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Saudosismo à flor da pele

Enquanto a Ford constrói seis Modelos T, fabricante
de réplicas lança a sua do Tucker Torpedo de 1948

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniSou um saudosista. Assino embaixo uma frase do cantor Ed Motta: "Tenho saudades de coisas que nem conheci", disse ele certa vez, referindo-se ao fato de ter adoração por objetos, histórias e músicas de épocas muito anteriores a seu nascimento.

Poucos admitem, mas todos possuem, em maior ou menor grau, uma dose de saudosismo. Se você acha que não, experimente rever um desenho animado, um filme ou um brinquedo qualquer que tenha marcado a sua infância.

Há alguns meses, comentei no Pára-brisa a onda retrô na indústria automobilística, lançando modelos com desenho inspirado em carros do passado (VW New Beetle, Ford Thunderbird, Jaguar S-Type, Chrysler PT Cruiser e outros). Encerrei o texto com uma pergunta, feita apenas como hipótese extrema e não como curiosidade para o futuro: "Será que a Ford bancaria um 'new Model T', ou a Citroën um 'Nouvelle DS'? É esperar para ver..."

Bem, minha hipótese extrema acabou antecipando em parte o que viria depois, no que se refere ao Ford T. Há poucas semanas, a Ford anunciou que vai fabricar em 2003 seis unidades do T para comemorar seus 100 anos de existência. Não se trata de um novo produto inspirado no T, mas de seis carros iguais àqueles que saíram da pioneira linha de montagem entre 1908 e 1927.

Lembrei-me das piadas que fizeram quando o então presidente Itamar Franco sugeriu à Volkswagen que voltasse a fabricar o Fusca, em 1993. Uma delas seria de que Bill Clinton, à época presidente dos Estados Unidos, teria achado a idéia tão boa que iria sugerir à Ford que voltasse a fabricar o T. Às vezes, a realidade nos surpreende e deixa a piada ainda mais engraçada...

Na semana passada, o Best Cars Web Site divulgou outra notícia do mundo dos saudosistas: um pequeno fabricante dos Estados Unidos, a Ida Automotive, decidiu fabricar réplicas (saiba mais) do Torpedo, o carro que Preston Thomas Tucker tentou fabricar no pós-guerra. Detalhe: a cópia será produzida em apenas 50 unidades -- exatamente como acabou acontecendo com o Tucker original. Uma delas, é claro, ficará para a família Ida, dona da fábrica. As outras serão vendidas pelo "módico" preço de US$ 175.000 -- lá nos Estados Unidos.

(Alguém aí se empolgou? Lembre-se de que os impostos e taxas para trazê-lo farão com que o preço FOB, o do país de origem, praticamente seja triplicado...)

Embora a construção de réplicas não seja novidade, iniciativas como as da Ida Automotive mostram que existe, sim, um espaço para o resgate do passado em coisas modernas. Por "espaço", entenda-se também todo um mercado que pode gerar empregos e transformar-se em verdadeira atividade econômica. No Brasil, onde a preservação da história é (e sempre foi) encarada com desdém -- alguns a consideram mero passatempo de senis ou desocupados --, isso parece surreal. Em países com cultura diferente, isso é levado extremamente a sério.

Será que um dia nossa mentalidade vai mudar? Minhas esperanças são pequenas, mas ainda existem. Quando isso acontecer, daremos um passo para aumentar nossa auto-estima e ser um país minimamente sério. 

P.S.: Ainda na linha "saudosismo é bom e eu gosto", e com certo atraso, faço questão de deixar