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Tragédias

Três casos distintos com algo em comum:
vidas levadas pela irresponsabilidade ao volante

por Luiz Alberto Pandini

Luiz Alberto PandiniRodovia Presidente Dutra, 27 de setembro de 1952. Um Buick, viajando em alta velocidade, bate violentamente em um caminhão, fica totalmente destruído e se incendeia. Dentro dele, morre instantaneamente o cantor mais popular da época: Francisco Alves, o "Chico Viola". 

Rodovia Anhanguera, 22 de dezembro de 1981. Uma Brasília dirigida por um motorista bêbado invade a outra pista pela contramão e bate em um Passat. O motorista da Brasília morre na hora. O do Passat era João Carlos de Oliveira, o "João do Pulo", recordista mundial de salto triplo e um dos principais atletas olímpicos brasileiros.

A perna direita de João do Pulo sofre sérias fraturas e os médicos se esforçam para salvá-la. Quase um ano depois, esgotam-se as possibilidades e João do Pulo tem a perna amputada. O atleta morre em maio de 1999, depois de alguns anos enfrentando problemas de alcoolismo e depressão.

Avenida Europa, em São Paulo, 11 de junho de 2001. Apesar do nome, trata-se na verdade de uma rua larga, com duas mãos de direção, situada em uma região nobre da cidade. Nos horários de pico, um dos sentidos fica congestionado e o outro, desimpedido. Os motociclistas aproveitam a faixa desimpedida para passar à frente dos carros, andando na pista contrária ou rente a ela.

Foi nessas circunstâncias que o músico Marcelo Fromer, da banda Titãs, foi atropelado pela moto pilotada (em altíssima velocidade pelo que consta) por um assassino travestido de motoboy. Com graves lesões cerebrais, Marcelo Fromer morre dois dias depois.

Três épocas, três locais diferentes e três tragédias de trânsito. Peço desculpas aos leitores por começar a coluna com relatos como estes, mas elas não saíram de minha cabeça nos últimos dias. Acompanhei pelos noticiários das respectivas épocas os acidentes de João do Pulo e Marcelo Fromer -- e me deixaram um bom tempo pensando em quantas vidas são perdidas ou brutalmente comprometidas por causa da estupidez do trânsito. O acidente de Francisco Alves aconteceu 16 anos antes de eu nascer, mas os relatos da comoção causada por sua morte são pungentes e me tocaram fundo quando os li, há alguns anos.

Sinceramente, sentei-me ao computador sem ter uma idéia precisa do que ia escrever. Tinha apenas vontade de extravasar um sentimento de raiva e impotência por todas as coisas erradas que acontecem neste país, e particularmente no trânsito. Dedos no teclado, veio a dúvida: escrever o quê?

Citar mais uma vez que o Brasil é campeão mundial de acidentes de trânsito? Que a violência atinge níveis insuportáveis? Que problemas como a crise de energia são causados pela incompetência e má-fé das autoridades? Pensei em partir para um texto mais leve, até bem humorado se fosse o caso. Mas não era esse o meu estado de espírito.

No caso do trânsito em particular, as autoridades preocupam-se muito com multas e arrecadações de impostos, mas pouco ou nada fazem para investir na formação e educação dos motoristas e motociclistas. Estes não deixam por menos e cometem verdadeiras barbaridades ao volante ou ao guidão. Adeptos do "levar vantagem em tudo", fazem o possível para desrespeitar leis e parecem se orgulhar de atitudes como ultrapassar pelo acostamento ou passar em sinais vermelhos.

Causas e efeitos se confundem a tal ponto, que às vezes é impossível saber precisamente onde certos problemas começam ou acabam. O Brasil tem uma sociedade doente que perdeu a noção do quanto é prejudicada pelas muitas coisas erradas que estão em suas entranhas. 

Em vez de falar mais, peço licença para reproduzir trecho da coluna do jornalista Álvaro Pereira Júnior, publicada no suplemento Folhateen, do jornal Folha de S. Paulo, de 18 de junho último. Provavelmente tão desencantado quanto eu e certamente inconformado pela morte estúpida de Marcelo Fromer, Álvaro escreveu para o público jovem ao qual é dirigido o Folhateen:

"Peço que leve desta coluna pelo menos uma (...) mensagem: que não é normal morrer atropelado, não é normal ter medo de sair à rua, não é normal um governo deixar o país às escuras, não é normal ver políticos hipócritas fazendo 'denúncias' contra o que, na verdade, eles mesmos representam. O que, não sei, mas é preciso fazer algo. O Brasil está morrendo".

Alguém teria o que contestar?

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Correspondência para o autor: pandinigp@yahoo.com