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Medo

Encostar o carro importado na garagem resolve o
problema individual, mas não o da coletividade

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Fazia já algum tempo que eu tinha vontade de escrever sobre o tema. De repente, uma chamada de capa no caderno Cidades do jornal O Estado de S. Paulo foi a motivação que faltava: "Medo faz motoristas aposentarem carrões". O teor da reportagem era óbvio: para (tentar) evitar assaltos e seqüestros, muitos donos de cobiçados carros importados passaram a andar com veículos mais baratos, até mesmo nacionais pequenos como Gol e Ka.

Quando se chega a uma situação dessas, há razões mais do que suficientes para qualquer um se perguntar em que mundo vive. Mas a questão, no fundo, é bem mais profunda que a da violência em si. Envolve, entre muitas outras coisas, a vergonhosa desigualdade na distribuição de renda em todo o Brasil, a falência de um sistema educacional que privilegia a quantidade e não a qualidade, a impunidade perante todo tipo de crime (incluindo a corrupção e os de "colarinho branco") e a falta de perspectivas quanto ao futuro. 

Ah, sim, já ia esquecendo: pode colocar aí a postura tipicamente brasileira de ir deixando para resolver os problemas somente quando eles atingem dimensões insuportáveis -- e não aos primeiros sinais de que alguma coisa está errada. Muitas das situações que vivemos hoje são conseqüência dos problemas que deixaram de ser resolvidos décadas atrás. 

Trocar o Mercedes-Benz por um Gol pode ser um bom paliativo para o problema individual de cada um. Mas como fica a solução coletiva? Todos sabem que já chegamos a uma situação em que qualquer um pode ser vítima da violência. Não basta trocar de carro: é preciso trocar de mentalidade e, sobretudo, de atitude.

Não reagir durante um assalto é absolutamente salutar. O problema é que as pessoas não reagem nem depois dele: não registram queixa na delegacia (uma omissão grave, mesmo sabendo que muitas vezes o atendimento nas delegacias é péssimo), não cobram soluções das autoridades, não exigem contrapartida para os pesados impostos que são pagos direta e indiretamente.

Não se reage a nada, enfim. E é por essa brecha que nossos políticos, tanto os mais bem intencionados quanto os notoriamente corruptos, se aproveitam para deitar e rolar sobre nosso dinheiro, nossas cabeças, nossas vidas.

Escrevi meses atrás que carro blindado e vidro escuro podem ser um paliativo, mas nunca uma solução. O uso de um "popular" no lugar de um importado pode ser enquadrado na mesma linha. Que tal começarmos a pensar em resolver o problema de todos? No final das contas, cada um de nós será beneficiado.

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Data de publicação deste artigo: 30/3/02

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