre falar ao celular durante o ato de dirigir. Agradeço ao Bob pelas palavras elogiosas que me fez e convido o leitor a ler ambos os artigos, a fim de tirar suas próprias conclusões: Bob Sharp - Luiz Alberto Pandini

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com