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Globalização temporária

Vectra 2002

Depois de alguns lançamentos em sintonia com o
Primeiro Mundo o Brasil volta a ter modelos defasados

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Durou pouco a ilusão dos brasileiros de fazer parte de uma indústria automobilística globalizada. Os últimos movimentos indicam claramente uma reversão na tendência de fabricar aqui, em simultâneo, os mesmos modelos que podem ser adquiridos pelos europeus, norte-americanos e japoneses.

Isto já era perceptível há dois ou três anos, mas começa a ficar cada vez mais nítido para o público com a obsolescência dos automóveis que estão no mercado já há algum tempo. Entre 1996 e 1997, alguns lançamentos aconteceram no Brasil praticamente ao mesmo tempo que na Europa -- Chevrolet Vectra, Ford Fiesta e Ford Ka. O Fiat Palio foi além: lançado mundialmente aqui no Brasil, só chegou ao mercado europeu após um bom tempo. Enfim, durante um curto período, foi vendida aos brasileiros a idéia de que os carros nacionais haviam deixado de ser carroças e passado a acompanhar definitivamente o ritmo de evolução dos fabricados no chamado "primeiro mundo".

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. De fato, nossos carros, mesmo os mais baratos e desatualizados, são hoje bem melhores (em termos de qualidade e de tecnologia) do que há 10 ou 12 anos. Também tornou-se inconcebível trazer ao Brasil o ferramental de modelos já descontinuados nos países de origem e lançá-los no País como novidade. Mas certos lançamentos vão demorar bem mais para chegar ao mercado nacional.

O Ford Focus, por exemplo, só passou a ser vendido no Brasil mais de dois anos depois de ser lançado na Europa. Reestilizações também só serão feitas depois de explorar ao máximo as possibilidades dos modelos já existentes. E outros simplesmente não deverão vir -- é o caso do novo Vectra. A GM deverá optar por uma atualização "tropical" no modelo atual, uma saída típica dos anos 70 e 80. Os compradores de médio-grandes e grandes, por sinal, deverão ser os que mais perderão opções. Os números de venda desses automóveis tornam pouco atraente para os fabricantes sua fabricação no Brasil.

A tendência é que eles venham para cá como importados (quando vierem) ou sejam fabricados aqui sem passar por atualizações marcantes durante um bom tempo (como acontece atualmente com o Santana). Mudanças rápidas deverão ficar concentradas nos modelos pequenos, que são os mais vendidos. Goste-se ou não, é uma realidade bem mais coerente com o potencial de médio prazo do mercado brasileiro do que a euforia de quatro ou cinco anos atrás.

P.S.: Caiu em minhas mãos uma edição portuguesa da revista de variedades GQ. A certa altura, leio a seguinte nota, inserida em uma coluna do tipo "o pior de...": "Estamos à espera da morte do IA, Imposto Automóvel, também conhecido por Indecência Automóvel, Injustiça Automóvel, Imbecilidade Automóvel, Inconveniência Automóvel, Indignidade Automóvel, Incômodo Automóvel ou Insensatez Automóvel. Aquele que nos faz ter carros tão caros, apesar dos ordenados mais baixos da Europa".

Brasileiros e portugueses estão separados por um oceano, mas ainda têm em comum muitas coisas além do idioma.