Best Cars Web Site Pára-brisa  

Final infeliz

Encerramento das atividades da Chrysler traz efeitos
que vão além da desvalorização do picape Dakota

por Luiz Alberto Pandini
Luiz Alberto Pandini

Agora é oficial: a Chrysler vai fechar a fábrica de Campo Largo, no Paraná, onde era produzido o picape Dodge Dakota. A decisão não surpreendeu a ninguém -- pelo contrário, era o desfecho mais esperado, apesar dos boatos de que o prédio poderia ser aproveitado para a fabricação de outro veículo. 

A decisão obrigará o grupo DaimlerChrysler a pagar indenizações a revendedores, fornecedores de peças e funcionários, além de restituir ao governo estadual do Paraná e ao município de Campo Largo os valores correspondentes a incentivos fiscais e isenção de impostos -- só de ICMS, imposto estadual, são cerca de R$ 110 milhões. 

Esta foi a segunda vez que a Chrysler deixou de fabricar veículos no Brasil. A primeira foi em 1981, quando da compra de sua filial brasileira, em São Bernardo do Campo, SP, pela Volkswagen do Brasil. A fábrica de Campo Largo teria custado à Chrysler US$ 315 milhões, segundo a própria empresa informou na época da inauguração. Vários fornecedores de peças também fizeram investimentos para montar unidades fabris junto à Chrysler. Com o fechamento da fábrica, todos esses investimentos foram perdidos ou, no mínimo, vão demorar muito mais tempo para serem recuperados. 

Foi um final infeliz para uma história conturbada. A Chrysler anunciou a construção de uma fábrica em meados de 1996. Naquela época, a empresa estava voltando a se instalar no Brasil, depois de enfrentar relacionamentos problemáticos com pelo menos um importador oficial. A produção das picapes em Campo Largo começou em abril de 1998.

Sete meses depois, a fusão com a Mercedes-Benz levou à criação da DaimlerChrysler, com as inevitáveis mudanças de estratégia e objetivos provocados por uma negociação desse porte. Em abril deste ano, a produção foi suspensa e agora, em setembro, oficializou-se a decisão de fechar a fábrica. 

Aos poucos, está se confirmando aquilo que os analistas mais lúcidos alertavam há alguns anos: a capacidade de produção das fábricas instaladas no Brasil seria muito maior do que o mercado pode absorver. Em determinada época (entre 1995 e 1997, mais precisamente), parecia que todos os fabricantes de veículos existentes no mundo viriam instalar fábricas no Brasil. Até marcas de caros carros esportivos, como a TVR inglesa, chegaram a anunciar sua vinda para cá.

Bastava raciocinar um pouco para perceber que não haveria mercado para tantos fabricantes, tantos modelos e tantas versões -- e é bom lembrar que, naquela época, as vendas e perspectivas eram muito mais animadoras do que são hoje.

Do final de 1997 para cá, alguns acontecimentos levaram a uma freada brusca nas vendas de veículos no Brasil: crises econômicas (bolsas, países asiáticos, Rússia e Argentina, por exemplo), desvalorização do real perante o dólar, recessão. Todos esses fatos repercutiram negativamente nas vendas de veículos e fizeram cair por terra as previsões otimistas.

Os primeiros efeitos disso estão sendo vistos agora. E mais novidades desagradáveis devem surgir por aí, já que muitos importadores e fabricantes (inclusive alguns grandes) estão com as vendas ridiculamente baixas. O mercado só não está pior porque fábricas e revendedores estão lançando mão de toda sorte de promoções para tentar diminuir seus estoques. 

Mesmo com todas essas considerações, a história recente da Chrysler no Brasil continua sendo incompreensível. Ela é tão surrealista que levou a um fato provavelmente sem precedentes em todo o mundo: o lançamento de um modelo que já havia saído de linha! Foi assim com o Dakota Cabine Dupla, lançado oficialmente em abril deste ano, dias depois da paralisação das atividades da fábrica, simplesmente porque cerca de 1.000 unidades já haviam sido produzidas e estavam à venda.

O "caso Chrysler" mostra também como o consumidor e contribuinte está desprotegido no Brasil. Quem pagou (caro) por um Dakota ficou repentinamente com um modelo fora de linha e com menor valor de mercado. Quem apostava na existência de uma boa rede de assistência técnica também ficará amargamente decepcionado: prevê-se que apenas cinco das 26 concessionárias Chrysler existentes atualmente continuarão operando com a marca.

Isso dá a qualquer um todo o direito de duvidar daquela história de "manter fornecimento de peças de reposição e rede de assistência técnica", pois até proprietários de modelos populares e de grande produção vêm enfrentando dificuldades para conseguir peças para seus carros. Finalmente, a própria cidade de Campo Largo certamente terá um impacto negativo com a decisão da Chrysler.

Os consumidores certamente se lembrarão de tudo isso quando considerarem a hipótese de adquirir um modelo das marcas Chrysler, Dodge ou Jeep.


P.S.: Encontrei na Internet uma historinha curiosa, que reproduzo a seguir: "Até 1965, os carros na Suécia trafegavam pela pista da esquerda. A conversão do tráfego para a pista da direita foi aplicada em um dia de semana, às 5 horas da tarde. Todo o trânsito parou neste horário, e as pessoas trocaram seus carros de lado. Este curioso método foi escolhido para evitar que motoristas sonolentos ou desligados saíssem de carro de manhã cedo e esquecessem que este era o dia da troca de pistas".

P.S. 2: Recebi uma carta do leitor Carlos Eduardo Nogueira, de São Paulo, SP, fazendo algumas observações sobre minha coluna passada (dedicada ao filme "Grand Prix"). A resposta foi enviada diretamente a ele, mas seu teor fará parte da próxima atualização da Coluna.

Coluna anterior

Colunas - Página principal - e-mail