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Grand Prix 2

Leitor com grande conhecimento em F1 nos dá a
oportunidade de contar curiosidades do filme

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Peço licença a todos para dedicar esta coluna ao leitor Carlos Eduardo Nogueira, de São Paulo, SP. Depois de ler minha coluna Grand Prix, na qual comentei o filme homônimo, ele escreveu-nos algumas observações. Quando terminei de escrever a resposta, percebi que ali havia uma segunda coluna sobre o filme, com detalhes interessantes e pouco conhecidos sobre ele. Por isso, a resposta foi enviada diretamente a ele e está reproduzida abaixo.

Carlos fez as seguintes observações: "Os carros que aparecem em Grand Prix são todos de 1965, última temporada dos motores de 1.500 cm3. Basta ver o Lotus-Climax V8 e o Honda V12 transversal, ambos 1.500. Em 1966 já eram motores de 3.000 cm3, do que se aproveitou Brabham e seu motor Repco feito na Austrália a partir do small aluminum block do Oldsmobile F85. Brabham, Lola e Cooper usavam o Coventry-Climax V8 1.500. As cenas (reais) de arquivo e as locações com os atores foram feitas com os carros de 1965. O copyright do filme é que é de 1966."

Pelas observações, Carlos certamente entende a fundo de carros e corridas. Mas devo esclarecer que não houve engano: Grand Prix foi realmente filmado durante a temporada de 1966. Vamos a alguns detalhes:

1) Na segunda metade dos anos 60, era comum alguns organizadores providenciarem adesivos com os sobrenomes dos pilotos para serem colocados nos carros, a fim de facilitar a identificação por parte do público. 

Não por acaso, os nomes, capacetes e formação das equipes dos personagens do filme foram feitos para ter semelhança com os dos pilotos reais. Isso facilitaria o aproveitamento de imagens reais das corridas e criaria maior coerência com aquelas que foram especialmente preparadas para o filme.

Note: Jean-Pierre SARTI/John SURTEES (Ferrari), Nino BARLINI/Lorenzo BANDINI (Ferrari), Scott STODDART/Jackie STEWART (BRM) e Pete ARON/Chris AMON. Este último personagem fez uma corrida pela BRM e depois passou para a Yamura, equipe japonesa fictícia nitidamente inspirada na Honda. Em algumas ocasiões, o "dublê" de Aron foi Bruce McLaren, já que Amon esteve inscrito em apenas duas corridas naquele ano.

2) Um fato real, ocorrido durante a temporada de 1966, teve conseqüências em Grand Prix. Naquele ano, John Surtees fez as duas primeiras corridas (Mônaco e França) pela Ferrari e depois trocou-a pela Cooper por ter brigado com Enzo Ferrari. Repare que no começo de Grand Prix o personagem Jean-Pierre Sarti usa um capacete branco com faixas azuis (exatamente igual ao usado por Surtees) e depois, sem maiores explicações, passa a usar um outro, com topo branco, base preta e pequenos frisos vermelhos. Esse outro capacete era o de Mike Parkes -- na vida real, o substituto de Surtees na Ferrari.

3) Até o começo da temporada de 1973 a numeração dos carros de F1 mudava a cada GP. Em Grand Prix, os números usados pelos personagens batem com os usados pelos pilotos "dublês" em 1966. Confira:

Mônaco: 11, Aron/Graham Hill (BRM), lembrando que no filme Aron faz esta corrida pela BRM e depois é demitido; 12, Stoddart/Stewart (BRM); 16, Barlini/Bandini (Ferrari); 17, Sarti/Surtees (Ferrari).

Bélgica: 6, Sarti/Surtees (Ferrari); 7, Barlini/Bandini (Ferrari); 24, Aron/Bruce McLaren (no filme, Stoddart não correu).

Holanda: 2, Barlini/Bandini (Ferrari); 4, Sarti/Parkes (Ferrari); 14, Stoddart/Stewart (BRM). Aron usou o número 32, que na corrida de verdade foi usado por Mike Spence (Lotus-BRM).

Inglaterra: 4, Stoddart/Stewart (BRM); 14, Aron/Bruce McLaren (McLaren-Serenissima). Na vida real, a Ferrari não participou do GP da Inglaterra por causa de greves na Itália. No filme, Barlini era número 16 e Sarti, o 17.

Itália: 2, Barlini/Bandini (Ferrari); 4, Sarti/Parkes (Ferrari); 28, Stoddart/Stewart (BRM); 32, Aron/Amon (na vida real, Amon correu com um Brabham-BRM e não se classificou para a largada). 

4) Phil Hill, o campeão mundial de 1961, participou do filme fazendo um personagem secundário (Tim Raymond, segundo piloto da Yamura). Em 1966, ele se inscreveu nos GPs de Mônaco (com um Lotus-Climax 1,5-litro) e da Bélgica (com um McLaren-Ford 4,7-litros, ou seja, um motor com cilindrada muito acima dos 3,0 litros permitidos pelo regulamento).

Esses carros eram equipados com câmeras e foram admitidos apenas para fazer algumas das tomadas vistas no filme. Em Mônaco, Phil fez apenas os treinos; na Bélgica, largou em último e completou apenas uma volta. Depois, ele só voltou a se inscrever, desta vez competindo para valer, no GP da Itália, com um Eagle-Climax 2,7-litros da equipe de Dan Gurney. Não se classificou para largar -- foi sua última aparição como piloto de F1.

5) Outro campeão mundial, Graham Hill, faz pontas como Bob Turner, segundo piloto da BRM.

6) Fiz algumas pesquisas e descobri que houve casos isolados de pilotos que usaram carros com motores de 1.500 cm3 naquele ano. Os atores pilotaram monopostos de Fórmula 2 ou 3 "maquiados" com pinturas, pneus e outros equipamentos que os tornavam parecidos com os F1 da época. Segundo uma reportagem publicada pela revista inglesa F1 Racing em 1996 (tendo como "gancho" os 30 anos da filmagem de Grand Prix), o único ator que pilotou os carros com certa rapidez foi James Garner (no filme, Pete Aron).

Antonio Sabato (Nino Barlini) e Yves Montand (Jean-Pierre Sarti) só conseguiam andar devagar. Brian Bedford (Scott Stoddart) havia tirado sua habilitação semanas antes do início das filmagens e mal conseguia dirigir um carro de rua! Repare que no filme seu personagem é o único que usa balaclava e óculos com viseira escura, para esconder o dublê. Nas cenas em que Bedford tinha que aparecer pilotando, a solução foi colocar o ator no cockpit de uma carenagem montada sobre um reboque puxado por um carro de rua...

7) Alguns detalhes de Grand Prix realmente fogem daquilo que aconteceu na temporada de F1 de 1966. A ordem em que as corridas são apresentadas (Mônaco, França, Bélgica, Alemanha, Holanda, Estados Unidos, México, Inglaterra e Itália) é diferente da seqüência verdadeira (Mônaco, Bélgica, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Itália, Estados Unidos e México). Por algum motivo que não consegui apurar, no filme o GP da França é disputado em Clermont Ferrand (na vida real, ele foi em Reims). 

8) John Frankenheimer não gravou imagens de todas as corridas. Grand Prix tem locações em Mônaco, Spa, Clermont-Ferrand (onde nem houve GP naquele ano), Zandvoort, Brands Hatch e Monza. Os GPs da Alemanha, Estados Unidos e México são apenas sugeridos e/ou citados. Por quê? No caso da Alemanha, arrisco dizer que Frankenheimer achou trabalhoso, cansativo e irrelevante (para a montagem e edição final) filmar os 22 km do circuito de Nurburgring.

Quanto às corridas da América do Norte, que na vida real foram as últimas da temporada de 1966, a explicação mais provável é que o diretor tenha encerrado as filmagens em Monza para ganhar tempo e ter a película pronta antes do final do ano (o GP da Itália foi disputado em 4 de setembro, o dos Estados Unidos em 2 de outubro e o do México em 23 de outubro). Isso explicaria o fato de, no filme, as corridas da América do Norte acontecerem no meio da temporada e não terem cenas externas.

Carlos merece, de qualquer maneira, parabéns pelo conhecimento dos detalhes da Fórmula 1 dos anos 60. Como todos os demais leitores, está convidado a escrever-nos sempre.

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