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Ford Focus, o charme e a
competência do atrevimento

Como um bom blazer, o hatchback veste bem,
é confortável e o deixa opto a qualquer situação

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação

Roberto NasserAndei 20 dias e 5 mil quilômetros num Ford Focus hatch. É o carro que a Ford precisava para mostrar estar de volta às origens, à vocação em fazer automóveis médios com charme, boa decoração e itens de conforto que agradam o comprador. O Escort, antecessor, comparado a ele, envelheceu, mas seguirá vendido no apelo da relação custo-benefício. O Focus é argentino, importado com as facilidades do Mercosul e, como produto de grife, tem a função de espalhar sua aura sobre o Escort, o Fiesta e o Ka.

Integra a nova geração Ford. É arma e escudo na briga sem respeito travada no mercado automobilístico em todo o mundo, em especial na Europa, onde quase todos já têm quase tudo. A Ford acertou. O automóvel tem recebido prêmios e láureas em quantidade industrial, inclusive a vitória em sua categoria na III Eleição dos Melhores Carros do Best Cars Web Site. Seu atrevimento estético agrada ao usuário, em especial a versão hatch. Mas o sedã três-volumes tem a insuspeita esportividade de um banqueiro suíço em terno azul escuto e gravata escarlate...

Conduzi-o por mistura vária de pisos, condições e utilizações. É de proposta competente, honesta, e visualmente muito agradável. Atrativo no partido que a Ford chama new edge, mescla linhas arredondadas com cortes agudos e abruptos. Andei na perfurada malha rodoviária federal, nas estradas privatizadas e de pedágio inexplicavelmente freqüente e elevado. Asfalto, terra, cimento. Vazio e cheio. Sol e chuva. Dia e noite. Houve-se bem.

No conduzi-lo percebe-se a preocupação em harmonizar o interior com as atrevidas linhas exteriores. Painel, console, comandos, são agradáveis aos olhos e prazerosos ao toque, sem asperezas e ângulos, sem exigir malabarismos. Os bancos tem boa superfície e o espaço a passageiros, frontais e posteriores, é superior. O porta-malas absorve boa quantidade de bagagem.

Dinamicamente o automóvel vai muito bem, e se o motorista dirigir com o olho no conta-giros, o marcador de rotações do motor, ficará feliz com o brio da máquina. Consumo bom. Chegou aos 14,5 km/litro na monótona Rodovia Anhangüera, SP, com três faixas de rolamento, quinta marcha o tempo todo, velocidade coerente.

Em descompensação caiu a 9 km/litro em estrada de pista simples, contaminada por carros 1.000 em férias -- lotados de gente e bagagens -- e despreparados à missão, instando os automóveis de motor mais forte a exigir marchas reduzidas a todo momento para se livrar dos entraves causados pelas limitações dos carros de 1.000 cm3. E você sabe, cavalos bebem. E cavalos instados a correr, bebem mais.

O andar remunera os sentidos. A sensação de conforto sugere um automóvel de maior porte. Em suma, remunera física e espiritualmente o usuário. Lembra um blazer bem cortado. É-lhe confortável, veste bem e o deixa apto a tudo.

Sucesso científico   A Ford e o governo argentino querem os maiores números possíveis. A primeira para aumentar sua participação no mercado. Os vizinhos porquanto o negócio de automóveis por lá anda muito ruim -- a um quarto da capacidade do mercado.

O automóvel é encontrável em duas versões de carroceria, hatch e sedã três-volumes, motores 1,8 de 115 cv e 2,0 com 130 cv, três padrões de decoração, e preços de R$ 29 mil a R$ 42 mil. A Ford não fala em produzir o hatch 3 portas, como na Europa, simples ou na versão temperada pela Cosworth -- a criadora do seu mítico motor V8 para a Fórmula 1 de 30 anos passados -- com agradabilíssimos 170 cv e transmissão Getrag de 6 marchas.

Terá sucesso? Não tenho dúvidas. Ele passou no Teste dos Vidros Sujos, experimento que venho desenvolvendo com metodologia academicamente palpitológica, consistindo em examinar o carro após deixá-lo estacionado em lugar movimentado. Se os vidros estiverem impregnados de oleosidade de mãos, dedos, testas -- sinal evidente de interesse -- pode crer, será sucesso.

Os vidros sujos não mentem, jamais...

GM vende jipe Suzuki

Coisas da indústria automobilística: a General Motors começa a vender nos próximos dias o jipe Tracker TDI. Para saber que é um GM e não um Suzuki, você deve reparar na logomarca presa à grade frontal. As diferenças entre estes e os que a Suzuki importa da mesma fonte, a fábrica da GM na Argentina, são o nome, o emblema e o preço -- o Suzuki custa R$ 65 mil, o GM não tem preço divulgado.

Pela descrição, o veículo é conhecido. Novidade é a motorização. O motor é diesel, de quatro cilindros, 2.000 cm3, turbinado e produz 87 cv (e permite a adoção de um intercooler, resfriador de ar que aumenta a potência). Tem como base a moderna tecnologia common-rail de injeção de combustível em altíssima pressão, gasta menos, polui menos, anda mais. O TDI quer dizer Turbo, Diesel e Injeção Direta. 

No segmento de transporte leve é o motor diesel mais moderno do Mercosul, sem o sacudir, o soquear, o matraquear, e a indolência dos diesel. Como um bom motor diesel de projeto moderno, não vibra, não treme, faz pouca fumaça e é pouco lembrado quando se acelera: sua disposição é próxima à de um motor a gasolina.

Negócio$$$   Curioso a GM vender um Suzuki chamando-o de Chevrolet? Não, negócios. A GM é sócia da Suzuki no Japão; são associadas no Canadá, e a Suzuki tem mínimos 2% da GM Argentina.

Indústria automobilística é atividade de ganhar dinheiro, sem sentimentalismos, de modo que qualquer carro de qualquer marca pode ser vendido por qualquer concorrente, desde que seja negócio bom para os dois. Fidelidade à marca, ao emblema, brasão, escudo, é coisa de consumidor, não é de fabricante.

Quer saber quem produz o motor, sem nenhuma identificação ? A Mazda, uma empresa Ford.

Começou com picape, virou namoro

Os entendimentos entre a Ford e a Maxion International, empresas brasileiras, na formatação de uma poderosa versão de picape evoluíram para um acordo comercial: a International fornecerá motores para uma divisão da Ford, a Power Products, que os distribuirá nos EUA e Europa, num volume projetado para atingir 25 mil unidades em 2005.

O começo das conversas das duas empresas se iniciou pela necessidade de expansão de novos mercados externos, e a Ford Brasil resolveu tentar uma opção do seu imponente picape F250, formatando um veículo não existente no Brasil: cabine dupla, tração nas quatro rodas, puxados por um monumental motor diesel de 8 cilindros em V, 7,3 litros de cilindrada e torque em poucos vistos 80 m.kgf.

Destinar-se-ia à Austrália. Em testes o produto deu tão certo, com a insolitude do motor somando-se ao volume do F250 e mais o adjutório de tração e a adição em flexibilidade de uso, favorecida pela cabine dupla, que a Ford decidiu lançar o veículo no país.

Com a disponibilização da informação, a empresa de produtos de força da corporação entendeu que os motores podem aumentar sua relação de produtos, fechando negócio para a sua distribuição em grandes mercados. É um começo de entendimentos sérios nestes tempos de fusões, aquisições e joint-ventures. A produtora de motores chama-se no Brasil Maxion International. Funciona nas instalações da Agrale, em Caxias do Sul, e é controlada pela International, conhecida fábrica de caminhões que se instalou no Brasil em 1926, fechou em 1964, vendeu instalações industriais para a Chrysler numa de suas vindas para operações em nosso país.

A International tentou voltar com representação nos anos 80, e mais recentemente fez acordo com a Maxion Motores, acabando por adquiri-la. Hoje a empresa produz caminhões e motores. Tivesse ainda as ferramentas que produziram o Scout -- um misto de jipe com picape e utilitário-esporte que fabricou entre 1961 e 1980 -- faria enorme sucesso reeditando-o neste mercado, onde jipe tem preço de carro de luxo e onde agricultor só tem como opção - ou falta de - o Toyota Bandeirante.

Sem frescuras   Falar a linguagem do cliente é o objetivo de todo vendedor. O anúncio dos picapes Ford publicados em revistas mostram que a marca está falando o dialeto certo. O título diz Vendem mais porque não são fresquinhas -- um Exocet de precisão com o cliente e suas demandas.

Roda-a-roda
MENOS $$$ - Mal chegado ao mercado doméstico, o Ford Focus levantou uma láurea interessante: é o veículo com menor custo de reparação do país. Garante a Ford com um laudo do CESVI, Centro de Experimentação de Segurança Viária dirigido às empresas seguradoras.
MUDANÇA - A Agrale deixou de ser a importadora das motos italianas Ducati. Assume o negócio a Moto GB Industrial Ltda., que pretende potencializar a estrutura de distribuição, aumentando clientela e vendas.
OFF-ROAD - O crescimento do mercado brasileiro para veículos com aptidão ao rodar fora de estrada provocou a Monroe a importar amortecedores de sua matriz norte-americana. São os conhecidos modelos Rancho, de construção robusta, com tecnologia de gás celular e regulagem externa, que dispensa a retirada da peça para aumento ou redução de pressão. Tem ampla gama de aplicações, mas o preço é um desestímulo: R$ 1.200 o jogo de quatro.
LÁ, TAMBÉM - Em outubro a Toyota brasileira arranjou uma complicação com a Honda a partir de dados técnicos discutíveis a respeito de consumo do Corolla em relação ao Civic. Em janeiro, a equivalente norte-americana bisou a livre interpretação de engenharia nos EUA, ao anunciar que seu utilitário-esporte SW4 tem maior espaço que a geração Expedition/Navigator da Ford/Lincoln. A marca de Detroit pulou sobre as rodas e acusa a Toyota de utilizar parâmetros de engenharia que já foram substituídos por outros, atualizados.

Os fins justificam os meios, ensinava Machiavelli, pelo visto leitura recorrente da indústria montadora. No Brasil, há alguns anos, a Volkswagen -- para não perder a liderança para a Fiat no balanço anual de vendas -- somou caminhões e ônibus como se fossem veículos leves...
SEM PROBLEMAS - O governo do Estado do Rio quer vender sua cota de 32% nas ações da PSA -- a empresa que une e produz para Peugeot e Citroën -- em Porto Real, RJ. Na Europa dá-se como negócio sem problemas. A PSA quer comprar a parte do sócio e tomar conta do negócio, sem dar satisfações a ninguém -- exceto os acionistas franceses.
ACORDO - Brasil e México fecharam pioneiro acordo para exportação de autopeças. É novo mercado para motores diesel, não fabricados pelo parceiro. Por elocubrar, dá para trazer o picape Ford F150, produzido no México com motor a gasolina -- e eleito no Brasília Auto Show como veículo mais atrativo da mostra --, com motor diesel brasileiro.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br