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Liberdade e responsabilidade

Cenas de imprudência e imperícia abrem espaço para
os defensores de baixos limites de velocidade

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniNo começo de maio, viajei a trabalho para Ribeirão Preto. Só para situar o leitor, essa cidade, uma das mais prósperas do interior paulista, fica a cerca de 320 km de distância de São Paulo e o acesso a ela, para quem sai da capital do estado, é feito por meio do complexo Anhanguera-Bandeirantes. A Bandeirantes corre paralela à Anhanguera e se junta a ela após Campinas. Asfalto excelente, quatro faixas de rolamento, velocidade máxima de 120 km/h para automóveis. Já a Anhanguera alterna trechos muito bons com outros de asfalto esburacado. A velocidade máxima varia entre 80 km/h e 110 km/h (na maior parte do percurso é de 100 km/h).

Eu estava curioso para saber o que encontraria pela frente. Ida e volta seriam feitas no meio da semana e de dia, fora dos horários de pico, o que eliminava boa parte das possibilidades de congestionamentos que acabam com a paciência de qualquer um. Havia viajado por essas rodovias no começo do ano passado e, naquela oportunidade, mudar da Bandeirantes para a Anhanguera foi quase um choque cultural. Pelo menos até Ribeirão Preto, a Anhanguera era muito ruim.

Hoje, um ano depois, muitos trechos dessa estrada receberam asfalto novo e estão excelentes. Outros estão em obras de recapeamento e grande parte continua igual -- ou seja, uma lástima. Mas duas coisas me chamaram especialmente a atenção. Primeiro, a quantidade de pedágios (nove) para quem faz esse percurso no sentido do interior. Sobre isso, voltaremos a falar futuramente. A segunda é a falta de respeito dos motoristas por algumas regras elementares de segurança ao dirigir.

Sou crítico dos limites de velocidade, pelo menos da forma como eles são implantados no Brasil. Mas, no caso da Anhanguera e da Bandeirantes, os limites adotados são, na maioria dos trechos, coerentes com as condições das estradas. Adotaram inclusive uma medida simples e inteligente, estabelecendo limites mais baixos para caminhões e ônibus do que para automóveis. Só que os próprios motoristas não estão sabendo conciliar liberdade (mesmo que relativa, nesse caso) com responsabilidade. Explico.

Tanto na ida quanto na volta, não foram poucas as vezes em que, ultrapassando na faixa da esquerda e andando no limite máximo permitido, eu recebesse um farol insistente de alguém que vinha muito acima da velocidade permitida. Como eu já estava no meio da manobra de ultrapassagem e não queria correr o risco de levar multas (nunca se sabe onde estão os radares e policiais), não havia outro jeito para o motorista de trás: ele tinha que esperar eu completar a ultrapassagem, até poder sair para a direita e abrir caminho para quem vinha mais rápido.

Limites de velocidade não são garantia de segurança -- e a maior prova disso é que a Alemanha, onde existem as autobahnen, vias expressas sem limite de velocidade, é um dos países mais exemplares em termos de segurança no trânsito. Mas pensemos de maneira realista em termos de Brasil, onde até poucos anos atrás estivemos amarrados a uma estúpida camisa-de-força de 80 km/h em todo o país sob qualquer circunstância. Ainda que determinados veículos possam rodar com segurança a 140 ou 160 km/h, seria bom os motoristas dirigirem de maneira mais segura em uma estrada cujo limite coerente é de 120 km/h.

Cenas de imprudência e imperícia se repetiram: ultrapassagens pela direita, freadas bruscas e outros shows gratuitos de inabilidade e irresponsabilidade ao volante -- sem contar os imbecis e mal-educados que consideram a via pública uma grande lata de lixo e jogam papéis, latas e outros objetos pela janela. Detalhe: a maioria desses espetáculos era proporcionada por motoristas a bordo de automóveis novos, às vezes importados de última geração. Havia muitos caminhões, mas pouquíssimos deles agiam de maneira imprudente.

Moral da história: é bom começar a pensar melhor antes de andar rápido demais, principalmente quando a estrada é boa e tem limites regidos por um mínimo de bom senso. Se os acidentes começarem a acontecer em escala alarmante nessas circunstâncias, será a chance que faltava para os moralistas de plantão defenderem a volta pura e simples dos malfadados 80 km/h. E esse é um retrocesso que certamente não desejamos.

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com