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Involução

Avanços tecnológicos são acompanhados por contenções
de custos que resultam em retrocessos inadmissíveis

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Apesar de desrespeitado e muitas vezes enganado, o consumidor é bem mais esperto do que se pensa. Em meados dos anos 70, os automóveis nacionais enferrujavam com incrível facilidade -- coisa que acontecia em muito menor escala nos modelos brasileiros dos anos 60 e nos estrangeiros que circulavam por aqui.

Vivia-se ainda sob governos militares (todos despóticos -- alguns mais, outros menos) e sequer se sonhava com leis de defesa do consumidor. Mas qualquer roda de papo sobre automóveis podia terminar com frases como "os carros antigos eram muito melhores que os novos".

Essa observação cotidiana deu origem a interessante reportagem de uma revista em 1978: foi feita uma comparação entre um Fusca zero-quilômetro e outro fabricado dez anos antes. E a impressão popular se confirmou: o modelo antigo (obviamente original e em perfeito estado de conservação, mas longe de ser um carro de colecionador) não tinha ferrugem, exibia melhor acabamento e, o mais surpreendente, desempenho superior (ambos com motor com 1.300 cm³). A única vantagem real do Fusca mais novo ficava por conta da existência de itens de segurança que haviam se tornado obrigatórios depois de 1968. 

Obviamente, as tempos mudaram e seria difícil considerar, por exemplo, um Fiat Mille 1991 melhor do que um atual. Mas o "enxugamento de custos" para diminuir o preço dos carros faz as fábricas tomarem medidas difíceis de engolir. Recentemente, minha mulher substituiu seu carro, um Ford Ka 1998, por um modelo idêntico zero-quilômetro.

Eu já havia dirigido um Ka mais novo e constatado a grande melhora que o motor Zetec Rocam, adotado a partir da linha 2000, proporcionou ao desempenho. Essa boa impressão foi reforçada na primeira oportunidade em que dirigi o carro novo de minha mulher. Em compensação, fiquei estarrecido ao constatar que os cintos de segurança traseiros retráteis de três pontos, de série no Ka antigo, haviam sido substituídos por cintos de regulagem manual. Os retráteis foram deixados apenas nas versões mais luxuosas. 

Não tenho idéia da diferença de custos entre cintos retráteis e não-retráteis numa escala industrial, mas duvido que a troca de um pelo outro tenha efeito tão marcante no custo final do produto. É o tipo de mudança extremamente infeliz. Normalmente, quem viaja no banco traseiro já tende a achar dispensável o uso do cinto, por crer que os riscos de ferimentos são pequenos, o que não é verdade. O cinto retrátil ao menos "estimula" o passageiro a usá-lo: não tem o inconveniente de entrar por baixo do banco, ou de ficar solto e sujando-se pelo assoalho, e se ajusta automaticamente ao físico do ocupante. 

É compreensível que as fábricas procurem "enxugar" seus modelos para mantê-los com preços competitivos, mas elas deveriam ser mais criteriosas quando isso se refere a itens de segurança ativa ou passiva. Afinal, cada item que possa ajudar a diminuir nossas nada invejáveis estatísticas de mortes e ferimentos causados por acidentes de trânsito é extremamente bem-vindo.

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