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Incoerências urbanas

Leitor aponta fatos que muitos não percebem, mas que
concorrem para piorar o trânsito e até causam acidentes

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniHá algumas semanas recebemos um e-mail do leitor Armen Loussinian. Ele apontava uma série de fatos que podem passam despercebidos, mas são bastante comuns no trânsito, principalmente das grandes cidades. Guardei suas observações, bastante pertinentes, para aproveitamento na coluna.

Armen cita uma série de "grandes idéias e grandes projetos" que atrapalham sobremaneira o trânsito. Passo aos problemas apontados pelo leitor, acrescidos de um comentário pessoal.

"Transformação de uma avenida de três pistas em cinco pistas apenas com a substituição da sinalização horizontal. Os veículos se locomovem de forma intercalada para não tocarem os espelhos retrovisores. Será que o trânsito não fica mais lento com essa gambiarra?"

Armen se refere à criação artificial de espaço nas grandes avenidas, pintando faixas de rolamento mais estreitas. Teoricamente, o espaço das faixas seria exato para a passagem de automóveis e, assim, mais carros poderiam circular. Só que caminhões, ônibus e carros mais largos acabam ocupando também o espaço da faixa vizinha, tornando o trânsito mais confuso.

Além disso, nem todo motorista tem hábito, capacidade e/ou tarimba para dirigir. Assim, muitos se posicionam -- como aponta o leitor -- de maneira intercalada, por receio de esbarrões. A única vantagem (?) da faixa mais estreita apareceria, então, na hora do trânsito parado, quando realmente a avenida acaba comportando mais veículos. Só que fazer engenharia viária para congestionar ainda mais as avenidas é uma idéia sem lógica.

Já que o assunto é sinalização horizontal, aproveito para citar também as faixas que mudam de posição. O motorista está dentro da faixa de rolamento e, ao cruzar uma esquina, passa a ocupar mais de uma, simplesmente porque mudou o alinhamento da sinalização horizontal. Não é preciso muita imaginação para perceber quantos problemas são causados por isso. Será que é tão difícil assim pintar faixas em uma linha contínua, sem mudanças de posição?

Ah, sim: quem quiser exemplos de tudo isso pode andar pela Avenida Rebouças, em São Paulo, no sentido bairro-centro. Vejam e comprovem quanta imbecilidade viária pode se concentrar em uma única avenida...

"Já repararam que as pistas da direita de qualquer avenida são totalmente nulas devido às condições do asfalto? Ou seja: poças d'água, buracos, ondulações, caçambas de entulho e barracas de ambulantes, entre outros."

Tudo isso acontece por uma série de fatores. A qualidade do calçamento costuma ser tão ruim que o piso se desfaz rapidamente. As faixas da direita são as mais sujeitas a desgaste, por serem as que recebem ônibus e outros veículos pesados. Tudo isso provoca o surgimento dos buracos, poças e ondulações apontados por Armen. Quanto às caçambas e barracas, só ficam ali por falta de fiscalização. Ou seja: a incompetência e a má-fé dos poderes públicos estão em todas...

"Falta de visibilidade nos cruzamentos devido à poluição visual de placas e um dado que pouca gente se dá conta: a cidade de São Paulo possui a maior quantidade de postes do planeta! Se repararem, ao longo de qualquer rua ou avenida, eles são tantos que, dependendo da posição em que esteja o motorista, formam uma parede de concreto, eliminando totalmente a visibilidade, além de contribuir para sujar mais ainda o visual da cidade."

Sem maiores comentários. Apenas para complementar, cito o que ocorre em São Paulo, para quem vem da Avenida Santos Dumont em direção à zona norte da cidade. Essa avenida acaba em outra, a Brás Leme, e o encontro das duas é monitorado por um semáforo. Só que quem vem da Santos Dumont encontra pela frente um painel luminoso cujas luzes ofuscam os motoristas. Pior: dependendo do posicionamento do motorista, o semáforo fica camuflado bem no meio do painel, cujas luzes são fortíssimas. Ridículo, não?

"Bueiros mal planejados e construídos por 'engenheiros' exatamente nos 'trilhos' por onde passam os veículos, fazendo com que o trânsito, já caótico, torne-se um verdadeiro balé."

Apenas acrescento o balé causado pelas mudanças de posição das faixas.

"Em vez de as autoridades de trânsito preocuparem-se durante o dia com quem guia com uma mão só, deveriam ficar acordados à noite para coibir a circulação de enormes carretas que transportam lixo para depósitos e que saem por aí deixando grandes quantidades de lixo pelas avenidas; caminhões (que sequer têm uma lanterna traseira) com cargas de lixo (sucatas de escritórios) e excesso de altura, que também saem largando sacos enormes a cada ondulação no asfalto; proliferação de caçambas de entulho e seu transporte totalmente irregular. Sem falar de empresas contratadas pelos órgãos públicos para execução de sinalização horizontal que saem por aí derramando tinta, deixando rastros por quilômetros de avenidas."

Mais uma dos poderes públicos, que deveriam estar aí para coibir esse tipo de coisa e não para tornar a vida dos motoristas honestos algo estressante. Esta foi contada por um amigo: em um congestionamento, uma policial de trânsito sinalizou para um motorista avançar uma esquina, e o sujeito demorou a entender. A policial insistiu e, enquanto o motorista andava, o sinal fechou. Ela não teve dúvida: sacou o talão e multou o motorista. Não é fantástico?

Como se vê, a incompetência e omissão dos poderes públicos têm boa parcela de culpa pelo caos no trânsito das grandes cidades. Mas, para que justiça seja feita, deve-se acrescentar que muitos maus motoristas também são responsáveis por essa situação. E é deles que vamos falar na próxima coluna. Até lá.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com