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Um picape para pensar

S10 com motor 2,8 turbodiesel merece reflexão: vale a
pena pagar mais pela economia no abastecimento?

por Roberto Nasser - Fotos: divulgação

Roberto NasserDirigi a versão cabine dupla do picape S10 da General Motors equipada com o motor MWM 2.8 turbo diesel. Não é versão isolada, mas uma família em torno desta motorização. Hoje a GM oferece três opções no mais recente desdobramento de sua prolífica família: picape cabine simples, cabine dupla e o utilitário Blazer.

Não portam diferenças maiores relativamente às demais versões, exceto pelo motor, seu comportamento e reflexos -- especialmente no bolso. Como elemento devorador de combustível para produzir energia, o diesel é volumetricamente mais contido, consumindo menos que as opções a gasolina, V6 de 4,3 litros e L4 de 2,2 litros. E como o diesel paga menos impostos, custa mais próximo da realidade -- ou seja, substancialmente menos que a hipertaxada gasolina. A soma das condicionantes -- uma de caráter mecânico e outra de foco político -- tem um resultado no mais prático dos varejos: a sua carteira, seu talão de cheques ou seu cartão de crédito passam a ter menos uso.

No uso revelou-se bem dimensionado, boa capacidade de aceleração, boa estabilidade direcional e boa dirigibilidade. A direção é razoavelmente precisa, somente atrapalhada e inibida quando se engata, via botão no painel, a tração no eixo dianteiro. Andei numa laminha, saiu-se bem. E fiz uma viagem de 1.000 km, estrada boa, andando à noite porquanto não gosto de intimidades com Polícia Rodoviária, e chegou a fazer 12 km/litro.

O porquê

O surgimento deste ramo familiar tem explicação óbvia. A GM tem perdido terreno nas vendas de picapes. Seu slogan -- Pickup é território Chevrolet -- está ameaçado pela queda na participação no universo de compradores, e na recente pesquisa nacional Top of Mind - Rural 2.000, a marca Ford recebeu mais de 35% das indicações expontâneas.

A GM perdeu a liderança na comercialização do segmento dos picapes pesados, acima de uma tonelada, com os problemas de projeto e construção que enfrentou com o Silverado, e ainda a mudança de sua produção para a Argentina, e retorno recente, além da superação de linhas
comparativamente ao F250, concorrente da Ford que assumiu a liderança. O picape Corsa, no outro extremo, é o de menores vendas no segmento.

Na família destes veículos médios, enfrenta a concorrência do Ford Ranger, hoje muito bem dimensionado e do novidadoso Dodge Dakota, tamanho médio mas em corte amplo. E tem a seu desfavor o fato de ter sido lançado antes que os concorrentes de origem norte-americana, e por isto seu visual tem pouco apelo. Com relação à configuração mecânica os picapes diesel, de cabine dupla e 4x4 enfrentam a concorrência nipônica, com o Mitsubishi L200 feito no Brasil e o Toyota Hilux 4x4 argentino -- embora construtiva e aplicativamente sejam veículos mais direcionados ao trabalho.

Mudar para o uso de um engenho mais atualizado, uma boa referência tecnológica, foi um caminho de lógica.

Pense bem

O desempenho é bem diferenciado das gerações anteriores. A aceleração é equivalente a um bom automóvel com motor 1.6, e a velocidade final beira os 170 km/hora -- o que significa que a velocidade de cruzeiro é sem sacrifícios.

O motor vibra pouco - ou melhor, transmite poucas vibrações. Não apenas pelo projeto -- é classificado como diesel de alta rotação, podendo ser trabalhado até os 4.500 giros por minuto, como era, por exemplo, o motor do Fusquinha 1.300. A redução das vibrações, uma característica dos diesel de trabalho -- pois os que hoje são aplicados aos automóveis europeus são suaves e silenciosos como bons motores europeus a gasolina -- ocorre pelo uso de um volante do motor em dupla massa, que funciona como um amortecedor torcional. Conseqüência adicional, o disco da embreagem é menor, com maior durabilidade e menor esforço operacional. Mas, apesar da tecnologia é barulhento.

Se é Bayer é bom? Depende do tipo de uso. Se você é um asfaltóide que anda quilometragem baixa ou média, não é o seu caso. Se você precisa de um picape para sair do fundo da grota e abrir caminho até chegar à picada, também não -- este tipo de tração é para dar dirigibilidade e não para arrancar toco. O diesel é bom na hora de reabastecer. Acelera melhor que um S10 com motor de quatro cilindros -- e não faz vantagem porque o 2.2 é para o serviço de automóveis, diferente das exigências de caminhão pequeno. Você paga mais pela motorização diesel e é preciso ter um rodar muito elevado para amortizá-lo com a economia no consumo. E se você não precisa de tração nas quatro rodas, melhor considerar outra opção.

Os S10 cabine-dupla com motor 2.8 MWM turbodiesel e seus 132 cv em versão completa são encontráveis via Internet, por R$ 51.800. Isto significa R$ 17 mil ou 50% mais caro que uma cabine dupla com o pequeno, esforçado e adaptado motor 2.2.

E relativamente aos Toyota e Mitsubishi, situados em nível mais adequado a aplicativas de trabalho duro, tem preço idêntico. Ou seja, é veículo cuja aquisição demanda um sério balanço entre aplicação de capital, tipo de uso e sua intensidade.

Uma traseira à francesa

A Renault marcou a apresentação da versão sedã do Clio, caracterizada pela aposição de um porta-malas projetado à traseira. Para o mercado, um três volumes. O automóvel não atende à propalada preferência nacional por traseiras exibidas e bem feitas -- pois não é fruto de demanda do mercado local. Já existe na Turquia. Motorização 1.0 e 1.6. A exibição à imprensa, deflagrando o processo comercial, será na histórica cidade de Pirenópolis, GO, aos 29 de agosto.

De motores e de anúncios

No Brasil de hoje há uma nova safra de motores referenciais. O Zetec Rocam da Ford, o Fire 1.3 da Fiat, o novo Marea 2.4, o VW 1.0 16-válvulas Turbo, o Mercedes A 160 e 190. Por razões e ópticas diversas, das marcas somente a Volkswagen fala claramente das vantagens de seu motor, e ainda faz piada em seu mais recente anúncio, citando siglas e expressões que caracterizam os vários engenhos, resumindo: "não é o nome que faz o motor, mas o motor que faz o nome". Bela síntese.

Os anúncios da Ford são para intelectuais ou público rico, porque não vão á essência: é melhor por isto e por aquilo e não custa mais caro, ou custa menos... Os do Fiat 1.3 mistura Fire com Wire, peças anglo-saxônicas com carro latino, e não conta o essencial e visível ao bolso: que anda como um 1.500 e gasta como um 1.100. O Mercedes Classe A tem tantas novidades construtivas que não se detém nos motores. O Marea, quanto utilizava o 2.0 cinco-cilindros, nunca enfatizou este passo adiante em tecnologia, e nesta versão 2.4 tampa o engenho com uma anônima termoacústica placa de plástico, escondendo sua configuração diferenciada.

Não sei se os anúncios seguem a filosofia do Chacrinha, o famoso animador televisivo, que queria confundir, e não explicar -- ou se não há mais orgulho na engenharia. Se for o primeiro caso é fácil corrigir, alertando os redatores dos anúncios. Mas se for o segundo caso, o automóvel e sua individualidade terão sido pasteurizados, homogeneizados, estandardizados, perderam a graça e a provocação.

Roda-a-roda
HERÓI - Este país dos ativos Cacciola e Lalau, e dos omissos fiscais da lei, precisava de heróis. Guga levantou a taça; Rubinho subiu ao pódio; Cristiano da Matta está sendo sondado por Frank Williams para ir para a Fórmula 1. A alma brasileira está lavada, pois aparentemente somos o país do furto, da concussão, da impunidade -- mas temos nossas vitoriazinhas.
FULL - Os Pajero da Mitsubishi, praticamente imutáveis desde o início da década, serão substituídos por uma versão atualizada. No caso não se trata do iO nem do Sport, mas do que a fábrica chama de Full, o Pajero com aquela configuração construtiva de "carro de ir". A designação indica dimensionamento mecânico que lhe permite exercer, quase à plenitude, a última das sensações descobertas pelo homem, a mobilidade. O lançamento será no meio de setembro.
SOFÁ - O governo resolveu estabelecer a margem máxima para a revenda de gasolina. Como não há fiscalização e as falsificações do combustível existem em grande percentual, a medida é um incentivo à compensação dos lucros via adulteração. Não seria mais fácil organizar esta história de combustíveis definindo uma matriz energética; torcendo a orelha dos responsáveis pela Agência Nacional de Combustíveis, desmontando seu enclave carioca, trazendo-a para Brasília; revisando a listagem dos componentes que entram no cálculo para o estabelecimento do preço da gasolina; e definindo as responsabilidades dos usineiros de álcool neste processo?
CLIO - A Renault não aproveitará a oportunidade de apresentação do Clio versão três-volumes para mostrar o novo motor 1.000 com 16 válvulas, que substituirá o atual, com oito. Quer evento próprio.
HERMANOS - A visita de Vicente Fox, presidente eleito do México, pode ajudar a transformar o acordo comercial entre os dois países em uma sólida passarela negocial. Vencidos os arrepios e temores bilaterais, o negócio pode engrenar. Por conta, a Volkswagen dá o primeiro passo: lançará à imprensa brasileira o Bora, feito no México e que será importado para complementar a família Golf. Final de setembro.

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Correspondência para o autor: rnasser@mymail.com.br