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Hábito antigo

Uma mania nacional de longa data é personalizar
e equipar o automóvel -- nem sempre com bom gosto

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniOutro dia, uma conversa com amigos rendeu uma divertida "reavivada" em minha memória, relembrando antigos equipamentos usados para personalizar automóveis. Tudo começou porque alguém havia visto um carro qualquer na rua e ficado impressionado com a quantidade de acessórios instalados para mudar a aparência. Pela descrição, o tal carro tinha de tudo: rodas de liga leve, spoilers, adesivos, faixas, mudanças nas lanternas, engate de reboque com luz piscante e até a tal buzina que imita os mais variados sons, desde o relinchar de um cavalo até o grito do Tarzan...

Nunca me interessei por esse tipo de personalização. Mas sempre prestei atenção nos carros que andam pela rua, até porque muitas vezes o proprietário exagera e o resultado final fica um pouco, digamos, estranho para a maioria das pessoas. Mas gosto não se discute...

Só como curiosidade, lembro-me de quando tinha cinco, seis anos e já sabia identificar um carro original de um "incrementado" (como se dizia de qualquer veículo "mexido" no começo dos anos 70). Curioso, eu perguntava a quem estivesse por perto e ali, sem saber, ia me informando sobre rodas "tala-larga" ou "de magnésio" (a maioria das pessoas chamava assim qualquer roda esportiva), vidros-bolha (muito comuns nos Fuscas), "volantinhos" (os pequenos volantes esportivos, tipo Fórmula 1 -- que, por sinal, era o nome de uma fábrica de acessórios criada nos anos 60 por Emerson e Wilsinho Fittipaldi) e outras coisas inventadas para personalizar automóveis.

Um dos acessórios que mais me chamava atenção eram as lanternas seqüenciais, usadas principalmente nos Opalas até 1974. Para quem não se lembra, as lanternas traseiras do modelo da época eram pequenas e ficavam nas quinas dos pára-lamas. Entre elas ficava um imenso espaço vazio, que dependendo da versão era ocupado por uma aplicação metálica com a inscrição Chevrolet.

As lanternas seqüenciais eram colocadas nesse espaço: três ou quatro lâmpadas adicionais de cada lado, na mesma altura da lanterna original. Quando o motorista pisava no freio, as lanternas iam se acendendo seqüencialmente, de dentro para fora, até que acabavam-se as luzes e elas se apagavam, para que tudo começasse de novo.

Fez tanto sucesso que inventaram até uma versão para o Fusca -- só que nele as três lâmpadas eram instaladas dentro da lanterna traseira original do carro, sem alterar a aparência. Como todas suas congêneres, essa mania durou um ou dois anos. Depois, as lanternas seqüenciais desapareceram. Voltariam muitos anos depois, já na década de 90, desta vez como luz de freio elevada (exercendo, no fim das contas, a mesma função de 20 anos antes) e tendo cada lâmpada de uma cor.

No fundo, esses acessórios são variações de um mesmo tema. Nos anos 70, a moda era colocar faróis de milha esverdeados ou amarelos, ou trocar as lentes originais pelas dessas cores. Hoje (ou até pouco tempo atrás) a moda é a luz azulada, que tenta -- sem muito sucesso -- imitar o tom das lâmpadas de gás xenônio utilizadas em carros como Audi e Mercedes.

Nos anos 70, o autêntico "carro de boy" tinha que ser rebaixado até quase encostar no chão -- uma tendência que ainda persiste e à qual somou-se a de levantar os picapes. Também era habitual colocar luzes roxas nos carros, sabe-se lá com qual finalidade. Hoje, as lojas vendem lanternas traseiras originais (principalmente para carros pequenos como Gol e Palio) nas cores mais esdrúxulas -- verde e azul, por exemplo, sem contar as lanternas fumê Maverick GT 1978
que deixam todo o conjunto óptico na cor negra. Buzinas com sons "especiais" também já eram vendidas décadas atrás.

Há duas décadas, uma faixa preta na lateral e outra no capô eram suficientes para um carro ser "esportivo". Isso porque os fabricantes ofereciam versões (Opala SS, Corcel e Maverick GT, Chevette GP, Passat TS) que muitas vezes não passavam de modelos normais com uma "perfumaria" de fábrica. Hoje, as faixas pretas deram lugar a adesivos com dísticos os mais diversos -- alguns deles de baixíssimo nível.

Também chama a atenção a quantidade de proprietários de carros pequenos (principalmente 1.000) ou básicos que removem os logotipos originais, como se quisessem esconder que possuem um carro com motor menos potente ou acabamento mais simples.

Até os anos 80 usava-se o contrário, acrescentando logotipos e plaquetas com inscrições como GT, Sport, Fuel Injection (pouquíssimos sabiam o que era isso há vinte anos, mas a inscrição já estava à venda...) e outros. Conta-se que em 1987, quando o Monza ganhou a opção de motor dois-litros, o logotipo 2.0 passou a ser uma das peças mais vendidas pela GM... para se aplicar na versão 1.8, evidentemente.

Rodas, adesivos, logotipos, suportes de placa (os do "tipo Mercedes", largos o bastante para as placas alemãs, que sobravam atrás das nacionais), luzes, volantes, antenas (a de teto do Gol GTi, no início dos anos 90, foi muito aplicada a Fuscas e Brasílias), escapamentos, consoles... a lista de personalizações simplesmente não tem fim.

Muitos dos que dão "banhos de loja" em seus carros mal imaginam o que já se fez nessa área e há quanto tempo existe esse hábito. Independente do resultado estético, não deixa de ser uma manifestação interessante do tipicamente brasileiro apego ao automóvel.

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