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Homenagem a Avallone

Morre um dos mais ativos construtores brasileiros. E leva
consigo os planos de uma réplica de MG com motor 1,0

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Peço licença ao leitor para, mudando um pouco o enfoque da coluna, prestar uma pequena homenagem a Antônio Carlos Avallone, uma das figuras mais conhecidas nos meios automobilísticos nacionais. Piloto, construtor de carros de corrida e de rua, ex-deputado federal, advogado e empresário, Avallone tinha mil idéias e era um idealista, um batalhador. Errou algumas vezes e acertou em várias outras, como costuma acontecer a quem fervilha de idéias e tenta transformá-las em realidade.

No dia 24 de janeiro, encontrei-me com ele nos boxes do autódromo José Carlos Pace, em Interlagos, na capital paulista. Havia ido buscar minha credencial para cobrir a Mil Milhas Brasileiras. Avallone sempre marcava presença nessa corrida inscrevendo o mesmo Avallone-Chrysler que usou para conquistar o título nacional de Divisão 4 (Esporte-Protótipo Nacional) em 1973. No dia seguinte, ele estava nos boxes do autódromo e, após um mal-estar, foi para uma clínica. Mas não resistiu a um enfarte fulminante. Tinha 68 anos. 

Nos anos 70 e 80, quando a importação de veículos era proibida no Brasil, Avallone foi um dos que apostaram no mercado de réplicas e carros especiais. Aproveitando sua experiência na construção de carros de corrida, fabricou a partir de 1976 réplicas do MG TF (equipadas com motor de Chevette e, depois, Opala). Nos anos 80, fez limusines alongando carros como Opala, Monza e até Quantum (saiba mais).

Com uma destas, deslocava-se para seus compromissos de campanha na eleição de 2000, onde concorreu a vereador na cidade de São Paulo. A enorme Quantum (ainda da primeira série e 84 cm mais longa que o normal) estava devidamente decorada com seu nome e o número de candidato. Não foi eleito, mas certamente tornou-se mais conhecido: era impossível ela passar em branco no trânsito de São Paulo.

Estive com ele nas últimas semanas de dezembro. Conversamos longamente sobre diversos assuntos e ele me mostrou vários recortes de jornais e revistas. Circundados por um traço vermelho, estavam uns cinco anúncios de ofertas de venda das réplicas de MG TF que ele construíra nos anos 70 e 80. O preço pedido estava na faixa dos R$ 30 mil -- cerca de dez vezes mais do que era pedido por réplicas parecidas de outras marcas.

"Só posso explicar isso pela qualidade dos carros e pelo fato de eu não ter usado motor de Fusca, que era a prática habitual dos construtores independentes da época", disse ele. "Mas eu me surpreendi quando vi o valor deles no mercado."

Avallone deixou de fabricar suas réplicas em meados dos anos 80, por absoluta inviabilidade econômica. "Em todo o mundo, uma réplica é um carro especial, bem feito, que justifica um preço elevado e tem seu mercado", explicou. "Aqui, a mentalidade é outra e, para piorar, a carga de impostos é alta demais, o que praticamente inviabiliza o negócio." 

A boa aceitação das réplicas de MG TF no mercado de usados fez Avallone estudar a possibilidade de voltar a fabricá-las, desta vez usando o motor Chevrolet de 1,0 litro do Corsa e do Celta. Dessa forma, as novas versões se beneficiariam do IPI menor para carros com motor 1,0 e teriam um preço bastante competitivo. Seria uma boa novidade para o mercado nacional. Pena que Avallone não tenha tido tempo de levar seus planos adiante.

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