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A simplicidade através
dos tempos

Celta é criticado por não oferecer itens que sequer
modelos de luxo há 20 anos, como o Landau, possuíam

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniOs carros simples de hoje possuem itens de conforto e comodidade sequer encontrados nos modelos luxuosos de vinte anos atrás. Mas isso tem um preço -- e ele é alto.

O assunto automobilístico dos últimos dias foi o lançamento do Celta. Este projeto, guardado em segredo durante anos, acabou criando na maioria dos jornalistas especializados a expectativa por um carro revolucionário, inovador e -- pelas notícias divulgadas pela própria General Motors --, melhor ainda, muito barato. Ao ser apresentado, entretanto, os jornalistas se viram diante de um carro com desenho e mecânica atuais, mas sem inovações. Estas ficaram mais para o processo de fabricação do que para o produto em si. E o preço, R$ 13.390, ficou bem acima do que muitos esperavam.

O que chamou a atenção de todos, entretanto, foi que o Celta não tem, sequer opcionalmente, vários itens que podem ser encontrados hoje em qualquer modelo vendido no Brasil. Os colegas jornalistas, quase todos também surpresos (e muitos francamente decepcionados) pela simplicidade exacerbada do modelo, acabaram evocando em mim algumas lembranças do passado.  E fiquei pensando no quanto certos conceitos mudam com o passar do tempo.

Uma de minhas recordações remonta a 1974, quando meu pai comprou um Chevrolet Opala Especial. Azul escuro, cupê. Na época, o "Especial" era a versão mais simples do Opala. Se não me engano, o pacote de opcionais da unidade comprada se limitava aos bancos dianteiros individuais reclináveis -- na época, bancos reclináveis eram equipamento de luxo em qualquer automóvel -- e o câmbio de quatro marchas com alavanca no assoalho (os Opala básicos tinham banco inteiriço e câmbio de três marchas com alavanca na coluna de direção). Era um carro médio-grande que tinha um nível de acabamento e equipamentos de conforto, no máximo, equivalentes ao Celta.

Tive outra prova da mudança de parâmetros há uns quatro anos. Eu trabalhava em uma revista especializada e sugeri, para a seção de carros clássicos, uma reportagem sobre o Ford Galaxie. Sugestão aceita, entrei em contato com um colecionador e ele gentilmente aceitou ceder seu carro para fotos e um rápido teste. A esta altura, cabe uma explicação. Quando eu era pequeno, o Galaxie (e também suas versões mais luxuosas, LTD e Landau) me fascinava porque era o símbolo máximo de luxo, conforto e até poder (não por acaso, já que era o carro oficial dos presidentes da República e dos ricos de novela, quando estes não possuíam carros importados). Mas pouquíssimas vezes tinha andado em um, e a última vez tinha sido já havia muito tempo. Além de fazer a reportagem, eu ia realizar um daqueles sonhos de infância ao dirigi-lo.

Quando entrei no carro do colecionador, um LTD ano 1976, percebi o quanto os carros nacionais haviam evoluído. Quem disse que ele tinha vidros, travas e espelhos elétricos? O som de fábrica limitava-se a um rádio (sequer possuía toca-fitas!) e o ar-condicionado era um equipamento enorme, acoplado à parte inferior do painel e que ocupava grande espaço. Era muito bem acabado, silencioso e suave de dirigir (era um dos poucos carros nacionais com direção hidráulica), mas não possuía equipamentos que, menos de vinte anos depois, estavam disponíveis até nos modelos mais simples e baratos do mercado.

Equipamentos de conforto e segurança deixaram de ser exclusivos de modelos grandes e caros e passaram a ser disponíveis mesmo para os carros mais populares. Essa foi uma das mudanças conceituais mais favoráveis que o comprador de automóveis teve de alguns anos para cá. O lado ruim é que os carros nacionais, que sempre tiveram preço muito alto, tornaram-se absurdamente caros nos últimos anos.

É duro encarar a realidade e perceber que o carro mais barato do mercado nos Estados Unidos, o Kia Rio (um modelo médio, na faixa do Ford Escort) custa por lá cerca de US$ 8.600 (cerca de R$ 17.000), e que por aqui esse preço mal dá para comprar uma versão intermediária de um carro pequeno com motor de 1.000 cm3. A tecnologia e a modernidade existem e estão aí nas lojas. Mas poucos podem pagar por ela.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com