Best Cars Web Site Pára-brisa  

Política versus lógica

Limites de velocidade deveriam ser ditados pelo
bom-senso e não por tecnoburocratas em gabinetes

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

A profissão de jornalista proporciona oportunidades (na verdade, incumbências) de viajar a trabalho, inclusive para o exterior. No meu caso, amigos e parentes brincavam comigo, mencionando a "moleza" de viajar com quase tudo pago e tendo pouco serviço e muito turismo. É verdade que normalmente o dinheiro para custear as viagens não sai do bolso do jornalista, mas a relação entre labor e lazer é justamente o contrário do que se imagina.

Qualquer viagem a trabalho representa uma jornada profissional, na qual o mais importante é cobrir o evento para o qual fomos convidados e, se possível, ir além disso. Não é raro que as atividades tomem o dia inteiro, mas quase sempre há algum momento vago que pode ser aproveitado para fazer pequenos passeios e compras e conhecer um pouco mais o modo de vida do local visitado.

Lembrei-me disso porque, em 1997, eu trabalhava em uma revista especializada em automóveis e fui convocado para duas missões. A primeira seria conhecer os departamentos de segurança, aerodinâmica e reciclagem de materiais da fábrica da Fiat em Turim, na Itália. De lá, eu viajaria diretamente para Bruxelas, na Bélgica, para cobrir o lançamento mundial do Mercedes-Benz Classe A. 

Foi uma das viagens mais enriquecedoras que fiz. Na Fiat, tive oportunidade de conhecer o túnel de vento, o centro de reciclagem de materiais e centro de estudos de segurança, com direito a assistir a um teste de colisão (crash-test) ao vivo. O duro foi ficar acordado em certas palestras: a programação intensa deixava pouco tempo para descanso e não tivemos tempo para ajustar o sono ao novo fuso -- eis um dos lados "duros" desse tipo de viagem...

Já o lançamento do Classe A teve um epílogo inesperado: de Bruxelas, os jornalistas brasileiros viajaram de carro (Mercedes-Benz, é claro) para Stuttgart, na Alemanha, para uma visita à fábrica e ao museu da Mercedes-Benz. Essa viagem acabou permitindo a realização de um antigo sonho meu: dirigir nas autobahnen, as estradas alemãs nas quais não existem limites de velocidade. E pude comprovar na prática algo que já havia lido ou ouvido de colegas mais experientes e vividos: limites de velocidade são, quase sempre, determinados por políticos e burocratas -- e não por verdadeiros técnicos ou pelo bom senso, como deveria ser.

Durante essa viagem, dirigi durante longos trechos a velocidades de até 230 km/h ao volante de um Mercedes-Benz CLK. Perigo? Não, pelo contrário: em um bom carro, em uma estrada em excelentes condições de conservação e sinalização e dividindo o asfalto com motoristas conscientes e preparados, eu me senti bem mais seguro do que andando a 60 ou 80 km/h em certas avenidas e estradas daqui.

Andando a velocidades maiores, todos chegam mais rápido aos respectivos destinos. Podendo viajar olhando para a estrada e não para o velocímetro (para não passar do limite artificialmente criado), viaja-se muito mais relaxado e com atenção voltada para a estrada -- o que é um fator de segurança.

Também contribuíam para a segurança a quase inexistência de carros mal conservados e a sensatez de TODOS os demais motoristas, que andavam na velocidade de sua preferência nas faixas do meio ou da direita -- e deixavam a da esquerda exclusivamente para ultrapassagens. Cada motorista definia seu próprio limite de velocidade, de acordo com suas possibilidades mecânicas, sua habilidade ao volante e sua pressa. Graças a isso, motoristas andando em velocidades que variavam entre 120 e 250 km/h conviviam pacificamente, sem estresse nem sustos. "O bom senso sobre rodas", para lembrar uma antiga publicidade da Volkswagen.

Existe algum segredo para o "estado de graça" alcançado pelos alemães, que conseguem aliar bons carros, boas estradas, bons motoristas, estradas sem limites de velocidade e um dos mais baixos índices de acidentes de trânsito em todo o mundo? Não, não existe. Foi feito apenas o óbvio: o povo alemão tem um poder aquisitivo muito bom, um bom carro não é absurdamente caro (não falo de modelos de luxo, mas dos pequenos mesmo, tipo Polo e Corsa) e os órgãos governamentais investem na formação dos motoristas.

São encaradas com seriedade questões como as vistorias anuais dos automóveis, a conservação das estradas e o investimento em outros meios de transporte, como as ferrovias (o que diminui tremendamente a necessidade de uso de caminhões e ônibus). 

E no Brasil? Aqui, um carro 1,0-litro básico já custa absurdamente caro considerando o poder aquisitivo dos brasileiros, muitas estradas estão em péssimo estado e a educação, desde os níveis mais básicos, é apenas uma trágica ficção. A implantação de uma vistoria anual se arrasta há anos -- não porque se discute como ela deve ser feita, mas porque entidades e níveis diversos de governo disputam a tapa quem vai ficar com os reai$ que cada cidadão terá de desembolsar para fazer a tal vistoria.

Diante disso, torna-se utópico pensar em liberar os limites de velocidade. Mas trabalhar para que um dia tenhamos um trânsito tão civilizado quanto o alemão é perfeitamente possível. Tudo depende de investimento, vontade política, diretrizes acertadas e, claro, honestidade em todas as pontas do processo. A parte do motorista seria o respeito a leis de trânsito elaboradas com base em critérios técnicos e de bom senso.

Coluna anterior

Colunas - Página principal - e-mail