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Seu Mercedes vem aí

Produção do Classe C em Juiz de Fora, para exportação,
abre caminho para venda no mercado interno

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação

Roberto NasserSonho de consumo de muitos motoristas brasileiros, os automóveis Mercedes-Benz, distantes por preço, podem estar reduzindo a distância entre o desejo e a possibilidade. Assim, se você quer comprar um Mercedes, tem meios integrais ou aproximados para isto, mas vive entre a dúvida de não querer o Classe A nacional e não se agradar em pagar dólares e impostos de importação por um Classe C, aplique o dinheiro e comece uma regulagem fina para o seu sonho de médio prazo.

Meu raciocínio é o seguinte: a mesa dos todo-poderosos senhores da DaimlerChrysler, a empresa que juntou Mercedes com Chrysler, decidiu compor a demanda superior pelo novo Classe C com a ociosidade industrial da fábrica do Classe A em Juiz de Fora, MG, definindo pequenos investimentos para montagem do Classe C na, como lá se diz orgulhosamente, Manchester Mineira.

Processo industrialmente simples, tipo símio-acadêmico -- quer dizer, qualquer macaco ensinado faz: traz o automóvel inteiramente desmontado, aqui solda as latas; forma a carroceria; pinta-a; junta a mecânica, a eletroeletrônica, revestimentos, decoração e confortos sobre ela. Carro pronto, manda-o ao porto para exportação.

Como não há comercialização, as peças entram e saem sem pagar impostos; a mão de obra nacional é mais barata que a alemã; a fábrica de Juiz de Fora é a mais moderna da marca.

Por raciocínio simplório transformar este produto em nacional é coisa de alguns meses. Basta instigar os fornecedores de autopeças no Brasil a copiar componentes em qualidade, preço e volume, que somado à operação industrial atinja os 60% de nacionalização que os habilita às exportações. E aí, além do mercado brasileiro de poucos milhares de unidades/ano, há o do Mercosul, o do México, o da Venezuela se aproximando em acordo comercial. É muito mais um desafio à indústria de autopeças que qualquer outra dificuldade maior.

A fábrica de Juiz de Fora está parada. Correu para produzir e formar estoques do Classe A e agora terá férias de 60 dias. Quando reabrir, em janeiro de 2001, exibirá os Classe C saindo em direção ao porto.

Minha bola de cristal informa que mudar o destino das cegonhas de transporte é coisa para dois anos.

Brasília, salão, sucesso

O que era apenas uma sinalização lógica para uma oportunidade de somar um show às características de renda, capacidade de formação de opinião e gosto estético das faixas de renda mais elevada da capital federal, provou-se verdade incontroversa: a compatibilidade entre o mercado brasiliense e o Brasília Auto Show, realizado na ExpoBrasília de 8 a 12 de novembro.

Montado como um verdadeiro salão do automóvel, agrupava de um lado 12 marcas, com 11 novidades e lançamentos -- e mais veículos de especial atração como os carros presidenciais, automóveis caros e pouco acessíveis, além de veículos de coleção, uma exigência da cidade. E uma exposição náutica -- Brasília é o quarto mercado nacional na especialidade. Do outro, uma população com a maior renda per capita do país; a maior concentração de habitantes x veículos; o maior nível de escolaridade; o mais elevado consumo de obras de arte.

Cinco dias de realização, pouco mais de 50 mil pessoas pisaram em suas passarelas. Aparentemente uma quantidade pequena, mas que os expositores saudaram como a melhor amostragem do público que desejavam.

Ministros, políticos, executivos públicos, diplomatas. Revendedores de veículos de outros estados estiveram presentes. Um organizador de feiras de liquidação de estoques deixou a ética e a inibição no estacionamento e tentava cooptar
participantes a um feirão, na esteira da exposição de 161 veículos e 19 lanchas.

Comercialmente as vendas responderam com um ânimo que não imaginado, sobre veículos de maior preço. BMW comercializou um utilitário-esporte X5, um sedã 540i com itens Motorsport e um conversível Z3. A Fiat fez uma razia de Mareas sedãs, Weekends e Alfas 156, além de abrir fila para aquisição da versão Sportwagon. A Citroën vendeu Xantias, Xsaras e até o jipão Hummer em seus inatingíveis US$ 160 mil. Uma perua e dois sedãs S40 foram vendidos pela Volvo, enquanto a Suzuki comercializou as versões mais caras do jipe Grand Vitara -- os Jimny, mais baratos, não foram vendidos.

A Nara Veículos, concessionária que representava a fábrica Mitsubishi, acreditava desde o princípio em vendas qualificadas, projetando vender três unidades do Pajero Full, lançados em Brasília durante o show. Vendeu o estoque de 10 unidades, mais um Pajero pequeno e uma unidade da versão extraequipada do picape L200, atuando numa faixa entre R$ 60 mil e 120 mil. Em náutica o Brasília Boat Center registrou a venda de seis lanchas, e comemorou sua apresentação ao mercado local.

Pesquisa entre os visitantes indicou Mercedes e Ford como os estandes mais bonitos; Fiat e Ford como os mais visitados, e caracterizando o mercado Brasília como centro do maior mercado de picapes, o veículo indicado como o mais bonito do show foi o F150 Lightning (foto), importado e trazido pela Ford como sondagem de mercado.

Vendas na mostra e espraiadas pelos concessionários, interesses explícitos, teste-drives agendados, ausência de acidentes, incidentes e problemas, estandes amplos, boa distribuição espacial, ordem, limpeza, o Brasília Auto Show se encerrou com um sonoro buzinaço, assumindo a posição de segundo salão no Mercosul, no caminho da regionalização destas mostras como forma de integrar o país em torno do automóvel. E com duas certezas: é a fórmula de evento adequada à população de Brasília, num encontro de características; e pela soma de interesses, será evento permanente, voltando a ser realizado em 2002.

Regionalização

A maior importância do Brasília Auto Show não está, entretanto, na coragem de seus empreendedores, no apoio das fábricas, na formatação de um Salão do Automóvel, com mais relevo, por exemplo, que o de Buenos Aires. Está na proposta de regionalização destas mostras, surgida pela constatação do pequeno efeito de vendas e interesses provocados em outros estados pelo Salão do Automóvel em São Paulo.

Um país com tal dimensão territorial merece um tratamento regional, e a festa brasiliense assume sua personalidade de Salão do Automóvel pelo aval do governo federal, através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior que o patrocina. Um ícone do poder central aguardava os visitantes à porta: o Rolls-Royce que é o reserva da Presidência da República, uma limusine pouco conhecida, posto que as missões presidenciais são usualmente desempenhadas pela versão conversível.

Venezuela, um novo mercado para trocas

Depois do México, o Brasil caminha para um acordo comercial sobre veículos com a Venezuela, terceiro mercado da América do Sul e não participante do Mercosul.

Trata-se de uma iniciativa particular, pró ativa, levada a efeito pela Anfavea e pela Cavenez, associações que reúnem os fabricantes dos dois países, e após sacramentados os acordos privados, serão levados aos respectivos governos para aprovação e implementação.

A exemplo do México, a idéia é o estabelecimento de uma alíquota comum de 8%, contra os 35% atualmente vigentes, e a uma cota quantitativa para ambos os países. Com o México a cota é de 90 mil veículos para os dois primeiros anos.

A Venezuela tem um mercado interno de 150 mil unidades anuais e é compradora de veículos brasileiros. A Fiat venezuelana, por exemplo, encerrou suas operações industriais e passou a importar unidades feitas em Betim. A GM exporta Corsas e já anunciou exportar o Celta a partir do próximo ano.

Hoje a balança comercial entre os dois países é desequilibrada. O Brasil importa US$ 1 bilhão em petróleo e exporta a metade em manufaturados. A Anfavea tem sido uma das ferramentas mais úteis ao governo neste processo de sobrevivência que é abrir mercados e incrementar negócios externos.

Roda-a-roda
ENFIM... - Dívidas impagáveis, de US$ 16 bilhões; falta de acordo com interessados em sua aquisição; e desentendimento com os sindicatos dos empregados, que se negavam a concordar com a dispensa de funcionários, levaram à decretação da falência da Daewoo, segunda maior marca da Coréia. Algum dia alguém explicará a mágica de fazer uma indústria em poucos anos; de transformar projetos superados em outros países em carros baratos -- e principalmente de acumular prejuízos de magnitude antológica.
EU, HEIN? - Fechou, acabou. É este o desenho mundial da sociedade industrial. Mas a representação da Daewoo no Brasil afirma que não haverão problemas com peças, pois segundo alega, as indústrias coreanas continuarão a produzir componentes de reposição. Se com a fábrica funcionando, peça de carro importado, representado, é uma dificuldade, imagine sem a fábrica. Ironia à parte, houve uma mudança de status. O Daewoo era um automóvel, virou um problema.
AVESTRUZ - De Kiyoshige Ishi, presidente da Suzuki no Brasil, durante o Brasília Auto Show, anunciando o novo motor dois-litros diesel, turbo e intercooler que equipará o Grand Vitara no próximo ano: a Suzuki e a Ford -- o motor é Mazda, controlada pela Ford -- fizeram testes com as variedades regionais de diesel (este país confunde matriz energética, com enérgica desorganização!) e o motor resistiu.
SÍNTESE - As tintas Renner, que eram brasileiras, foram absorvidas pela Du Pont. E agora as duas foram compradas pela Protech, multinacional canadense. É a globalização da globalização.
NÃO VEM - A Mercedes-Benz negou estar analisando a possibilidade de importar o Smart, seu pequeno carro urbano de dois cilindros. Justifica, obviamente, que com dólar caro e custos de importação, o preço final não o transformaria em um concorrente do mercado, mas num brinquedo caro, de poucas unidades. Hoje um concessionário da marca em Belo Horizonte, a Minas Máquinas, vende algumas unidades de importação privada -- e só. Carro urbano no Brasil, só quando houver uma política de mobilidade para os grandes centros. E isto parece muito distante das preocupações oficiais.
PÉ ATRÁS - Começou mal a Nissan no Brasil. Teoricamente nascida no dia primeiro do mês, como substituta da importadora, a empresa responsável pela marca não assume a marca, mas o curioso nome de Colibri. Quanto à rede de assistência a seus usuários, as oficinas antigas foram descredenciadas e as novas ainda não operam. Cliente em Brasília, por exemplo, tem duas opções para assistência técnica: Belo Horizonte, MG, a 716 km, e João Pessoa, PB, a 1.311 km.
SOLUÇÕES - A Agência Nacional de Petróleo baixou norma que transforma os donos de postos de combustível em fiscais de sua qualidade. Pelo ato, os postos devem recolher amostras à hora do recebimento, verificar dados que permitam aferir a falsificação grosseira, e armazenar as amostras até que a fiscalização do órgão apareça para conferir.
POR PENSAR - Se a Agência, que tem delegação legal para fiscalizar, não consegue cumprir sua missão, como saberá, por exemplo, se o mau caráter que é dono de posto e vende combustível adulterado não guardará apenas amostras perfeitas neste antidopping automotivo?
AUMENTO - A GM aumentou o preço do Celta em 1,8%. O pequeno automóvel custa agora R$ 13.640 pela Internet e R$ 14.400 nos concessionários. Considerou o automóvel como bem lançado e bem aceito e por isto não quer disputar o mercado através de preço.
DIESEL - Motor diesel MWM 2.8 é a mais nova atração do jipe Troller, produzido no Ceará. A pequena montadora substituiu o AP 2000 Volkswagen, o motor do Santana. O diesel, apesar de mais caro, é mais adequado ao veículo, cujo leque de preços abre a R$ 37 mil com capota de lona e decoração simples, e vai até R$ 47 mil com capota rígida e equipamentos de conforto. No Brasil o mercado para jipe continua altamente atrativo.
SCÉNIC - A Renault desconversa quando o assunto é a atualização de estilo da Scénic, que já tem cara nova na França desde 1999. A mudança está prevista para o primeiro semestre.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br