Best Cars Web Site

Reflexo da sociedade

O trânsito espelha os vícios e defeitos das
autoridades e a falta de cidadania das pessoas

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniDe vez em quando filas servem para alguma coisa. Outro dia, eu estava em uma delas, aguardando minha vez de usar um caixa automático instalado no estacionamento de um shopping center. Era sábado e o lugar estava lotado, com muitos motoristas parados à espera de uma vaga.

Entediado, eu olhava o movimento sem maior interesse. De repente, não sei por que, fixei a visão em um ponto a poucos metros da fila onde eu estava. Um carro qualquer (acho que era um Corolla, mas não posso garantir) ia sair e dar vaga a um casal que ocupava uma Palio Weekend, e o motorista desta acionou a luz de direção para avisar que ia entrar na vaga.

Enquanto os ocupantes do Corolla se preparavam para sair, surgiu, vindo de outra mão de direção, um Palio dirigido por uma mulher. Ela cismou que ia entrar na vaga do Corolla e parou o carro, fingindo ignorar a presença da Palio Weekend que já estava ali. Nisso,  formou-se atrás do Palio uma fila de motoristas, muito justamente enervados por terem aquele estorvo mal-educado atrapalhando a todos. O motorista da Palio Weekend, por sua vez, também ficou mais belicoso para não perder sua vaga duramente conquistada. O motorista do Corolla resolveu o problema da maneira mais justa: saiu pelo lado onde se encontrava o Palio, deixando o caminho livre para a Palio Weekend estacionar.

Esse acontecimento, uma história real, ilustra como nossos motoristas são mal educados, mal preparados e mal intencionados. Outras cenas vistas constantemente no trânsito mostram isso. Alguns dirigem lentamente, em zigue-zague e desatentos, enquanto falam ao celular; outros parecem ter um prazer sádico em não dar passagem a quem deseja mudar de faixa ou entrar em uma rua; há aqueles, normalmente ocupando carros mal conservados, que andam lentamente em uma faixa qualquer e atrapalham quem vem atrás, mas passam em sinais vermelhos sem a menor cerimônia; alguns frustrados, travestidos de motoristas de carros maiores (jipes e picapes, por exemplo), parecem fazer questão de ocupar todos os espaços possíveis e mostrar "quem é que manda" na avenida; e há os francamente idiotas que correm e fazem zigue-zague em avenidas movimentadas, crentes de que estão impressionando às menininhas por sua "habilidade" ao volante.

Muitas vezes essas barbaridades são atribuídas ao fato de o motorista brasileiro não receber a necessária preparação para dirigir. Eu também acreditava nisso até bem pouco tempo atrás, mas hoje acho que o problema é bem mais sério e vem da educação de base, aquela que a pessoa recebe -- ou deveria receber -- em casa e na escola. Quem faz essas coisas ao volante, quase sempre, repete as atitudes no dia-a-dia.

São pessoas que chegam em uma fila longa no cinema, por exemplo, e na maior cara-de-pau pedem ao primeiro ocupante que compre os ingressos para ele e sua turma. Se estiverem em um ônibus, metrô ou trem, não terão a menor preocupação em levantar e dar lugar a idosos, gestantes, mulheres com bebês ou deficientes físicos. No trabalho, devem gritar com seus pobres subordinados, apenas para deixar claro que possuem algum poder e ao mesmo tempo camuflar a própria incompetência e insatisfação consigo próprios. Enfim, são pessoas sem qualquer noção de cidadania e espírito comunitário.

O trânsito brasileiro, portanto, é apenas um reflexo de todos os problemas sociais que o Brasil enfrenta. As autoridades de trânsito repetem os mesmos vícios e defeitos que podem ser vistos nos poderes executivo, legislativo e judiciário. E o  motorista brasileiro repete ao volante as mesmas distorções de comportamento vistas fora dele. Dificilmente o trânsito melhorará sem que as causas externas dos problemas sejam eliminadas.

P.S. - Só para ilustrar, cito uma história da qual me recordei quando colocava o ponto final na coluna. Há uns seis anos, minha mulher estava em um táxi e, enquanto estavam parados em um sinal vermelho, alguém passou distribuindo um papel qualquer. O motorista pegou um, resmungou algo como "essa papelada só serve para sujar a rua", amassou-o e... jogou pela janela!

Coluna anterior

Colunas - Página principal - e-mail

Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com