Best Cars Web Site

Pedindo água

Crise no abastecimento em São Paulo tem origens
na busca desordenada de espaço para o trânsito

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniA cidade de São Paulo e alguns municípios vizinhos vêm convivendo nos últimos meses com um dos piores períodos de seca de sua história. Devido à falta de chuvas, as represas e reservatórios de água estavam, no começo de julho, operando com cerca de 30% da capacidade -- uma situação dramática, visto que níveis abaixo de 15% inviabilizam o tratamento da água para consumo, por causa da concentração de sujeira.

Por esse motivo, a Sabesp, responsável pelo abastecimento de água, decretou um rodízio entre determinados bairros, principalmente os localizados na zona sul da cidade: alguns passaram a alternar 48 horas com água e 24 horas sem água. Outros entraram em um regime mais rigoroso, ficando sem água a cada dia e meio (36 horas). Os bairros da zona norte não foram atingidos pelo rodízio por serem abastecidos por outros reservatórios, cujos níveis de água se mantiveram dentro da normalidade.

Essa situação é apenas mais uma a prejudicar a já sofrível qualidade de vida da população paulistana. E ela é ainda mais inaceitável porque a cidade de São Paulo é cortada por diversos rios, córregos e riachos que poderiam suprir pelo menos parte da água que vem faltando nos mananciais. O problema é que hoje a água de todos esses rios e córregos é altamente poluída e contaminada por esgotos clandestinos e resíduos industriais.

Sem contar os rios que foram canalizados e hoje passam por baixo da cidade, com suas águas igualmente impróprias para o consumo. As cheias do Vale do Anhangabaú, cujas imagens chocantes correram o mundo no começo do ano passado, têm origem nisso: antigamente, havia ali um rio que foi canalizado e coberto por uma avenida.

Mas -- pergunta o leitor -- o que tem o automóvel com isso? Resposta: tudo. Nossos governantes, em geral mais preocupados em aparecer do que em estabelecer políticas coerentes de urbanização e ocupação do solo, fizeram durante décadas apenas obras públicas grandiosas para os meios de transporte rodoviário. Era assim no começo do século e continua sendo hoje.

Algumas notáveis exceções foram feitas, no sentido de melhorar o transporte coletivo e frear -- um pouco que fosse -- o crescimento desordenado da chamada "mancha urbana". Foram tão poucas que seus efeitos desapareceram ou ficaram diluídos no caos em que se transformou a cidade.

Quarteirões completos foram demolidos para dar lugar a avenidas; bairros inteiros tiveram sua qualidade afetada pela construção de viadutos (o Elevado Costa e Silva, o famigerado "Minhocão", é o mais triste exemplo disso); rios foram cobertos ou desviados para a passagem de vias expressas. Tudo isso por que essas obras são muito mais "vistosas" e rentáveis em termos de marketing político do que outras (dizem também que viadutos, túneis e avenidas proporcionam melhores negócios, mas isto não tenho como provar).

As vias expressas dos rios Tietê e Pinheiros, construídas há três décadas com o intuito de desafogar o trânsito no resto da cidade, transformaram-se, devido à acentuada ocupação imobiliária dos terrenos em sua volta, em avenidas tão movimentadas quanto quaisquer outras da cidade e vivem congestionadas -- quando não inundadas pelas águas dos rios.

O Rodoanel pode se transformar em um problema semelhante se não houver uma regulamentação coerente (e rigidamente obedecida) sobre o que poderá ou não ser construído às suas margens. Só para ilustrar: em cidades ocupadas de maneira mais civilizada, a existência de rios é uma bênção que facilita o abastecimento de água, o transporte fluvial (o que também melhora o transporte rodoviário) e a qualidade de vida (as margens desses rios possuem jardins e/ou restaurantes, e nelas se pode passear a qualquer hora do dia ou da noite). Isso acontece até em uma cidade com vocação industrial como Turim, onde fica a Fiat italiana. Como se vê, um quadro bem diferente do que se vê nas marginais do Tietê e do Pinheiros.

Enfim, praticamente todas as obras viárias de São Paulo foram feitas unicamente para o benefício do transporte rodoviário individual. O resultado é que, na tentativa de tornar mais fácil a vida de quem tem automóvel, acabaram tornando mais difícil a vida de todos -- inclusive dos próprios motoristas, sempre às voltas com congestionamentos, enchentes, alagamentos e inundações.

O exemplo de São Paulo deve ser observado por administradores de outras cidades para que os erros não sejam repetidos. Como este é ano eleitoral, fica uma sugestão aos (e)leitores do Best Cars Web Site: ao escolher prefeito e vereador, informe-se sobre as posições de seus candidatos quanto a transporte público e obras viárias. Junto a outros quesitos, essas posições podem ser indicadores valiosos do que eles poderão fazer de bom ou de ruim por sua cidade e pelos cidadãos -- tanto os que andam de automóvel quanto os que desejam apenas ter água potável.

Coluna anterior

Colunas - Página principal - e-mail

Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com