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Salão fecha ciclo histórico

Quarenta anos depois, as marcas brasileiras deram
lugar a uma invasão de multinacionais

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação

Roberto NasserSe alguém buscar um rótulo para caracterizar a 21ª. edição do Salão do Automóvel, terá que resumi-lo como o encerrar de um ciclo. O ponto de início é em 1960, data vista referencialmente como início da industrialização do automóvel no país, marco do primeiro dos Salões do Automóvel.

Quarenta anos depois, a mostra pode ser chamada de Ver para Crer, ao apresentar o fim do ciclo, cujo último trecho foi o projeto governamental para a atração de novas montadoras ao país. A exposição tem, mais que a caracterização festiva de uma exposição de veículos, a explícita demonstração que, sob o ponto de vista da co-optação de novas montadoras ao país, e a conseqüência de novos produtos, é a prova viva e palpável que o política automotiva, sob o ângulo de atrair novas indústrias deu certo. A mostra fecha o ciclo.

Lá estão, junto com as atrações da montadoras tradicionais, os veículos que os newcomers, as novas aderentes ao programa automotivo do governo federal, prometeram tirar da linha de montagem de suas novas instalações, implantadas no país como resultado da adesão aos incentivos governamentais para a ampliação da atividade de fazer veículos.

Fechando o ciclo como as derradeiras marcas a se viabilizar industrialmente, as francesas Citroën e Peugeot apresentam respectivamente o monovolume Picasso, já em fabricação, e o Peugeot 206, cuja comercialização terá início em abril. Outras aderentes, como a Honda, já estão na segunda geração do produto brasileiro, com o Civic todo reformulado, ou a Renault, com o desdobramento de seus novidadosos produtos.

As autopeças, setor ao qual o Brasil deve a viabilização de sua indústria montadora, também está presente com uma exposição fotográfica contando seus 50 anos de operação no país. É também o quase encerrar de um ciclo. As indústrias, que eram nacionais, não sobreviveram à globalização, e hoje em quase sua totalidade foram transferidas ou absorvidas pelo capital estrangeiro.

Não é festa seca ou desatrativa. Como evento, esta 21ª. edição do Salão do Automóvel, realizada no parque do Anhembi, São Paulo, até o domingo 22, tem todos os envolvimentos periféricos a este tipo de show: estandes amplos, bem produzidos, com moças bonitas cercando veículos atrativos, farto material de divulgação, luzes, cores, atrações, e mais a moda negocial do momento, as vendas por comércio eletrônico.

Do salão

Futuros clientes

A Fiat resolveu aproveitar sua boa ligação com a comunidade e com o público adolescente para lançar um bem achado projeto, o Meu Primeiro Fiat. Destina-se a conquistar futuros clientes através de um sistema de capitalização realizado através da Sul América Seguros, através do qual os responsáveis pelo menor escolhem um plano de contribuição mensal, que rende juros e formam quantia bastante à compra de um veículo Fiat.

Questão de receio

O espaço do salão está sinalizado, apontando saídas de emergência. Jornalistas têm seguro de saúde. Medidas conseqüentes e resultado do acidente no estande da Volkswagen em 1996, quando se descobriu o despreparo do Salão para enfrentar eventualidades. Outra constatação, os estandes com dois andares têm sólidas estruturas de metal, diferentes das madeirinhas de fácil rompimento empregadas anteriormente. Não vi meu nome nas placas de sinalização, mas concluí, como ferido, humilhado e ofendido à época, que nada como uma reclamação formal ao então Ministério da Indústria, Comércio e Turismo, para corrigir as mazelas.

E-commerce toma força

Contestada, criticada, mas crescentemente adotada, a forma de aquisição através da Internet, o E-commerce, está presente ao Salão. Objeto da argumentação das montadoras que é um caminho irreversível; que permite menos preços por reduzir custos tributários, e de preocupação dos distribuidores, revendedores e concessionários, pois toma-lhes virtualmente clientes físicos, o sistema mostrava saúde. Depois da Fiat, precursora com as vendas do Mille on Line, a GM comercializa o Celta, e a Ford apresentou uma versão do Fiesta projetado especialmente para ser vendido pela internet e grandes frotistas. É o Street, mais simplificado e que custa R$ 13.710, entregue ao cliente.

Questão de Focus

A Ford começa a faturar o Focus aos distribuidores da marca na última semana deste mês. O automóvel será importado à razão de 1.500 unidades/mês, em versões de carroceria sedã quatro-portas e hatch com cinco, com motorização 2.0 e 1.8, ambas com 16 válvulas e tecnologia Zetec. Foi adequado por engenheiros da Ford Brasil na Argentina, onde é produzido, para ser exportado e utilizado aqui.

É um automóvel bem formulado; com a maior distância entre eixos na categoria, propiciando invulgar espaço entre bancos; um painel integrado. Oferece uma noção de unidade de comportamento e habitabilidade, e a noção de que parece um automóvel projetado para ter maior porte.

É uma boa imagem. Exatamente o que a Ford precisa para combinar-se com o momento que experimenta, da volta às boas vendas da liderança em picapes, do reposicionamento do Fiesta; das campanhas de propaganda que perderam o ar de nouvelle vague e voltaram-se ao simplório objetivo de vender veículos.

O Focus não terá vendas volumosas, capazes de fazer números miraculosos e alavancar a expansão da marca, mas chega no momento certo, trazendo a imagem que o consumidor brasileiro tem a respeito dos Ford -- carros confiáveis, bem construídos, bem decorados, finalizados com

qualidade e cuidado. Pode ser o automóvel para atender à necessidade conceitual da Ford, um bom produto, um objeto referencial, um automóvel que pode provocar o mercado, gerando interesse, procura e demanda constante.

Seu êxito depende apenas de um fator simples, sem muita filosofia e explicações. Chama-se preço. Se baixo, fará do Focus "o" Ford. Alto, será apenas mais um.

Cinto muito

A General Motors conclama todos os proprietários de Corsa e Tigra -- importado que utiliza a mesma plataforma -- a comparecer aos concessionários da marca para trocar as peças de ancoragem dos cintos de segurança dianteiros. Percebeu a empresa, depois de avaliar cintos de um picape Corsa no qual um ocupante morreu por ruptura do sistema, e de pequena frota de testes, que as peças desenvolvidas para o mercado europeu não são adequadas ao mercado brasileiro.

Suas avaliações são no sentido que a quantidade de buracos e irregularidades provocam um desgaste e microfraturas no material, que se rompe quando solicitado ao extremo, permitindo que os usuários se choquem com a parte frontal de volante ou painel.

A postura da GM é correta por um lado, mas desgastante por outro. É que a empresa chegou a esta conclusão há cerca de um ano, e não alterou o sistema ou substituiu as peças. Nestes tempos de milênio, com certeza enfrentará muitos questionamentos judiciais por eventos e por periclitação da vida dos usuários de Corsa. E em tempo de lançamento, como o do Celta, que utiliza basicamente a mesma plataforma, desgasta a novidade com inseparáveis dúvidas.

De olho no salão
DE FORA - A globalização trouxe novidades. Os estandes da Ford, Volkswagen, General Motors, Mercedes-Benz e Renault foram importados e montados por técnicos estrangeiros. As indústrias contratam fornecedores para um estande que corre mundo. Com isto as empresas brasileiras de arquitetura promocional perdem espaço e faturamento.
DE FORA - II - Não será surpresa se a próxima edição do Salão do Automóvel for organizada por uma empresa estrangeira, associada à Alcântara Machado, sua tradicional promotora. Os europeus vêm ampliando sua ação e já assumiram as nacionais Guazelli e a Tag Benix. O Brasil já um mercado internacionalmente importante, reflexo da expressão numérica de sua indústria.
SURPRESA - A Volkswagen de México trouxe um grupo de jornalistas para conhecer o salão do mercado para onde exportarão o Bora, feito por ela. Os profissionais se deslumbraram com a imponência da mostra, com a variedade de marcas, com o aparato dos estandes, com a beleza das pessoas. O México cresce a 7% por ano e tem uma indústria automobilística numericamente similar à nossa, baseando sua operação em exportações.
SUPERIORIDADE - Em meio aos conflitos que enfrenta, com seus pneus acusados de causar a morte de mais de 100 pessoas, a Firestone foi para o Salão e exibiu o pneu acusado. Uma jornalista venezuelana, país onde a briga com a Firestone assume proporções latinas, achou um acinte.
CUSTO - A globalização chegou ao preço dos ingressos do Salão. Inteira a R$ 15, meia a R$ 10, e estacionamento mais R$ 10. Programa de casal e dois filhos começava a seco em R$ 50.
SAIA JUSTA - Foi um sem-graça a explicação Toyota para ter feito um reprint, uma impressão de parte da revista Quatro Rodas, sobre a autonomia de seu modelo Corolla relativamente a seu concorrente maior, o Honda Civic. A revista errou, reduzindo a capacidade do tanque do Civic, e houve a maior abrasão entre as marcas e a Editora Abril.
SALTO ALTO - Tirante recall do Corsa, a questão mais emergente no Salão era o relacionamento entre os revendedores Nissan e a marca. Os comerciantes, antes ligados à importadora Nisbra, receberam um aviso que a partir de 1º. de novembro estão fora do negócio. E a Nissan, como fábrica, não disse se serão reaproveitados. E arranjou uma assessora de imprensa, que subiu nas tamancas quando perguntada como ficaria a situação, fugindo da questão, que está sem resposta. Assessora que não assessora?
TENDÊNCIA - A julgar pela presença, a atividade automobilística que mais cresce no setor é a blindagem de veículos. Antes feitas para carros de ricos, chegaram aos da classe média e agora aos automóveis 1.000. É a involução social. Chegamos à colombialização da violência.
MARKETING - Deu certo o projeto de marketing pessoal do editor de automóveis do jornal Tribuna da Imprensa, do Rio. Forma de chamar atenções, nas entrevistas fez perguntas incabidas e traçou cenários os mais estapafúrdios. Ao final, os jornalistas e assessores das fábricas não sabiam como rotulá-lo. Mala sem alça e mesa baixa eram as definições mais amenas.
RELÓGIO - A rapidez dos Ferraris não influenciou Francisco Longo, seu representante no Brasil. Deu um chá de espera nos jornalistas, atrasando sua entrevista em quase uma hora, e não disse bem ao que veio. Pelo discurso curto, foi chamado, à meia-voz, de Francisco, o Breve.
MICO - O mesmo Longo, depois de afirmar que o Ferrari F360 Spider era o carro mais bonito do mundo (parece que por ter chegado fora do horário, não teve tempo de olhar o estande da Jaguar e seus XK8...), mandou uma mocinha demonstrar o mecanismo automático da capota -- que não funcionou direito. Uma aba do complicado sistema não se recolheu.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br